Mesmo com uma adição de apenas 1%, a alga aumentou significativamente o teor de compostos fenólicos e a atividade antioxidante dos biscoitos (foto: Bruna Lago Tagliapietra)
Ingrediente proveniente da espécie Sargassum filipendula apresenta alto potencial como componente funcional mesmo em pequenas quantidades
Ingrediente proveniente da espécie Sargassum filipendula apresenta alto potencial como componente funcional mesmo em pequenas quantidades
Mesmo com uma adição de apenas 1%, a alga aumentou significativamente o teor de compostos fenólicos e a atividade antioxidante dos biscoitos (foto: Bruna Lago Tagliapietra)
Thais Szegö | Agência FAPESP – Farinha feita à base da alga marrom Sargassum filipendula aumenta o valor nutricional e a digestibilidade de biscoitos sem glúten. A conclusão é de uma pesquisa publicada em março no periódico Food Research International.
O estudo foi realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) por Bruna Lago Tagliapietra em seu pós-doutorado com bolsa da FAPESP. O trabalho foi supervisionado pela professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA-Unicamp) Maria Teresa Pedrosa Silva Clerici e contou com a colaboração de Cristina Martinez-Villaluenga, do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos e Nutrição (Ictan-CSIC), em Madri (Espanha).
As algas foram escolhidas porque são uma alternativa promissora de fonte alimentar com alto valor nutricional e mais sustentável, já que não competem com terra agrícola e não exigem o uso de água doce. Além disso, o Brasil tem grande potencial para seu cultivo, já que o país possui mais de 8.600 quilômetros de litoral e condições marítimas bastante favoráveis. Cerca de 18% da população do país vive em regiões costeiras, o que reforça o potencial social e econômico da cadeia produtiva. A Sargassum filipendula é especialmente interessante por estar presente amplamente na costa rochosa do litoral de São Paulo.
Pequena quantidade, grande diferença
O primeiro passo da pesquisa foi a coleta de amostras na Praia das Cigarras, localizada na extremidade norte do Canal de São Sebastião, no litoral paulista. As amostras foram transportadas para o laboratório da Unicamp e submetidas a um processo de limpeza. Posteriormente, secadas em estufa e/ou liofilizadas para atingir um teor de umidade inferior a 6%.
Então, as algas secas foram moídas até se tornarem uma farinha, ingrediente que foi utilizado na produção de biscoitos sem glúten. Duas versões foram preparadas, uma contendo 100% farinha de arroz e outra com 99% de farinha de arroz e 1% de farinha de alga, mantendo os demais ingredientes constantes.
A composição e as propriedades tecnológicas tanto da alga quanto dos biscoitos produzidos foram avaliadas. Por fim, durante o período de pesquisa na Espanha, foi realizada a digestão gastrointestinal simulada in vitro, fase em que foram analisadas a digestibilidade e a bioacessibilidade dos compostos, bem como o perfil de compostos fenólicos, a atividade antioxidante e as alterações dos nutrientes ao longo do processo digestivo.
“Nosso estudo mostrou que a inclusão da alga Sargassum filipendula aumentou significativamente o teor de compostos fenólicos e a atividade antioxidante dos biscoitos, mesmo com uma adição de apenas 1%. Isso demonstra que pequenas quantidades já são suficientes para melhorar o valor funcional do alimento, o que indica que ela pode ser utilizada como ingrediente na indústria alimentícia, especialmente em produtos que buscam melhorar o valor nutricional e a funcionalidade”, afirma Tagliapietra, atualmente professora do Departamento de Alimentos e Nutrição da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul.

O primeiro passo da pesquisa foi a coleta de amostras na Praia das Cigarras, localizada na extremidade norte do Canal de São Sebastião, no litoral paulista (foto: Bruna Lago Tagliapietra)
Ela destaca ainda que os compostos se mostraram estáveis ao calor, o que é extremamente relevante para aplicações em produtos processados. Também houve aumento no teor de proteínas, com consequente enriquecimento de aminoácidos essenciais, e incremento no conteúdo de fibras alimentares.
Abordar essas questões é especialmente relevante no desenvolvimento de alimentos sem glúten, essenciais para indivíduos com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten, mas que frequentemente apresentam baixa densidade nutricional.
A farinha de algas contribuiu ainda para manter a integridade estrutural e tecnológica do produto, melhorando a retenção da umidade e obtendo uma textura mais macia.
Os resultados indicam grande potencial para aplicação na indústria, especialmente como ingrediente funcional em produtos como biscoitos, snacks e alimentos sem glúten. No entanto, ainda são necessários alguns avanços antes da aplicação em larga escala, como a padronização da matéria-prima, a realização de avaliações sensoriais com consumidores, a adequação às regulamentações, como as exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e estudos mais aprofundados sobre segurança e composição mineral. “Creio que estamos em uma fase de transição entre a pesquisa e a aplicação prática, mas com resultados bastante promissores”, afirma Tagliapietra.
O artigo Sargassum filipendula flour improves composition, digestibility, and antioxidant activity of gluten-free biscuits pode ser lido em sciencedirect.com/science/article/pii/S0963996926005831.
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