Enquanto a temperatura média global subiu aproximadamente 1,2 °C desde 1900, na capital paulista a máxima diária, que ocorre em torno das 13h, cresceu 2,4 °C (imagem: Wilfredor/Wikimedia Commons)

Mudanças climáticas
Temperatura na cidade de São Paulo aumenta mais do que a média global
15 de maio de 2026

Fenômeno que está relacionado à substituição da vegetação por materiais como asfalto, concreto e alvenaria agrava o aquecimento, aponta pesquisador da USP em evento promovido por FAPESP e NWO

Mudanças climáticas
Temperatura na cidade de São Paulo aumenta mais do que a média global

Fenômeno que está relacionado à substituição da vegetação por materiais como asfalto, concreto e alvenaria agrava o aquecimento, aponta pesquisador da USP em evento promovido por FAPESP e NWO

15 de maio de 2026

Enquanto a temperatura média global subiu aproximadamente 1,2 °C desde 1900, na capital paulista a máxima diária, que ocorre em torno das 13h, cresceu 2,4 °C (imagem: Wilfredor/Wikimedia Commons)

 

Elton Alisson | Agência FAPESP – As temperaturas mínima e máxima do ar na cidade de São Paulo têm aumentado muito acima da média mundial nos últimos 125 anos. Enquanto a temperatura média global subiu aproximadamente 1,2 °C desde 1900, e a da superfície terrestre, 2 °C – segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) –, na capital paulista a máxima diária, que ocorre em torno das 13h, cresceu 2,4 °C, acentuando-se principalmente a partir de 1950. Já a temperatura mínima diária, registrada tipicamente às 6h, teve um incremento de 2,8 °C desde o início do século 20.

As observações foram feitas por Humberto Ribeiro da Rocha, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), em palestra apresentada no encontro “Eventos extremos de calor e água: Mitigando os efeitos adversos das mudanças climáticas na saúde das cidades”, promovido pela FAPESP e pela Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica (NWO, na sigla em inglês) em 7 de maio, no auditório da Fundação.

Por meio de estudos conduzidos no âmbito do Centro para Segurança Hídrica e Alimentar em Zonas Críticas – um Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) apoiado pela FAPESP –, Rocha e os pesquisadores Miguel de Carvalho Diaféria, Rodrigo Lustosa, Ana Nogueira Campelo e Denise Duarte têm constatado que as disparidades da temperatura na cidade de São Paulo em relação à média global estão relacionadas à ilha de calor urbana. O fenômeno ocorre em áreas urbanizadas que apresentam temperaturas significativamente mais altas devido à substituição da cobertura de vegetação por materiais de construção, como asfalto, concreto e alvenaria.


“Eventos extremos de calor e água: Mitigando os efeitos adversos das mudanças climáticas na saúde das cidades” foi promovido pela FAPESP e pela Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Em um novo estudo, os pesquisadores vinculados ao centro analisaram as relações entre a ilha de calor urbana e a cobertura de vegetação em 70 cidades do Estado de São Paulo utilizando dados de temperatura da superfície terrestre referentes ao período de 2013 a 2025, obtidos por meio de satélites do programa Landsat, da agência espacial norte-americana (Nasa).

Os resultados das análises apontaram que, no verão, a temperatura de superfície nas áreas urbanizadas mais críticas da Grande São Paulo atinge até 60 °C, marca típica de grandes galpões industriais. Por outro lado, nas áreas mais frias, com maior cobertura vegetal e corpos d’água, a temperatura chega, no máximo, a 25 °C.

Outras constatações feitas por meio do trabalho, em vias de publicação, foram que a temperatura nas áreas urbanizadas mais quentes da região foi, na média, entre 7 °C e 12 °C superior à das áreas frias durante o verão.

“Ao olhar a distribuição das ilhas de calor ao longo do Estado de São Paulo, notamos que há uma grande concentração na região nordeste, onde também há o cultivo em larga escala de cana-de-açúcar e, pontualmente, em algumas cidades, como as da Região Metropolitana de São Paulo, onde as áreas mais quentes são as com maior densidade populacional. Mas o fenômeno não se restringiu às grandes cidades: as pequenas também apresentam ilhas de calor de forma consolidada”, ponderou Rocha.

