Química distante da sociedade | AGÊNCIA FAPESP

Falta de atenção com a área de comunicação é principal explicação para imagem negativa da química junto ao público, diz Nicole Moreau, presidente da União Internacional da Química Pura e Aplicada (Iupac)

Química distante da sociedade

30 de agosto de 2011

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Para Nicole Jeanne Moreau, presidente da União Internacional da Química Pura e Aplicada (Iupac, na sigla em inglês), a química é uma ciência fascinante, que será essencial para resolver os principais desafios das próximas décadas, incluindo as questões da energia, do desenvolvimento sustentável, da saúde, dos novos materiais e da produção de alimentos.

Mas, segundo ela, a opinião não é compartilhada pela maioria dos cidadãos. Ao contrário, a imagem da química, especialmente nas nações ocidentais, está associada à poluição, à degradação ambiental, ao câncer e ao envenenamento.

Por conta disso, melhorar a imagem pública da química é a principal prioridade do Ano Internacional da Química (AIQ-2011), promovido pela Iupac e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

A cientista, que esteve no Brasil em maio, para a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), falou à Agência FAPESP sobre as dificuldades encontradas para reverter o que ela classifica como “uma percepção equivocada sobre a química”.

Moreau iniciou sua carreira de pesquisadora no laboratório de química da Escola Politécnica de Paris (França), depois de concluir doutorado na Universidade Paris-Sud, em 1967. Entre 1972 e 1993, trabalhou no laboratório de química da Escola Normal Superior de Paris e como pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS, na sigla em francês).

Em 1993, passou a lecionar na Universidade Pierre e Marie Curie, no Laboratório de Pesquisa Molecular sobre Antibióticos. Em 1999, assumiu o laboratório de Bioquímica da Escola Nacional Superior de Química de Paris, realizando estudos sobre sínteses orgânicas seletivas e produtos naturais.

A FAPESP mantém acordo de cooperação com a Iupac.

Agência FAPESP – Quando o Ano Internacional da Química foi lançado, a senhora declarou que uma das prioridades seria incentivar uma mudança na percepção que o público tem da química. Por que essa percepção é tão negativa?
Nicole Moreau – A verdade é que não somos bons em comunicação. Há muitas razões para isso, mas a conclusão é que a comunicação – da divulgação científica às relações públicas – nunca recebeu a atenção necessária na nossa área. O resultado foi a péssima imagem que a química tem hoje e que é tão difícil reverter. Já testemunhei inúmeros exemplos de aversão pública à química.

Agência FAPESP – Poderia contar um desses casos?
Moreau – Em 2010, a ONU [Organização das Nações Unidas] havia declarado o Ano Internacional da Biodiversidade. Andando pelo metrô de Paris, eu vi todas as estações decoradas com elementos que remetiam à questão da biodiversidade. Um ano antes, havia sido o Ano Internacional da Astronomia. Tudo nas estações remetia à astronomia. Então fui conversar com a direção do metrô para solicitar que fizessem o mesmo com o Ano Internacional da Química. Eles simplesmente se recusaram, argumentando que seria muito ruim para a imagem do metrô. É apenas um exemplo de como a imagem da química é tão ruim que ninguém quer se associar a ela.

Agência FAPESP – Como fazer para reverter essa noção?
Moreau – É um grande problema. Durante o AIQ-2011, estamos promovendo eventos que buscam uma aproximação direta com o público. O efeito é muito bom, mas pontual. Por exemplo, em março fui convidada pelo prefeito de uma pequena cidade na França, de menos de 10 mil habitantes, para um evento sobre Marie Curie. Eles fizeram um evento na frente da igreja e foi um sucesso comovente. Vieram camponeses, trabalhadores de todos os setores. Tomamos vinho juntos, tivemos contato direto com as pessoas e foi maravilhoso. Falamos sobre novas formas de energia, produtos de limpeza, fármacos. Eles entendiam o que significava. Mas não se pode fazer isso em todas as pequenas cidades. E nas cidades grandes o interesse é menor, há cinemas, bares, muitas opções de lazer. Então, o que falta é comunicação de massa. E é aí que falhamos.

