Segundo pesquisador, as partículas inaladas podem entrar diretamente em contato com a mucosa oral, desencadeando respostas inflamatórias locais. Outro tipo de impacto é resultado da ação da poluição nos pulmões: as partículas podem induzir inflamação sistêmica, afetando órgãos e tecidos distantes, incluindo a cavidade oral (foto: Gustavo Nacht/Unsplash)

Saúde
Poluição do ar altera tecidos bucais e agrava periodontite

Pesquisa com camundongos indica que a exposição ao material particulado fino aumenta o estresse oxidativo, intensifica respostas inflamatórias e exacerba a destruição dos tecidos que dão suporte aos dentes

26 de agosto de 2026
Saúde
Poluição do ar altera tecidos bucais e agrava periodontite

Pesquisa com camundongos indica que a exposição ao material particulado fino aumenta o estresse oxidativo, intensifica respostas inflamatórias e exacerba a destruição dos tecidos que dão suporte aos dentes

26 de agosto de 2026

Segundo pesquisador, as partículas inaladas podem entrar diretamente em contato com a mucosa oral, desencadeando respostas inflamatórias locais. Outro tipo de impacto é resultado da ação da poluição nos pulmões: as partículas podem induzir inflamação sistêmica, afetando órgãos e tecidos distantes, incluindo a cavidade oral (foto: Gustavo Nacht/Unsplash)

 

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Os danos causados pela poluição do ar vão além do sistema cardiorrespiratório e atingem diretamente a saúde bucal. Um estudo com camundongos conduzido no Brasil demonstrou, pela primeira vez, que a exposição ao material particulado fino (PM2,5) – um dos principais poluentes urbanos – provoca alterações na boca e agrava a destruição dos tecidos periodontais, responsáveis pela sustentação dos dentes.

No experimento apoiado pela FAPESP, os animais foram colocados em ambiente controlado e expostos ao ar poluído captado na região da avenida Doutor Arnaldo, zona oeste da capital paulista, por períodos de 30 e 60 dias. De acordo com resultados publicados na revista Air Quality, Atmosphere & Health, as alterações inflamatórias e estruturais nos tecidos bucais já se mostraram expressivas no primeiro mês de contato com o poluente.

Os pesquisadores observaram que a exposição ao PM2,5 agravou a inflamação nos tecidos periodontais e intensificou a perda óssea alveolar, processo que compromete a estrutura de suporte dentário. Essa degradação é uma das principais características da periodontite, doença inflamatória associada à destruição dos tecidos de suporte dos dentes e à perda dentária em adultos.

“Já está bem documentado que a poluição afeta diferentes órgãos. Como a cavidade oral está constantemente exposta ao ambiente externo, imaginávamos que ela também pudesse ser afetada pela poluição. O que não esperávamos era observar alterações tão expressivas nos tecidos bucais”, afirma Luis Carlos Spolidorio, professor da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual Paulista (FOAr-Unesp), campus de Araraquara, que coordenou a investigação.

A pesquisa foi desenvolvida durante o mestrado de Álvaro Formoso Pelegrin, sob orientação de Spolidorio, e contou com a participação de Jhonatan de Souza Carvalho, também da FOAr-Unesp, e de Victor Yuji Yariwake, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

Sinais de inflamação

Segundo os autores, os achados mais surpreendentes foram observados na mucosa que reveste a língua. “Mesmo em animais sem inflamação periodontal induzida, identificamos alterações importantes na mucosa oral, incluindo espessamento do tecido que reveste a língua [epitélio], aumento da deposição de queratina [proteína que atua como barreira de proteção e que, em excesso, indica que o tecido está tentando se defender de uma agressão] e maior número de mastócitos degranulados [células do sistema imunológico que liberaram substâncias inflamatórias no local]. Esses resultados sugerem que a mucosa oral pode ser particularmente sensível aos efeitos da poluição atmosférica”, afirma Spolidorio.

Além das alterações estruturais, o estudo mostrou aumento da produção de sinalizadores inflamatórios (citocinas) e de estresse oxidativo tanto na língua quanto nos tecidos periodontais. De acordo com os pesquisadores, esse conjunto de alterações indica que a exposição ao PM2,5 promove um ambiente biológico favorável ao desenvolvimento e à intensificação de processos inflamatórios.

O estresse oxidativo ocorre quando há um desequilíbrio entre a produção de radicais livres (moléculas instáveis que agridem as células) e a capacidade de defesa antioxidante do organismo, resultando em danos diretos aos tecidos. Esse mecanismo tem sido apontado como uma das principais vias pelas quais a poluição atmosférica pode afetar os tecidos bucais e contribuir para o agravamento de doenças periodontais.

“Demonstramos, de forma experimental e controlada, que a mucosa da cavidade bucal sofre alterações quando exposta ao material particulado fino. Esse achado representa um avanço importante, uma vez que estudos anteriores se limitavam a apontar correlações descritivas entre poluição atmosférica e doenças bucais. Com o nosso estudo, conseguimos elucidar os mecanismos celulares e moleculares que ligam a exposição ao poluente às alterações observadas na cavidade oral”, explica o pesquisador.

Spolidorio afirma que a poluição atmosférica pode afetar a saúde bucal por diferentes mecanismos. “As partículas inaladas podem entrar diretamente em contato com a mucosa oral, desencadeando respostas inflamatórias locais. Outra forma seria como consequência do impacto da poluição nos pulmões, essas partículas podem induzir inflamação sistêmica e estresse oxidativo, afetando órgãos e tecidos distantes, incluindo a cavidade oral”, explica.

Os resultados abrem caminho para mais estudos. “O trabalho é um ponto de partida para outras frentes de pesquisa na odontologia e na oncologia. Apesar de os resultados em camundongos serem coerentes com dados epidemiológicos, ainda é necessário realizar estudos clínicos para confirmar os mecanismos e a relação causal em humanos. Também temos interesse em repetir o experimento com fêmeas para investigar possíveis diferenças imunológicas e inflamatórias relacionadas ao sexo biológico”, conta.

Os autores ressaltam que os cuidados tradicionais com a saúde bucal continuam sendo fundamentais. “Embora não seja possível eliminar completamente os efeitos biológicos da exposição à poluição atmosférica, é fundamental controlar os fatores de risco já conhecidos para as doenças bucais. Escovar os dentes adequadamente, utilizar fio dental regularmente, manter uma alimentação saudável e realizar acompanhamento odontológico periódico continuam sendo medidas essenciais para preservar a saúde bucal”, diz Spolidorio.

Segundo o pesquisador, os resultados também reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à melhoria da qualidade do ar. “A prevenção dos efeitos da poluição depende tanto de cuidados individuais quanto de estratégias coletivas de proteção à saúde. À medida que compreendemos melhor os impactos da poluição atmosférica sobre diferentes órgãos e tecidos, torna-se cada vez mais evidente a importância de reduzir a exposição da população aos poluentes atmosféricos”, conclui.

O artigo PM2.5 exposure induces oral tissue alterations and exacerbates experimental periodontitis via oxidative stress and mast cell activation pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s11869-026-02014-4.
 

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