Na 4ª CNCTI, especialistas passam a limpo as novas tendências das políticas no setor, que tiveram transformação profunda nos últimos anos (Foto: F. Castro)

Tendências inovativas

Na 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, especialistas analisam as novas tendências das políticas no setor, que passaram por transformação profunda nos últimos anos

31 de maio de 2010
Tendências inovativas

Na 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, especialistas analisam as novas tendências das políticas no setor, que passaram por transformação profunda nos últimos anos

31 de maio de 2010

Na 4ª CNCTI, especialistas passam a limpo as novas tendências das políticas no setor, que tiveram transformação profunda nos últimos anos (Foto: F. Castro)

 

Por Fábio de Castro, de Brasília

Agência FAPESP - As políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) passaram por uma transformação profunda nos últimos anos e as novas tendências foram analisadas, na sexta-feira (28/5), por especialistas que participaram da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI), em Brasília.

Na sessão "Nova geração de políticas de CT&I", a presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lucia Carvalho Pinto de Melo, destacou que os pilares de um sistema moderno de CT&I se baseiam em três elementos: consenso nas escolhas estratégicas, confiança e cooperação.

"A confiança no ambiente para a inovação se fundamenta na relação entre os atores do sistema e na segurança jurídica. A cooperação na execução das políticas deve se dar tanto entre esses atores como entre o público e o privado. Esse sistema de CT&I alimenta o processo decisório, que deve eleger prioridades", disse.

Segundo Lucia, até a década de 1960 o processo de produção do conhecimento era entendido como um fator socialmente neutro: bastava fazer ciência que isso seria suficiente para que a sociedade a absorvesse e dela tirasse proveito. Mas, desde então, a visão começou a mudar e a CT&I passou a ser vista como um instrumento para o desenvolvimento social.

"Nos últimos 20 anos, as tecnologias da informação proporcionaram uma mudança radical e a CT&I passou ser tratada como elemento fundamental para a competitividade do país. Essa tendência deverá se intensificar ainda mais no futuro. Hoje, o papel da CT&I como vetor de transformação econômica e social já é considerado um consenso em muitos países", disse.

Lucia acrescentou que, além da transformação provocada por diversas tecnologias emergentes - como as tecnologias da informação e da comunicação, a biotecnologia e a nanotecnologia -, novos atores e novos setores da sociedade passaram a fazer parte do processo de produção de conhecimento.

"As redes sociais também trouxeram um impacto importante para geração de políticas científicas e tecnológicas. Mas não há uma forma única de organizar esses atores e agentes para acelerar a produção de conhecimento. Trata-se de um processo dinâmico que precisa ser continuamente estudado, com o desenvolvimento de novos indicadores e de novas lógicas de organização", afirmou.

Howard Alper, professor da Universidade de Ottawa, analisou a experiência do Canadá com políticas de CT&I nos últimos três anos. Segundo ele, o país tem procurado enquadrar suas políticas nas novas tendências mundiais de estratégias de apoio à pesquisa científica e tecnológica.

"O governo canadense investiu US$ 10,4 bilhões no período 2008-2009. Cerca de US$ 3 bilhões foram destinados ao apoio à educação de nível superior. Os programas diretos de apoio às empresas receberam cerca de US$ 1 bilhão. O governo também apoia a inovação por meio de incentivos fiscais ao setor privado", disse Alper, que é presidente do Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação do Canadá.

Segundo ele, o setor empresarial realiza 54% das atividades de pesquisa e desenvolvimento no Canadá. O sistema de ensino superior realiza 35% e o governo 9%. "A parte do governo é pequena, mas extremamente importante, porque é direcionada para alvos específicos, proporcionando a liberdade para investir em prioridades", disse.

Alper afirmou que o Canadá tem necessidade de muito mais investimento de empresas em CT&I. "E precisa também aproveitar melhor sua mão de obra qualificada", afirmou. O país elegeu, segundo ele, quatro áreas prioritárias para investimentos em CT&I: "ciências e tecnologias ambientais", "recursos naturais e energia", "ciências e tecnologias de saúde e da vida" e "tecnologias da informação e da comunicação".

"As prioridades foram estabelecidas com base no trabalho do Conselho de CT&I canadense, que procura estabelecer uma abordagem moderna de políticas de inovação. O conselho é enxuto para poder fortalecer a voz de especialistas externos. Com isso, ajudamos o governo a lidar com os complexos assundos de CT&I", disse.

Ambiente favorável à inovação

Mario Cimoli, especialista em estudos sobre Economia da Tecnologia da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ressaltou que uma política de CT&I moderna deve estar coordenada com as políticas industriais e educacionais.

"Esse é o conceito básico. Não se pode fazer boas políticas científicas sem associá-las às boas políticas industriais e educacionais. Outro fator fundamental para que essas políticas funcionem bem, dentro de uma concepção contemporânea de CT&I, é que os investimentos em ciência aumentem incessantemente ao longo do tempo", afirmou.

Para o economista argentino, o Brasil está conseguindo se manter em consonância com as tendências modernas das políticas de CT&I, ao contrário dos outros países da América Latina.

"Na Cepal temos conversado com governos de muitos países e é comum que tenhamos que explicar, por exemplo, que é preciso fazer políticas de CT&I, que o desenvolvimento requer investimento do Estado, que é preciso formar recursos humanos para pesquisa e que o mercado sozinho não vai resolver a necessidade de inovação e competitividado do país. No Brasil essa discussão está muito mais avançada", avaliou.

Segundo Cimoli, ao aumentar os gastos com CT&I, os governos sinalizam que o conhecimento é uma variável importante entre as prioridades do país. Isso torna o ambiente propício à inovação.

"No entanto, na América Latina, com exceção do Brasil, a política de CT&I é considerada uma responsabilidade restrita ao ministro de Ciência e Tecnologia, que geralmente se limita a aplicar os modelos desenvolvidos nos Estados Unidos", afirmou.

Para Glauco Arbix, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), há uma crescente maturidade no debate sobre CT&I no Brasil.

"A maneira como as instituições empresariais tentam tratar a tecnologia tem, hoje, uma perspectiva completamente diferente da que víamos há alguns anos. Temos que aproveitar este momento para dar um salto em termos de CT&I", disse.

Segundo Arbix, o Brasil está se transformando em uma referência para a América Latina no campo de políticas de CT&I. Mas, segundo ele, o país ainda tem muito a avançar. "É importante ser a referência para o continente, mas o Brasil tem condições de assumir um papel ainda mais significativo no plano internacional", afirmou.

De acordo com ele, ainda que haja uma série de problemas - como as dificuldades burocráticas, e a tendência a avaliar projetos empresariais como se fossem projetos acadêmicos, por exemplo -, o Brasil adquiriu uma sofisticação institucional na área de CT&I que é encontrada em poucos países.

Arbix defendeu a criação de uma agência nacional de inovação com peso, recursos e capacidade de patrocinar e articular a interação entre programas, instituições e políticas de CT&I.

"Defendo que essa agência não seja ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia, mas à própria Presidência da República, para sinalizar que se trata de uma ideia prioritária. O Brasil é muito grande para ter programas pequenos. Precisamos hierarquizar e selecionar melhor nossas prioridades", disse.
 

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