Índices integrados | AGÊNCIA FAPESP

Reunidos em workshop na FAPESP, cientistas de três países concluem que a construção de índices globais para avaliação de tecnologias será fundamental para impulsionar o desenvolvimento da nova geração de biocombustíveis (Foto: Marcelo Meletti)

Índices integrados

14 de agosto de 2009

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – O próximo passo em direção à produção sustentável de energias alternativas deverá ser a criação de índices globais que possibilitem a comparação das tecnologias de produção de bioenergia atualmente disponíveis ou em desenvolvimento em diferentes países.

Essa foi uma das conclusões do workshop Tecnologias em biocombustíveis e suas implicações no uso da água e da terra, encerrado nesta quinta-feira (13/8) na sede da FAPESP, em São Paulo. Entre os dias 10 e 12 de agosto, o evento ocorreu em Atibaia (SP).

Promovido pelo Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) e pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Biotecnologia para o Bioetanol, o workshop reuniu cientistas do Brasil, Estados Unidos e Argentina com o objetivo de diagnosticar problemas na produção de bioenergia e orientar investimentos de agências de fomento à ciência e tecnologia na busca de soluções em áreas-chave.

De acordo com o coordenador do comitê brasileiro no workshop, Marcos Buckeridge, professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP), um dos principais consensos entre os pesquisadores dos três países foi a necessidade de criar um sistema integrado de avaliação dos impactos dos biocombustíveis.

“O debate foi intenso e muito produtivo. Um dos pontos mais importantes foi a sugestão de equalizar os índices disponíveis em cada um dos países, possibilitando a avaliação e a comparação dos impactos das tecnologias em desenvolvimento sobre o ciclo da água e sobre o uso da terra”, disse à Agência FAPESP.

Segundo Buckeridge, os participantes concluíram que os índices globais devem incluir dados sobre balanço energético, escassez e uso da água, fatores econômicos, saúde do solo, questões sociais e impactos na biodiversidade.

“Essas informações globais serão importantes para que os países possam negociar acordos sobre o clima e tratados comerciais. De outro lado, também foram identificadas muitas questões locais que serão relevantes para direcionar políticas públicas. Por exemplo, a disponibilidade de terra, que é muito maior no Brasil, mas se torna um problema sério para a expansão da bioenergia na Argentina e nos Estados Unidos”, destacou.

A interação entre os pesquisadores dos três países, segundo Buckeridge, atingiu um nível sem precedentes durante o workshop. “São os três países com mais interesse em biocombustíveis nas Américas. A vantagem dessa interação é a possibilidade de alinhar as pesquisas no momento em que vamos partir para a segunda geração do etanol”, disse o pesquisador, que é um dos responsáveis pela seção de Biomassa do BIOEN e um dos integrantes da coordenação da área de biologia da FAPESP.

O desenvolvimento da tecnologia de etanol de segunda geração, produzido a partir da celulose presente nos resíduos da cana-de-açúcar, deverá ter grande impacto sobre o uso da água e da terra. “Com uma tecnologia de alta eficiência à disposição, poderemos utilizar muito menos água e terra”, afirmou.

Agências financiadoras

O evento também gerou uma interação que transcende a esfera estritamente científica. “O encontro possibilitou um grande avanço do lado político, pois tivemos a presença de representantes das principais agências de fomento a pesquisa nos três países, que detalharam profundamente as linhas de financiamento disponíveis e discutiram possibilidades de integração de programas e iniciativas. Isso poderá nortear o futuro da cooperação internacional nessa área”, disse Buckeridge.

Participaram do workshop representantes da FAPESP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da National Science Foundation (NSF), dos Estados Unidos, e do Ministério da Ciência e Tecnologia da Argentina.

Outra conclusão das discussões realizadas em Atibaia foi a necessidade de integrar aos estudos mais pesquisadores das áreas de ciências sociais. “A questão dos biocombustíveis é transdisciplinar por definição. Ela se caracteriza por uma demanda da sociedade e precisa dar respostas que considerem todos os aspectos. É preciso que os cientistas sociais sejam incluídos nesse processo desde o início. Só assim o conhecimento deles poderá contribuir para nortear as estratégias de cooperação”, apontou Buckeridge.

Integração rápida

Segundo o coordenador do comitê norte-americano do workshop, Robert Anex, da Universidade Estadual de Iowa, o evento já começou a render frutos: parte dos pesquisadores envolvidos apresentou possibilidades de trabalhos conjuntos a serem conduzidos a partir da próxima semana.

“Muitos dos participantes começaram a trocar dados e modelos sobre impactos ambientais da agricultura ligada aos biocombustíveis. A interdisciplinaridade, que é uma das nossas maiores preocupações, fez parte do evento, que teve participação de pessoas de diversas áreas – de especialistas em tecnologias de produção e de conversão, de sociólogos, economistas e biólogos, por exemplo”, disse.

Para Anex, os avanços na área de bioenergia são inviáveis sem cooperação internacional. “Os problemas que tratamos no workshop são extremamente internacionais e, em especial, pan-americanos. A exportação mundial de soja – que é uma matriz para biodiesel – é completamente dominada por esses três países, enquanto a produção de etanol está praticamente toda no Brasil e nos Estados Unidos.”

“Embora um país produza o etanol a partir da cana-de-açúcar e o outro a partir do milho, as tecnologias básicas envolvidas são as mesmas. As questões relacionadas às tecnologias de segunda e terceira geração são ainda mais universais. Por isso temos muito conhecimento a ser compartilhado”, disse.
 

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