A inovação colaborativa para alavancar a bioeconomia | AGÊNCIA FAPESP

A inovação colaborativa para alavancar a bioeconomia Seminário PPPBio FAPESP: Políticas Públicas para o Desenvolvimento da Bioeconomia reuniu pesquisadores, representantes do poder público e da indústria (foto: Fernando Cunha/Agência FAPESP)

A inovação colaborativa para alavancar a bioeconomia

07 de agosto de 2017

Claudia Izique | Agência FAPESP – A Prefeitura de Campinas inicia agora, em agosto, a construção de um sistema de compostagem para transformar 200 toneladas diárias de resíduos urbanos vegetais em compostos orgânicos – algo em torno de 70 toneladas de adubo – que serão utilizados em áreas do município e em culturas do Instituto Agronômico (IAC), vinculado à Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, parceiro no projeto.

Batizado com o nome de Reciclar Verde, o sistema é o primeiro resultado do projeto Agropolo Campinas – Brasil, apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa Pesquisa em Políticas Públicas.

Inspirado em modelos internacionais – entre eles o Agropolis International, na França, e o Silicon Valley, nos Estados Unidos – o Agropolo Campinas busca soluções inovadoras em temas da bioeconomia como resíduos urbanos e agrícolas; energia, reciclagem de nutrientes e fertilizantes; tecnologias para agricultura de precisão; uso sustentável da água; alimentos funcionais; biocombustíveis avançados para aviação e transporte pesado; e biomassa para produtos químicos.

A empreitada reúne, em colaboração, universidades, institutos de pesquisa, os poderes públicos estadual e municipal e a iniciativa privada com o objetivo de identificar áreas estratégicas para traçar um roteiro (roadmap) que alavanque a participação da bioeconomia – uma economia sustentável, baseada em recursos biológicos – dos atuais 20% para 30% em 2025 e 40% em 2050 em plano nacional.

A meta é contribuir para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), criar produtos com alto valor agregado e aumentar o número e a qualidade dos empregos formais.

Campinas é, historicamente, um centro de produção de conhecimento e de tecnologia para o setor agropecuário e, mais recentemente, também para os setores de alimentos e de energia. Reúne, portanto, ingredientes estratégicos para transformar a região num polo de bieconomia. “O desafio não é técnico”, sublinhou Sérgio Carbonell, coordenador do projeto e diretor do IAC – fundado em 1887. “O desafio é formatar o ecossistema da bioeconomia com o conceito de inovação colaborativa envolvendo vários parceiros”, afirmou Carbonell.

Inovação colaborativa

Integram o projeto, além da Prefeitura de Campinas e do IAC, representantes dos Institutos de Tecnologia de Alimentos (Ital), Biológico (IB), as secretarias de Estado do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação e de Agricultura e Abastecimento, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o parque tecnológico Techno Park, em Campinas, e a Agropolis Internacional, associação francesa voltada para a pesquisa agronômica e o desenvolvimento sustentável.

Esses parceiros reuniram-se no seminário PPPBio FAPESP: Políticas Públicas para o Desenvolvimento da Bioeconomia, em 3 de agosto, na sede da Fundação, em São Paulo, para um balanço dos resultados do primeiro ano de atuação coletiva e para definir a contribuição de cada instituição para o avanço do projeto, tema de uma mesa mediada pelo reitor da Unicamp, Marcelo Knobel.

O encontro foi aberto pelo presidente da FAPESP, José Goldemberg, que lembrou o sucesso de mais de 30 anos de esforços para desenvolver uma agricultura moderna no país. “O que mais podemos fazer? O Agropolo Campinas busca uma resposta para essa questão.”

Os primeiros resultados – como a constituição do Reciclar Verde –, diagnósticos e um cardápio preliminar de recomendações foram apresentados pelos pesquisadores Luiz Cortez e Gustavo Paim França, da Unicamp, e por Heitor Cantarella e Luiz Madi, respectivamente, do IAC e do Ital, ligados à Secretaria de Agricultura e Abastecimento. Os resumos das apresentações estão disponíveis no endereço http://www.fapesp.br/eventos/pppbio.

