Sequência de localizações (trajetórias) de usuários de telefonia móvel inferidas, onde cada cor representa um indivíduo distinto. Os dados foram utilizados no estudo sobre a variabilidade da mobilidade de moradores de favelas em São Paulo (imagem: Matheus Henrique Cunha Barboza)
Pesquisa com dados de telefonia móvel indica que a condição de moradia reduz a variabilidade de movimentações diárias
Pesquisa com dados de telefonia móvel indica que a condição de moradia reduz a variabilidade de movimentações diárias
Sequência de localizações (trajetórias) de usuários de telefonia móvel inferidas, onde cada cor representa um indivíduo distinto. Os dados foram utilizados no estudo sobre a variabilidade da mobilidade de moradores de favelas em São Paulo (imagem: Matheus Henrique Cunha Barboza)
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Um estudo baseado na análise de dados de telefonia móvel revela que moradores de favelas da cidade de São Paulo apresentam menor variabilidade nos seus padrões cotidianos de deslocamento do que moradores de áreas formais com renda semelhante.
O trabalho, publicado na revista Transportation, é assinado por Matheus Henrique Barboza, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), sob orientação de Mariana Giannotti, em coautoria com Anna Grigolon e Karst Geurs. A pesquisa integra a tese de doutorado de Barboza, desenvolvida em regime de dupla titulação entre a USP e a Universidade de Twente, nos Países Baixos.
Giannotti ressalta que os dados utilizados no estudo são de 2016 e não permitem extrapolações diretas para o presente. “Não é possível extrapolar no tempo, em especial considerando os efeitos da pandemia sobre o comportamento das pessoas. Por outro lado, entendemos que os resultados permanecem relevantes do ponto de vista analítico e conceitual, porque o estudo investiga mecanismos e relações estruturais entre mobilidade, renda, informalidade e condição residencial, associados a características mais persistentes da estrutura urbana”, afirma.
A análise baseou-se em 77 dias consecutivos de registros de telefonia móvel, totalizando cerca de 30 milhões de eventos associados a aproximadamente 6 mil usuários residentes em áreas localizadas dentro ou no entorno de favelas paulistanas. O foco do estudo foi a chamada variabilidade intrapessoal da mobilidade – isto é, quanto os trajetos de uma mesma pessoa mudam de um dia útil para outro.
“Grande parte dos estudos de transporte olha para um único dia da vida das pessoas. O que a gente foi explorar é o fato de que os dados de telefonia permitem observar o comportamento ao longo de várias semanas, algo que as pesquisas tradicionais não conseguem capturar”, explica Barboza.
Os resultados mostram que renda e condição de moradia em favela não são variáveis equivalentes. Mesmo após controlar estatisticamente fatores como renda média do setor censitário, uso do solo, densidade de empregos e acessibilidade ao transporte público, a variável “favela” permaneceu estatisticamente significativa. Em termos práticos, isso significa que duas pessoas com renda semelhante, vivendo em áreas próximas, podem apresentar padrões de deslocamento distintos apenas pelo fato de uma delas residir em favela.
Segundo Giannotti, a menor variabilidade observada entre moradores de favelas não deve ser interpretada automaticamente como sinal de maior estabilidade ou escolha. “Uma hipótese genérica inicial seria que moradores de favela enfrentam desafios adicionais, quando comparados com pessoas de mesma renda que moram em áreas urbanas fora de favelas. Dentre esses desafios, os próprios gargalos de infraestrutura relacionados à mobilidade, como vielas estreitas, íngremes, distância até o ponto de ônibus e ausência de calçadas em condições adequadas, podem impactar o acesso e, consequentemente, a variabilidade dos padrões de deslocamento”, afirma.
Os pesquisadores utilizaram registros de chamadas, mensagens e conexões de internet gerados automaticamente pelas operadoras de telefonia celular, conhecidos como call detail records (CDR). A partir da identificação das antenas utilizadas ao longo do tempo, foi possível reconstruir os deslocamentos cotidianos dos usuários e inferir seus locais de residência com base no padrão de permanência noturna.
Essas informações foram cruzadas com dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), bases de uso do solo da Prefeitura de São Paulo e estimativas de acessibilidade a empregos por transporte público. Para medir a variabilidade da mobilidade, os autores criaram um indicador específico: o número total de locais distintos que aparecem entre os três destinos mais frequentes de cada dia útil ao longo de quatro semanas.
Dois resultados se destacam. O primeiro é que pessoas de maior renda tendem a apresentar menor variabilidade nos deslocamentos diários, indicando rotinas mais estáveis. O segundo é que moradores de favelas também exibem menor variabilidade, mesmo estando, em geral, associados a condições de maior precariedade econômica.
“Embora trabalhadores informais tendam a apresentar maior variabilidade, por atuarem em múltiplos locais, viver em favela pode impor limites adicionais que reduzem essa flutuação”, observa Barboza.
Política pública
Além da contribuição acadêmica, o trabalho tem implicações diretas para o planejamento urbano e a formulação de políticas públicas. “A pesquisa fornece métodos para explorar dados de telefonia de modo a apoiar a elaboração de Planos de Mobilidade, que são obrigatórios para municípios com mais de 20 mil habitantes, conforme a Política Nacional de Mobilidade Urbana”, destaca Giannotti.
Segundo ela, pesquisas tradicionais de origem e destino são caras e inviáveis para muitos municípios. “Se os municípios conseguirem avançar no uso desse tipo de dado de telefonia e de bilhetagem para seus planos, isso será um avanço enorme para que tenhamos políticas públicas mais informadas por dados e evidências”, afirma.
De acordo com a pesquisadora, análises como as realizadas no estudo também podem subsidiar políticas específicas, como a adequação da oferta de transporte em áreas periféricas, o desenho de tarifas e subsídios mais compatíveis com rotinas de trabalho informal e a priorização de investimentos em infraestrutura e serviços onde a mobilidade cotidiana é mais restrita.
Os dados utilizados são anônimos e não permitem a identificação direta dos indivíduos. Segundo Barboza, o acesso foi obtido por meio de um acordo formal com a operadora: “A gente não tem nome, CPF, nada disso. O que nos foi fornecido foram coordenadas geográficas, dia, hora e um código anonimizado que não há como relacionar com informações pessoais. Mas, claro, trata-se de dados sensíveis, e por isso todo o uso segue protocolos éticos rigorosos. A Lei Geral de Proteção de Dados [LGPD] permite esse tipo de pesquisa quando realizada por universidades e com dados anonimizados”.
O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de Bolsa de Doutorado e de Bolsa de Estágio de Pesquisa no Exterior, concedidas a Barboza. E também por meio de Auxílio à Pesquisa ao Centro de Estudos da Metrópole (CEM), no qual Giannotti é uma das pesquisadoras principais. O CEM é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP.
O artigo Mobility variability of favela residents of São Paulo based on mobile phone data pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s11116-025-10695-6.
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