Faces da inovação | AGÊNCIA FAPESP

Produção científica brasileira e construção de um laboratório de pesquisa no país foram os temas de Marco Antonio Zago (USP) e Fabio Gandour (IBM) em mesa de discussão sobre livro Inovações Tecnológicas no Brasil: Desempenho, Políticas e Potencial (E.Cesar/FAPESP)

Faces da inovação

30 de junho de 2011

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – A FAPESP realizou, nesta quarta-feira (29/6), uma mesa de discussão sobre os temas do livro Inovações Tecnológicas no Brasil: Desempenho, Políticas e Potencial. Lançado no início do mês, o livro foi organizado por Ricardo Ubiraci Sennes, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, e Antonio Britto Filho, presidente executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).

Durante o evento, o pró-reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), Marco Antonio Zago, apresentou uma análise sobre a situação atual da produção científica brasileira e sua relação com a questão da inovação. Em seguida, Fabio Gandour, cientista-chefe da IBM Brasil, apresentou um depoimento sobre sua experiência em convencer a matriz da empresa nos Estados Unidos a implantar um laboratório de pesquisas no Brasil.

O livro, editado pela Cultura Acadêmica em parceria com a Interfarma, é uma coletânea de análises de gestores na área de ciência e tecnologia sobre a problemática que envolve o desenvolvimento de pesquisa no Brasil.

Entre os autores dos artigos reunidos na publicação, além de Zago e Gandour, estão o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, e o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Coordenação Adjunta de Pesquisa para Inovação da FAPESP, Sérgio Robles Reis de Queiroz.

Zago destacou que a produção científica é um dos diversos componentes da questão da inovação, embora muitos ainda vejam os dois termos, de forma errônea, como contraditórios. De acordo com ele, a produção científica brasileira tem uma característica central: um crescimento acelerado e heterogêneo.

“O crescimento proporcional da produção científica brasileira é o segundo do mundo, ficando atrás apenas da China. Em 1996, o Brasil estava em 25º lugar no mundo em relação à produção científica e em 2008 já havia alcançado o 14º lugar. Mas esse crescimento é puxado por alguns segmentos nos quais o avanço é maior, como a área de saúde”, disse.

Em termos de qualidade, no entanto, a produção científica do Brasil não faz tanto sucesso, segundo Zago. Ele afirmou que, no número de citações – critério usado com frequência para auferir a qualidade da produção científica de um país –, o Brasil ainda não alcançou países como a Índia e a Coreia e permanece bem distante dos países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos.

“Conclui-se que a ciência brasileira teve um crescimento quantitativo significativo, mas ainda deixa a desejar no aspecto qualitativo. Isso tem impacto na inovação. Por outro lado, mesmo em termos quantitativos, quando comparamos a nossa produção científica à da China – que tem avançado rapidamente em termos de inovação –, vemos que os dois países têm um perfil muito diferente”, afirmou.

De acordo com Zago, no Brasil, as áreas com maior produção científica são a Medicina, em primeiro lugar, as Ciências Biológicas e Agrárias em segundo e a Física e Astrofísica em terceiro. Já na China, a Engenharia predomina, com a Física e Astrofísica em segundo lugar e as Ciências de Materiais em terceiro.

“Não precisamos seguir o modelo chinês, mas queremos que nossa produção científica também resulte em inovação e sabemos que áreas como engenharia são as que tradicionalmente trazem resultados nesse sentido. Outro sintoma da nossa situação é que na China a área de Computação está em quarto lugar, enquanto no Brasil está em décimo”, disse.

Esse padrão tem ligação com as principais áreas em que o Brasil forma doutores. Segundo Zago, entre 1996 e 2008, as áreas de Ciências Humanas e Sociais passaram de 26% para 32% dos doutores formados. No mesmo período, as áreas de Ciências Agrárias foram de 10% para 12% do total. Em Ciências Biológicas, houve uma queda de 33% para 30%. Em Exatas e Engenharia, a queda foi abrupta: de 30% para 22% dos doutores formados.

