Editor da esperança | AGÊNCIA FAPESP

Capa da brochura em homenagem a Massao Ohno, distribuída no evento organizado pelo Instituto Moreira Salles

Editor da esperança

10 de dezembro de 2004

Agência FAPESP - "É um poeta dos livros, um monge que dedicou sua vida a isto. Publicou a Antologia dos novíssimos, em 1960, na velha prensa da rua Vergueiro. Ele está aí nesse meio tempo como um Dom Quixote a combater a miséria de um tempo feito quase só de angústias", diz o poeta e romancista Álvaro Alves de Faria.

O Dom Quixote, também chamado de "trabalhador do invisível", "guru-zen", ou simplesmente "editor", é Massao Ohno, referência – e por muitas vezes única esperança – de toda uma geração de poetas. Aos 68 anos, está completando 45 anos da atividade quixotesca de lançar livros incomuns de autores até então pouco conhecidos.

Para comemorar a importância de seu trabalho, o Instituto Moreira Salles (IMS) realizou na segunda-feira (6/12) à noite, em São Paulo, uma homenagem à qual compareceram muitos admiradores e amigos. No evento, que contou com uma exposição de livros por ele lançados, Ohno recebeu uma placa.

Cláudio Willer, Renata Pallottini, Eduardo Alves da Costa, Roberto Piva, Celso Luís Paulini, Paulo del Greco, Carlos Felipe Moisés e, claro, Hilda Hilst, são alguns dos nomes cuja importância para a literatura brasileira Ohno ajudou a definir.

Nascido em São Paulo, filho de pais japoneses, Ohno formou-se dentista, diferente dos outros oito irmãos, todos engenheiros. Mas, ainda mais inusitada, foi a escolha de outro caminho. Gostava mesmo é das palavras. Impedido pelos pais, não pode estudar filosofia ou letras. Não foi preciso: tornou-se editor.

"Editava autores desconhecidos, na grande maioria poetas, e seu nome, para muitos deles, transformou-se numa tábua de salvação", diz o jornalista Geraldo Mayrink, na introdução da brochura Homenagem a Massao Ohno, publicada pelo IMS e distribuída no evento.

A empresa de antes, assim como a gráfica da Vergueiro, não existe mais. Mas a atividade continua, teimosa e necessária. "Não interrompeu suas edições. Agora as produz ‘em câmera lenta’ e até o fim de 2004 lançará mais seis ou sete títulos, de autores cujos nomes não revela mas que ‘surpreenderão a muita gente’", disse a Mayrink.

José Mindlin, Heloisa Buarque de Holanda e Mauro Salles são alguns dos autores dos depoimentos que marcam a brochura em homenagem ao editor. "Sem Massao Ohno a poesia novíssima não se teria editado, como não teria vindo à luz, pode-se dizer, grande parte da produção inicial dos jovens poetas de São Paulo nos últimos 30 anos", afirma em outro texto o poeta Antonio Fernando De Franceschi,

"Massao Ohno, para quem vinha, como eu, do interior do estado de São Paulo, era, nos anos 60, uma referência quase que mítica. Mágica, com certeza, para os que, jovens poetas, buscavam publicar seus livros, os primeiros e suas seqüências", diz Carlos Vogt, presidente da FAPESP, em outro depoimento. Foi pelas mãos de Ohno, que Vogt publicou seu primeiro livro de poesias, Cantografia – O itinerário do carteiro cartógrafo (1982), que viria a receber o prêmio de revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

"Infelizmente não há um catálogo de tudo que ele editou, algo que já se faz necessário para que as novas gerações saibam quantos novos autores foram editados por esse construtor que, se não construiu catedrais, deixou ao menos inúmeros castelos", diz outro editor, Plinio Martins Filho.


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