Efeitos das ondas de calor

Por meio de um novo projeto realizado com suporte do CCD e do projeto municipal “Sampa Adapta”, conduzido pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, os pesquisadores começaram a medir a temperatura do ar na Região Metropolitana de São Paulo com o objetivo de identificar o efeito das ondas de calor em escala regional e local, no nível das ruas e residências. Para isso, analisaram dados obtidos por 25 estações meteorológicas no nível da rua e no interior de residências e escolas, além de dezenas de outras mantidas pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), operado pela Defesa Civil do Estado de São Paulo.

Os resultados das análises revelaram que, nos últimos 15 anos, durante as ondas de calor, têm sido registradas em vários locais da Região Metropolitana tardes muito quentes, com temperaturas variando entre 30 °C e 34 °C. Já à noite, a temperatura do ar por volta das 22h atinge 28 °C.

“Esse dado é muito crítico, porque é nesse horário que a maioria das pessoas vai dormir”, disse Rocha.

Nessas condições, a sensação térmica no interior das casas foi ainda mais exacerbada em razão de uma sucessão de noites com temperatura em torno de 30 °C. “Várias edificações não tinham isolamento térmico suficiente contra o calor externo e, à noite, se comportaram como pequenos fornos aquecidos que retiveram o calor”, comparou Rocha.

A iniciativa Sampa Adapta integra gestão pública, ciência e participação social para fortalecer e aprimorar as políticas públicas voltadas ao enfrentamento dos efeitos do calor extremo na cidade de São Paulo. Os pesquisadores do IAG-USP são responsáveis pela instalação técnica e análise dos dados obtidos por sensores para estimar a temperatura do ar no nível da rua, tanto em ambientes internos quanto externos.

Soluções baseadas na natureza

A implementação de soluções baseadas na natureza (SbN) pode contribuir para o resfriamento do ar em escala local, apontou o pesquisador.

Por meio da análise de dados obtidos por estações meteorológicas, os pesquisadores do CCD avaliaram a relação entre a temperatura média do ar no nível da rua na Grande São Paulo e as condições de sombreamento de vegetação em experimentos urbanos. Os resultados corroboraram a eficiência da cobertura vegetal em promover o “efeito oásis”, que proporcionou um resfriamento local pronunciado, de até 7 °C, em relação às ruas urbanizadas.

“Temos vários indícios de que a revegetação urbana na Região Metropolitana e, de forma geral, no Estado de São Paulo é não só uma oportunidade potencial, mas também viável para o resfriamento urbano nos eventos extremos”, afirmou.

Parceria com os Países Baixos

O evento selou o compromisso de mais de uma década de cooperação entre a FAPESP e a NWO. O presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago https://fapesp.br/11697, destacou que os Países Baixos estão entre os dez principais colaboradores científicos de São Paulo.

“Uma das características dessa cooperação é que ela não é tão grande em número de projetos, mas são sempre de alta qualidade e selecionados com extremo cuidado, dando origem a artigos e soluções muito bem referenciados pela literatura científica”, avaliou Zago.

Pelo lado neerlandês, Lilianne Sweere, oficial de políticas da NWO, celebrou a sinergia encontrada nos cinco projetos selecionados para os próximos cinco anos. “Ficamos muito satisfeitos com as discussões e a atitude positiva de trabalhar além de seus próprios projetos, buscando oportunidades que vão além do cronograma atual”, afirmou.

No mesmo sentido, Julia Rather, também da NWO, expressou a honra da colaboração que já soma 12 anos. “É magnífico ver os pesquisadores conversando e colaborando tanto”, disse Rather, antecipando o convite para a FAPESP Week que ocorrerá no país europeu em outubro de 2027.

Raul Machado, gerente de Relações Institucionais da FAPESP, reforçou que o objetivo do evento conjunto é multiplicar os resultados e as parcerias entre pesquisadores do Brasil e dos Países Baixos nos próximos anos.

“Estamos muito satisfeitos em implementar essa iniciativa porque a FAPESP Week não é apenas uma ocasião de apresentação de projetos científicos; é uma oportunidade de criar parcerias. Nosso objetivo é que esse número consistente de relacionamentos seja multiplicado por três”, afirmou.

O evento também contou com a participação de Thelma Krug, vice-presidente do IPCC entre 2015 e 2022 e membro do Conselho Superior da FAPESP, que reforçou a urgência de preparar as cidades para cenários que podem ultrapassar o aquecimento de 1,5 °C ainda neste século.

“A influência humana no aquecimento é inequívoca e rápida. Sem ela, não conseguiríamos explicar as mudanças observadas desde 1950”, pontuou Krug, destacando que o IPCC lançará em 2027 um relatório especial focado exclusivamente em cidades, dado o seu potencial crítico de mitigação.
 

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