Obra representa uma das contribuições mais originais de Milton Santos à teoria geográfica e social (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

O Espaço Dividido
Uma chave para entender o subdesenvolvimento
08 de maio de 2026
EN

Ao romper com modelos europeus de urbanização, a obra clássica de Milton Santos revela como a seletividade e a fragmentação moldam o território nos países do Sul Global

O Espaço Dividido
Uma chave para entender o subdesenvolvimento

Ao romper com modelos europeus de urbanização, a obra clássica de Milton Santos revela como a seletividade e a fragmentação moldam o território nos países do Sul Global

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Obra representa uma das contribuições mais originais de Milton Santos à teoria geográfica e social (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

 

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Publicado originalmente na década de 1970, O espaço dividido representa uma das contribuições mais originais de Milton Santos à teoria geográfica e social. O livro parte de uma crítica às interpretações dominantes sobre a urbanização nos países do chamado Terceiro Mundo, que, segundo o autor, reproduziam esquemas analíticos derivados da experiência europeia e norte-americana, sem captar a especificidade histórica dessas sociedades.

Para Santos, a compreensão do subdesenvolvimento exige uma abordagem totalizante. Sem um esforço de compreensão global do subdesenvolvimento, a solução dos problemas particulares é impossível. Essa posição o leva a rejeitar o uso acrítico de modelos importados e a defender a construção de um novo quadro teórico, capaz de apreender a dinâmica própria dos países periféricos.

Um dos pontos centrais de sua argumentação é a recusa da ideia de que essas sociedades estariam apenas em uma etapa anterior ao desenvolvimento. Ao contrário, ele afirma que se trata de uma realidade específica: não de um mundo em desenvolvimento, mas de um mundo subdesenvolvido com suas características próprias e seus mecanismos fundamentais. Essa distinção tem implicações decisivas, pois desloca a análise da noção de atraso para a de estrutura.

No plano espacial, essa estrutura se expressa por uma organização profundamente desigual e seletiva. Os espaços dos países subdesenvolvidos, observa Santos, organizam-se e reorganizam-se em função de interesses distantes e mais frequentemente em escala mundial, sendo atingidos de maneira desigual pelas forças da modernização. O resultado é uma configuração instável, fragmentada e marcada por fortes contrastes internos.

É nesse contexto que o autor formula sua contribuição mais conhecida: a teoria dos dois circuitos da economia urbana. Criam-se dois circuitos econômicos, responsáveis não só pelo processo econômico, mas também pelo processo de organização do espaço. Esses circuitos – o superior e o inferior – coexistem e se inter-relacionam, mas em condições profundamente assimétricas.

O circuito superior, associado à modernização tecnológica, integra-se a fluxos amplos de capital e informação, frequentemente externos à cidade ou mesmo ao país. Já o circuito inferior, formado por atividades de pequena escala, é bem enraizado e mantém relações privilegiadas com sua região, funcionando como base de sobrevivência para amplos setores da população.

Ao destacar essa dualidade, Santos também critica a tradição de estudos urbanos que privilegiam apenas o setor moderno, ignorando a totalidade da cidade. A maior parte dos estudos não é feita sobre a cidade inteira, mas sim sobre uma parte dela, observa. Essa limitação impede, segundo ele, a formulação de uma teoria adequada da urbanização nos países subdesenvolvidos.

A chave interpretativa proposta pelo autor reside na ideia de seletividade espacial. A produção tende a se concentrar em certos pontos do território, enquanto o consumo se dispersa de forma desigual, condicionado pelas disparidades de renda. Essa dinâmica faz com que o espaço seja simultaneamente unificado por fluxos globais e fragmentado por desigualdades locais.

Diante desse quadro, O espaço dividido não se limita à análise, mas aponta para a necessidade de uma renovação teórica mais ampla. Trata-se, conforme o autor, de um novo paradigma, no sentido atribuído a essa expressão pelo filósofo da ciência Thomas Kuhn (1922-1996), capaz de orientar tanto a pesquisa quanto a ação. Ao recolocar o espaço no centro da reflexão sobre o desenvolvimento, Milton Santos inaugura uma perspectiva que permanece decisiva para a compreensão das cidades contemporâneas.

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