“Mesmo com a produção científica e a formação de doutores aumentando, o Brasil está caminhando no sentido inverso ao que deveria para ter mais inovação. Além disso, a nossa produção científica tem muito pouco impacto”, afirmou.

Segundo Zago, uma pesquisa em bases de dados de produção científica mostra que, de 94.406 artigos assinados por pesquisadores brasileiros, apenas 149 (0,19%) eram considerados de alto impacto, com mais de 200 citações. “Mas, entre esses 149, apenas 26 eram originários exclusivamente do Brasil. Os outros 123 estavam relacionados a grandes consórcios internacionais, grupos colaborativos e testes clínicos multicêntricos”, disse.

Gênese de um laboratório

Gandour contou que nesta quarta-feira (29/6) a IBM inaugurou, em São Paulo, um núcleo para a efetivação tangível do laboratório de pesquisa. Outro núcleo semelhante, batizado como “ninho de cérebros”, foi implantado no Rio de Janeiro.

“É o primeiro passo para a criação do primeiro laboratório brasileiro da Divisão de Pesquisa da IBM. Mas quando se noticia nos jornais a construção de um laboratório de pesquisas de uma indústria a impressão é que foi um processo fácil, que apareceu pronto. Mas foi um trabalho intenso de seis anos desde a ideia inicial”, disse.

Segundo ele, foi preciso encontrar maneiras criativas para “vender” o Brasil aos executivos da empresa nos Estados Unidos, a fim de convencê-los a adotar o país como sede do novo laboratório. A IBM tem atualmente oito laboratórios de pesquisa: três deles em território norte-americano, além de outros cinco na China, Japão, Índia, Israel e Suíça.

“O estudo inicial considerou 70 países para a implantação do laboratório. Precisei enfrentar concorrentes como os Emirados Árabes, que baseavam sua candidatura nos petrodólares. Foi preciso chamar a atenção para os atrativos locais – como a estabilidade política e econômica –, mostrar o vigor acadêmico do Brasil e destacar as incríveis condições relacionadas a recursos naturais e sociais, como o fato de o Brasil ter 15% da água potável e 22% da terra arável do mundo e 33 milhões de famílias de classe média”, destacou.

Um dos pontos que mais impressionaram os norte-americanos foi o custo anual de um pós-graduando brasileiro, que, segundo Gandour, gira em torno de US$ 110 mil. Enquanto isso, o pós-graduando norte-americano custa aproximadamente US$ 350 mil por ano.

“O pós-graduando norte-americano tem acesso enorme à infraestrutura tecnológica. Isso poderia ser considerado bom, a princípio. Mas sabemos que esse ambiente com muita instrumentação inibe a capacidade de pensamento abstrato. Achamos que o pós-graduando brasileiro, usando papel e lápis, é capaz de fazer muito mais que um norte-americano”, ponderou.

Segundo Gandour, a tarefa mais trabalhosa e demorada relacionada à construção do laboratório foi a de selecionar, no leque das disciplinas tradicionais, os pilares de sustentação do laboratório na ciência brasileira, para que se pudesse construir uma agenda de trabalho. Foram quase dez meses até a definição desses pilares: ciências de serviços, gerenciamento e energia.

“O laboratório no Brasil trabalhará com recursos naturais, com ênfase em petróleo e gás, por causa do pré-sal; em sistemas humanos, com ênfase em megaeventos, por conta da Copa do Mundo e Olimpíadas; e em microeletrônica de baixa complexidade com ênfase em semicondutores e empacotamento”, contou.

Segundo Gandour, o objetivo é alinhar esse modelo à estratégia mundial da IBM, que definiu como a busca de “um mundo mais inteligente”. O laboratório terá um modelo de ciência como negócio por meio de pesquisa colaborativa.

“O principal insumo de produção são neurônios de boa qualidade – isso é muito mais importante do que a instrumentação. Temos dois ninhos de cérebros até agora, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Não sabemos ainda onde serão as instalações físicas do laboratório. Quando tivermos ideia das necessidades de instrumentação, definiremos o local”, disse.
 

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