Agência FAPESP – Por quê?
Moreau – Quando tivemos a cerimônia de lançamento do AIQ-2011, na Unesco, em Paris, contamos com a presença de alguns jornalistas. Nada muito impactante, mas vá lá, havia alguma mídia. Só que quando vinham falar conosco o assunto era sempre o mesmo: a indústria. É muito difícil fomentar o interesse em ciência no meio jornalístico. Outro exemplo disso é que só a Agência FAPESP fez a cobertura da Reunião Anual da SBQ, que é o maior evento de sociedades científicas do Brasil. Pensamos em fazer campanhas publicitárias para divulgar a química, mas é inviável. O ideal seria mesmo estimular o interesse da imprensa. Mas não sabemos como fazer isso.

Agência FAPESP – Por que as campanhas publicitárias são inviáveis?
Moreau – A academia não tem dinheiro para pagar campanhas de divulgação. Fizemos propostas, mas não podíamos investir valores que se elevam a 400 mil euros. A indústria poderia pagar, mas quando ela está envolvida perde-se completamente a confiabilidade. Então temos um problema sério. As sociedades científicas não têm verba. A academia não pensa em alertar os jornalistas e o público. A indústria gostaria de fazê-lo, mas não é considerada confiável, porque tem foco no lucro. Ficamos restritos ao noticiário de negócios.

Agência FAPESP – Mas a química é de fato importante no setor produtivo, não?
Moreau – Ninguém nega isso. A importância econômica da química é imensa. O David Phillips [presidente da Royal Society of Chemistry, do Reino Unido] destacou recentemente que mais de 21% do PIB da Inglaterra é proveniente de atividades ligadas às diversas áreas da química. Portanto, não me admira que o pessoal ligado à área de negócios seja atraído pelos temas da indústria química. Mas, mesmo com toda essa importância econômica, o público não fica sabendo que a química é uma ciência que tem muito a contribuir com a sustentabilidade do planeta e com o bem-estar das pessoas. Que possibilita o desenvolvimento de novos medicamentos, de alimentos, de novas fontes de energia e assim por diante.

Agência FAPESP – Como o público vê a química?
Moreau – Para o público a química significa poluição, sujeira, perigo, em oposição a tudo o que é limpo e saudável. Mas as pessoas esquecem que a medicina, as drogas, a energia vêm da química. Ninguém quer saber disso. E nós não sabemos exatamente como explicar ao público. Acho apenas que não devemos ficar na defensiva, tentando negar as acusações contra a química. Devemos apenas mostrar o que ela realmente é.

Agência FAPESP – Além de interferir na imagem da química, outra prioridade do AIQ-2011 é ressaltar o papel da mulher nessa ciência. Como estão se saindo nesse tema?
Moreau – A situação tem melhorado muito em todo o mundo e há muitas mulheres se destacando nas várias áreas da química. O número de mulheres na área não para de aumentar, até mesmo nos países muçulmanos. Na França, um pouco mais da metade dos estudantes é feminina. O problema é que quanto mais se sobe na carreira, menos há mulheres. Provavelmente porque elas se casam, deixam o trabalho e vão cuidar dos filhos. Mas acredito que isso só ocorre porque elas não recebem oportunidades das pessoas que ainda lideram as atividades na universidade e na indústria.

Agência FAPESP – O AIQ-2011 também tem o objetivo de atrair mais jovens para a área. Mas, mesmo com a imagem pública ruim da química, as sociedades científicas da área já são as maiores em número de membros. Por que a química precisa de tanta gente?
Moreau – Porque a química está em todo lugar. Ela é necessária para todas as outras ciências e para todas as indústrias. Até mesmo a indústria aeroespacial. Precisamos de químicos o tempo todo, ainda que eles não tenham um rótulo ‘eu sou um químico’. As ciências da vida, por exemplo, cresceram muito nos últimos anos e devem isso à química. A química inventa e a biologia usa.
 

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