Ações coordenadas

Projetos desse porte e ambição, que articulam cooperativamente distintos parceiros e instâncias de governo, exigem ação coordenada. “O Estado tem que identificar prioridades ou áreas estratégicas para depois qualificar e apoiar com financiamento e recursos humanos”, resumiu o vice-governador e secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, Márcio França.

Para o secretário de Agricultura e Abastecimento, Arnaldo Jardim, a experiência do Agropolo “entusiasma de forma acentuada” por três características básicas. “Primeiro pela temática, a bioeconomia. Segundo, pela construção dessa parceria que envolve o poder local. E, por fim, pelas instituições de pesquisa que fomentam essa iniciativa”, sublinhou.

Iniciativas como a do Agropolo dão resultado quando envolvem a participação dos cidadãos e o apoio da administração municipal, disse o prefeito de Campinas, Jonas Donizetti. “O Agropolo é um exemplo de como as cidades podem ajudar. O papel da prefeitura é estimular, fazer regras e leis que facilitem. Fizemos legislação muito boa na área de investimento e para startups, leis essas que favorecem a área tributária na inovação. A prefeitura faz as coisas acontecerem”, disse.

As perspectivas do projeto entusiasmam também representantes do setor privado. Jacyr da Silva Costa Filho, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e diretor da Divisão Brasil do grupo francês Tereos, na área do agronegócio, avaliou que, sobretudo no setor de bioeconomia, “não precisamos de financiamento público; precisamos sim motivar o investidor”. O Tereos é um dos acionistas controladores do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que, há menos de dois meses, teve aprovado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) o uso comercial da primeira cana-de-açúcar geneticamente modificada (Cana Bt) no mundo. O feito tem atraído a atenção de empresas privadas, mas o país tem que manter-se atento, “A oportunidade brasileiras estão passando”, alertou Costa Filho.

A expectativa é que as perspectivas abertas por iniciativas no âmbito da bioeconomia mobilizarão também pequenas e médias empresas. Ivan Hussini, diretor técnico do Sebrae São Paulo – que, no seminário, representava o presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos –, sublinhou que a instituição tem capilaridade e diversas ações em incubadoras e parques tecnológicos paulistas. “O nosso objetivo é desenvolver uma linha de empreendedorismo que forme uma cadeia em prol do desenvolvimento.” Lembrou, ainda, que o principal concorrente do país nessa área “está na China”.

“Ideias baseadas em ciência”

“Bioeconomia é um tema global”, reiterou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP. “Temos que ter ideias baseadas em ciência avançada e competitiva.” Considerou que o avanço da bioeconomia depende de aspectos “negociais, científicos e tecnológicos” e completou: “A FAPESP pode treinar gente qualificada, manter e estimular sistemas de pesquisa com referência mundial – e não local – e ainda apoiar iniciativas como a realização deste roadmap da bioeconomia.”

Enfatizando a importância da pesquisa para o avanço tecnológico, Brito Cruz lembrou que a Cana Bt, desenvolvida pelo CTC, pode ser considerada um dos legados do projeto Genoma da Cana, realizado pela FAPESP em 1998 em parceria com o CTC.

Junto com o projeto do Agropolo Campinas, ele completou, a FAPESP apoia outras iniciativas na área da bioeconomia. A Fundação mantém programas como o Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), Pesquisa em Biodiversidade (BIOTA) e Mudanças Climáticas, além de um Centro de Pesquisa em Química Sustentável, em parceria com a GlaxoSmithKline (GSK), para pesquisa em química verde com sede na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), um Centro de Pesquisa em Engenharia em parceria com a Peugeot/Citroën, com sede na Unicamp, para pesquisas com biocombustíveis, e o Centro de Biologia Química de Proteínas Quinases (SGC-Unicamp) para a investigação dessa molécula em agricultura, do qual também participa o Aché Laboratórios Farmacêuticos. “Isso sem falar que uma parte dos projetos do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) envolve áreas relacionadas com fertilizantes orgânicos, quantificação de levedura, controle de pragas, entre outros.”

Também participou do seminário o diretor-presidente do Conselho Técnico Administrativo (CTA) da FAPESP, Carlos Américo Pacheco.

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