Flores paulistas | AGÊNCIA FAPESP

Sexto volume da coleção Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, que será lançado nesta sexta-feira (13/11), traz a descrição detalhada, com ilustrações, de 398 espécies que produzem flores (Flora Fanerogâmica ESP)

Flores paulistas

13 de novembro de 2009

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – O sexto volume da coleção Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, que será lançado nesta sexta-feira (13/11), às 16h30, no Instituto de Botânica de São Paulo (IBt), dá continuidade a um mapeamento abrangente das espécies que produzem flores – ou fanerógamas – em território paulista. A edição atual traz a descrição detalhada, com ilustrações, de 398 espécies de 58 gêneros e quatro famílias.

A série nasceu a partir do Projeto Temático FAPESP com o mesmo nome da coleção, iniciado em 1993 e que envolve mais de 200 pesquisadores sob coordenação de Maria das Graças Lapa Wanderley, do IBt, George Shepherd, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Therezinha Melhem (IBt) e Ana Maria Giulietti (Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS). A equipe de coordenação incluiu, no atual volume, a pesquisadora Suzana Martins, do IBt.

De acordo com Maria das Graças, o sexto volume teve a participação de 20 pesquisadores de diversas instituições e apresenta descrições das famílias das melastomatáceas, poligonáceas, sapindáceas e esterculiáceas. Além das quatro famílias do volume atual, foram descritas em toda a série, até o momento, 130 famílias de angiospermas e duas de gimnospermas.

Das 7,5 mil espécies de fanerógamas estimadas para o Estado de São Paulo, já foram descritas 2.767, de 118 gêneros, perfazendo 37% do total. Os números passam por constante atualização conforme os volumes vão sendo publicados, uma vez que é frequente ocorrer sinonímia ou a descoberta de novas espécies.

“As informações contidas nos seis volumes servem de base para a identificação de espécies de plantas nativas e subespontâneas – aquelas que não são nativas, mas foram incorporadas à flora local – de São Paulo. Um dos aspectos importantes é que essas informações servem ainda como apoio para a elaboração de outras floras regionais e para a comunidade científica e a sociedade como um todo”, disse Maria das Graças à Agência FAPESP.

Como ocorreu nos demais volumes, a edição atual seguiu o padrão estabelecido pelas normas do projeto Flora Fenerogâmica, criadas por uma comissão de pesquisadores e atualizadas durante o desenvolvimento das monografias. “As monografias contêm descrições da família, gêneros e espécies. Chaves para gêneros e espécies e ilustrações dos táxons também estão incluídas”, disse.

A nova edição inclui um índice de todas as famílias publicadas até o momento, resumindo o estado atual da obra. “A série contém preciosas informações sobre a diversidade vegetal paulista, reunindo informações taxonômicas, distribuição geográfica e comentários ecológicos das espécies ocorrentes no Estado”, afirmou. As ilustrações botânicas, de alta qualidade, foram feitas por 19 artistas.

Segundo Maria das Graças, a descoberta de vários táxons inéditos para a ciência e novos registros de ocorrência para o Estado reforçam a necessidade de prosseguir na linha de pesquisa adotada pelo projeto. “A detecção de áreas geográficas pouco exploradas durante o desenvolvimento do projeto estimula a ampliação de novas coletas botânicas para o melhor conhecimento da biodiversidade paulista”, disse.

Os cálculos feitos indicam que o Estado de São Paulo reúne uma flora equivalente a dois terços da existente em toda a Europa. O projeto deverá abarcar praticamente a totalidade dessa riqueza vegetal. O grupo já dispõe de material para mais dois volumes, que deverão ser lançados nos próximos três anos.

“Além desses dois volumes em fase de editoração, planejamos a publicação posterior de quatro volumes dedicados a famílias muito grandes, como a das orquidáceas e a das leguminosas. Nesses casos, cada volume corresponderá a apenas uma família”, disse. O projeto prevê ainda a atualização dos volumes anteriores a partir da publicação de artigos complementares, incluindo versões on-line.

Maria das Graças conta que o Programa Biota-FAPESP tem uma proposta de produzir, a partir de 2010, uma lista das espécies da flora paulista. “Vamos somar esforços. A partir daí, planejamos a publicação de um checklist completo das espécies de fanerógamas do Estado de São Paulo. Essa lista não apresentará a descrição, mas indicará a distribuição geográfica por família, gênero e espécie e incluirá pelo menos um voucher, isto é, um registro de material de herbário. A lista completa dará grande visibilidade à flora paulista.”

A pesquisadora lembra que nenhum projeto de flora no Brasil foi concluído até hoje. “O Flora Fanerogâmica é o único projeto de inventário da flora no Brasil que tem preocupação de publicação contínua. Já temos um volume muito satisfatório de monografias, com qualidade reconhecida”, afirmou.

A família das melastomatáceas (Melastomataceae) é a mais numerosa do sexto volume, apresentando 248 espécies, 30 gêneros e 248 espécies. Dez autores participaram do inventário dessa família, sob coordenação de Angela Borges Martins, da Unicamp. “Essa família apresenta grande importância para a flora do Estado, com grande representação de plantas ornamentais, especialmente na Mata Atlântica”, disse Maria das Graças.

Segundo ela, com um número tão elevado de espécies, é difícil exemplificar e destacar alguma planta em especial. “A família das melastomatáceas tem muita importância pela diversidade de espécies e ocorre em todas as regiões e em praticamente todos os ecossistemas do Estado de São Paulo, tanto em áreas muito preservadas como em áreas no início da sucessão ecológica.”

O sexto volume é dedicado à artista inglesa Margaret Mee (1909-1988), no centenário de seu nascimento, pelo seu grande entusiasmo e amor pela natureza. “Suas obras são conhecidas no mundo inteiro, refletindo muito da diversidade vegetal brasileira”, destacou Maria das Graças.

