Duelo de estrelas | AGÊNCIA FAPESP

Próximo do centro da Via Láctea duas estrelas estão duelando. E isso vai ocorrer pelos próximos 1 milhão de anos

Duelo de estrelas

11 de abril de 2006

Agência FAPESP - O cenário não é formado pelas ruas empoeiradas do Velho Oeste. O duelo, desta vez, está ocorrendo próximo ao centro da Via Láctea e vai demorar mais 1 milhão de anos para ser decidido. Pela primeira vez, um grupo de pesquisadores consegue demonstrar e identificar um caso concreto de duelo estelar. Ou será um suicídio assistido?

Em 1986, o astrônomo João Steiner, que atualmente além de investigar as estrelas também dirige o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), identificou o sistema binário, que ele, então, passou a acompanhar. O nome do objeto em questão é V 617 Sagitarii. É lá que está ocorrendo um fenômeno astronômico interessante, apresentado em forma de artigo científico por Steiner e colaboradores, todos brasileiros, na revista Astronomy and Astrophysics Letters. É a primeira vez que se demonstra um caso concreto de duelo estelar.

"Estrelas binárias são bastante comuns na galáxia. Nesses casos, os dois corpos interagem entre si, por estarem bem próximos", explica Steiner à Agência FAPESP. "Existe um conjunto, chamado de variáveis cataclísmicas, onde uma anã branca captura matéria (em forma de gás) da sua companheira (normalmente uma estrela anã vermelha) formando um disco brilhante", acrescenta Steiner. É exatamente esse o caso dos corpos celestes acompanhados no Brasil desde a década de 1980.

Em vez de apenas duas estrelas, em 1998, Steiner e Marcos Dias, também do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, propuseram a existência de uma nova classe de estrelas, que eles passaram a chamar de V Sagittae. "Trata-se de um pequeno grupo de quatro estrelas que se comportam de forma semelhante ao sistema detectado antes", afirma Steiner.

A tese dos astrônomos brasileiros é que, ao contrário das estrelas normais, onde a energia é produzida por fusão nuclear no centro, no sistema binário estudado as coisas ocorrem de forma diferente. "A fusão nuclear ocorre na superfície da anã branca. Isso é possível desde que a captura de gás da companheira seja muito grande", diz o astrônomo paulista.

O ciclo detectado pela observação de um pedaço da Via Láctea é que vai levar a um efeito cataclísmico. "Está ocorrendo uma espécie de realimentação. A fusão nuclear na superfície da estrela gera uma grande luminosidade, que acaba interferindo na outra estrela. Ela passa a evaporar literalmente e perder mais da sua massa. Esse material disponível, então, é captado pela anã branca e assim sucessivamente." O duelo, então, está em curso.

"O fim será trágico. Ou uma das estrelas vai evaporar totalmente ou a anã branca vai explodir como uma supernova pelo excesso de massa. Cada uma das estrelas está tentando freneticamente destruir a outra", explica Steiner, que para provar essa hipótese teve que calcular com precisão o período orbital do sistema.

Segundo o pesquisador da USP, até parece número de Fórmula 1. "Esta pesquisa levou 18 anos. O período orbital medido é de 4 horas, 58 minutos, 19 segundos e 114 milésimos. "Verificamos também que o sistema vai sobreviver por, no máximo, mais 1 milhão de anos. Isto é mil vezes menos do que a vida de uma estrela binária normal", avisa o cientista.

Apesar do tempo cronológico ser bem diferente dos velhos duelos do oeste, que eram resolvidos em instantes, o desfecho, quando ele chegar, será bastante trivial. "Sabemos que algo vai acontecer em breve. Alguém deve morrer. Mas quem? No duelo isso depende de quem for mais rápido no gatilho. Apenas saberemos quando alguém cair no chão."


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