Transição ideológica | AGÊNCIA FAPESP

Segundo estudo feito por Timothy Power, da Universidade de Oxford, congressistas brasileiros acham que partidos políticos se deslocam continuamente para a direita, especialmente quando chegam ao poder (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Transição ideológica

06 de agosto de 2008

Fábio Reynol, de Campinas

Agência FAPESP – A cada ano, desde 1990, o norte-americano Timothy Power, do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, na Inglaterra, envia religiosamente um questionário a todos os congressistas brasileiros. A partir das opiniões dos parlamentares que se dispuseram a responder (cerca de 20%, no último ano), o pesquisador traçou um panorama sobre a percepção da ideologia dos partidos políticos.

O trabalho foi encerrado no ano passado e apresentado pela primeira vez no Brasil na última quinta-feira (30/7), durante o 6º Encontro da Sociedade Brasileira de Ciência Política, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Power, que é autor de diversos livros sobre política brasileira e foi presidente da Associação de Estudos Brasileiros (Brasa), sediada nos Estados Unidos, detectou uma convergência ideológica dos partidos políticos, com as siglas de esquerda se alinhando às posições de centro e de direita.

Esse movimento, segundo ele, foi particularmente notório em 1995, quando o PSDB assumiu o poder federal, e em 2003, quando foi a vez de o PT subir a rampa do Palácio do Planalto.

“Quando esses partidos assumiram o poder, imediatamente suas reputações ideológicas se deslocaram para a direita”, observou Power. Cabe dizer que, nessa questão, os parlamentares não puderam opinar a respeito do próprio partido.

Enquanto PSDB e PT se afastaram da esquerda, na percepção dos parlamentares, o PFL (atual DEM), que nunca assumiu diretamente o governo federal, teve sempre os mesmos índices de percepção, com a maioria dos entrevistados o relacionando com a direita. Outro ponto identificado pelo pesquisador foi a semelhança ideológica entre PSDB e PMDB: ambos tiveram índices próximos, que os situaram como partidos de centro-direita.

A evolução da percepção ideológica dos partidos brasileiros ao longo de quase duas décadas foi registrada em gráficos. No início da década de 1990, o PT se encontrava praticamente isolado na esquerda nacional. Com o passar do tempo, ele foi se deslocando para o centro, com o topo da trajetória sendo atingido em 2003, no primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Forças Armadas

A composição do congresso entre liberais e socialistas também fez parte do trabalho de Power, que observou uma hegemonia de congressistas liberais no ano de 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, considerado por ele a época de ouro do liberalismo.

Apesar de ser menor nos dias de hoje, a presença do pensamento liberal é verificada em novos nichos. “Em 2005, encontrei seis parlamentares do PT que disseram que o Estado não deveria ter papel algum na economia. Isso era algo impensável há 20 anos”, disse.

Os congressistas também foram questionados sobre o papel das Forças Armadas e sobre o regime militar. Atualmente, só 20% apóiam a idéia de que o ministro da Defesa deva ser um militar, enquanto na época do governo de Itamar Franco, em 1993, esse índice era próximo de 70%.

Apenas metade do Congresso Nacional considera legítima a intervenção das Forças Armadas para manter a ordem, como prevê a Constituição Federal. Ao todo, Power usou cinco perguntas para criar o que chamou de “índice de nostalgia do governo militar”.

O pesquisador norte-americano detectou que a nostalgia vem caindo entre os congressistas ao longo do tempo, notoriamente no PFL, que apresentava os maiores índices nos anos 1990.

Ao ser questionado sobre o porquê do movimento de convergência se dar sempre para a direita, Power disse que “a direita não precisaria mudar, porque já pratica as políticas que os mercados querem”.

Democracia latino-americana

A mesa-redonda no 6º Encontro da Sociedade Brasileira de Ciência Política contou ainda com a participação do embaixador do Chile na Argentina, Luis Maira, que traçou mudanças no conceito de democracia no continente nos últimos 50 anos.

Maira destacou alterações que qualificou como “assombrosas” na democracia desde a década de 1960, época em que foi usada como ferramenta tática para tentar chegar ao poder. Nos anos 1970, ela praticamente desapareceu do continente sul-americano: apenas Colômbia e Venezuela mantiveram governos civis e democráticos.

A abertura política nos anos 1980 levou, segundo Maira, à instalação de governos neoliberais que provocaram o aumento da pobreza e a conseqüente crítica da sociedade em relação aos regimes democráticos. No novo século, o atentado terrorista de 2001 aos Estados Unidos teria mudado radicalmente o panorama do continente.

Segundo Maira, os países da América do Norte aderiram a uma política mais ligada à segurança. As demais nações americanas, como não ofereciam riscos, acabaram se distanciando dessa política e ganhando um grau de autonomia jamais visto.

“Quanto tempo demoraria, na década de 1970, para os Estados Unidos derrubarem um chefe de estado como Hugo Chávez, que chamou o presidente norte-americano de demônio? Naquela época eles invadiam países por muito menos”, disse o diplomata chileno.

Assuntos mais procurados