Novas espécies

A presença das melastomatáceas e sua importância nos diversos ecossistemas paulistas são marcantes. “Principalmente na floresta ombrófila densa, onde, nos estágios iniciais, torna-se abundante o manacá (Tibouchina) e o jacatirão (Miconia). Há outras em florestas mais preservadas, geralmente ocupando o sub-bosque, representada por plantas herbáceas, como a Salpinga e a Bertolonia – algumas delas muito raras e ameaçadas de extinção –, e arbustivas, como a Leandra e a Miconia, além de algumas epífitas como a Pleiochiton”, explicou Maria das Graças.

Nas fisionomias campestres, como campos rupestres, campos de altitude e campos de Cerrado, a família das melastomatáceas se torna ainda mais especial, tanto pela riqueza em espécies como pela abundância de indivíduos.

“Infelizmente, pela ocupação e degradação desses ambientes, muitas espécies naturais dessas formações estão representadas na flora de São Paulo por exemplares coletados há mais de 50 anos, podendo ser consideradas presumivelmente extintas no Estado. Um exemplo é o gênero Microlicia: das nove espécies citadas para o Estado, três não foram mais encontradas”, disse.

Há ainda muitas espécies que podem ser consideradas raras, ocorrentes nos campos e cerrados, com poucas coletas ou com distribuição restrita a apenas poucas localidades, como, por exemplo, algumas espécies de Leandra, Rhynchanthera, Siphanthera e Tibouchina.

“Além disso, a família conta com espécies ornamentais, algumas já utilizadas na arborização urbana – como as quaresmeiras e o manacá (Tibouchina spp.) – e na ornamentação de jardins e praças. Entretanto, há muitas outras espécies com grande potencial ornamental ainda pouco explorado”, explicou a pesquisadora.

As poligonáceas (Polygonaceae) tiveram registros de 34 espécies e seis gêneros, cujas monografias foram produzidas por Efigênia de Melo e Washington Marcondes-Ferreira.

“Apesar de as espécies desta família não apresentarem flores vistosas, elas são muito utilizadas na arborização urbana. É o caso do pau-de-novato (Triplaris americana), que se torna ornamental pelos seus frutos alados róseos ou vináceos”, disse Maria das Graças.

O gênero Polygonum é considerado cosmopolita, sendo representado em São Paulo por 14 espécies, geralmente conhecidas como erva-de-bicho, que ocorrem em ambientes alagáveis ou ruderais.

Genise Vieira Sommer, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), coordenou outras três pesquisadoras no levantamento sobre a família das sapindáceas (Sapindaceae), descrevendo 88 espécies de 15 gêneros.

“Das 88 espécies referidas para São Paulo, 60 são trepadeiras, geralmente muito comuns nas bordas de florestas. Algumas são consideradas invasoras. Muitas dessas trepadeiras têm o nome popular de cipó-timbó e eram utilizadas para a pesca”, disse Maria das Graças.

Entre as plantas arbóreas dessa família, segundo ela, destacam-se as dos gêneros Cupania e Matayba, frequentes nas florestas paulistas. “O sabão-de-soldado (Sapindus saponaria) é bastante utilizado na arborização urbana e a pitomba (Talisia esculenta) é muito cultivada e consumida pelos seus frutos adocicados”, disse.

A família das esterculiáceas (Sterculiaceae), que completa o sexto volume da coleção com 28 espécies de sete gêneros, foi inventariada sob a coordenação de Flávia Ribeiro Cruz e Gerleni Lopes Esteves, do IBt.

“As espécies mais conhecidas dessa família são o mutambo (Guazuma ulmifolia), amplamente distribuída na floresta estacional semidecidual e no Cerrado paulista, e o chichá (Sterculia curiosa), sendo que sua última coleta em hábitat natural data de 1885 e atualmente é apenas encontrada cultivada como ornamental”, disse Maria das Graças.

O gênero Ayenia, natural dos Cerrados, apresenta três espécies no Estado de São Paulo. “Uma delas pode ser considerada presumivelmente extinta, pela ausência de novos registros há mais de 70 anos, e as outras duas espécies são muito raras, com um ou dois materiais depositados nos herbários”, contou.

O sexto volume da coleção apresenta três novas espécies descritas recentemente, uma em 2005 e duas em 2007, e que foram denominadas a partir dos nomes de coordenadores do Flora Fanerogâmica. A Leandra hermogenesii homenageia o professor Hermógenes de Freitas Leitão Filho, mentor do projeto, falecido em 1996. “É uma espécie restrita ao município de Cunha, no interior paulista, em formação de floresta ombrófila densa”, explicou Suzana Martins, do IBt.

A Leandra lapae, que homenageia Maria das Graças Lapa Wanderley, é uma nova espécie coletada somente no município de São Paulo, na região de Parelheiros. George Shepherd foi homenageado com a Miconia shepherdii. “Essa espécie ocorre em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, em formações florestais sobre as serras da Bocaina e Mantiqueira”, disse Suzana.

Participaram do sexto volume do Flora Fanerogâmica pesquisadores do IBt, da Unicamp, da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, da UFRRJ, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, da UEFS, das universidades federais Fluminense, do Rio de Janeiro, do Paraná, de Santa Catarina e de Uberlândia e do Instituto de Botánica del Nordeste, da Argentina.

O lançamento do livro ocorrerá a partir das 16h30 no Instituto de Botânica, Av. Miguel Stefano 3.687, São Paulo. 

  • Título: Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo - Volume 6
    Preço: R$ 100
    Editora: Instituto de Botânica
    Vendas: www.ibot.sp.gov.br ou (11) 5073-6300 – ramal 313.
     
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