O sistema agroalimentar global é apontado como responsável por um terço das emissões de gases de efeito estufa, além de ser a principal fonte de emissões de metano (por meio da produção animal) e consumir um percentual significativo da água doce do planeta, principalmente por meio da irrigação (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Mudanças climáticas
Pesquisas sobre produção animal e clima crescem, mas ainda é desafio levar ciência ao campo
29 de maio de 2026

Grupo da USP analisou mais de 1,6 mil artigos e identificou alta anual de 9,5% nas pesquisas entre 1974 e 2025; autores defendem soluções regionalizadas e políticas públicas para reduzir distância entre evidências e implementação

Mudanças climáticas
Pesquisas sobre produção animal e clima crescem, mas ainda é desafio levar ciência ao campo

Grupo da USP analisou mais de 1,6 mil artigos e identificou alta anual de 9,5% nas pesquisas entre 1974 e 2025; autores defendem soluções regionalizadas e políticas públicas para reduzir distância entre evidências e implementação

29 de maio de 2026

O sistema agroalimentar global é apontado como responsável por um terço das emissões de gases de efeito estufa, além de ser a principal fonte de emissões de metano (por meio da produção animal) e consumir um percentual significativo da água doce do planeta, principalmente por meio da irrigação (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

 

Luciana Constantino | Agência FAPESP – As mudanças climáticas estão redefinindo sistemas globais de produção animal, com um incremento de pesquisas sobre o tema. A ciência, porém, ainda enfrenta o desafio de transformar o avanço do conhecimento em soluções aplicadas ao campo e a políticas públicas. Essa é uma das principais conclusões de um estudo publicado na quinta-feira (28/05) na revista Tropical Animal Health and Production por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

O trabalho analisou 1.694 artigos indexados na base Scopus entre 1974 e 2025. Os resultados mostram uma taxa anual de crescimento de 9,5% de pesquisas que tratam de mudanças climáticas e produção animal, sendo que 35,71% das publicações resultaram de colaborações. Foram observados ainda aumento da interdisciplinaridade, sofisticação metodológica e novas agendas voltadas à sustentabilidade, adaptação, resiliência e bem-estar animal, além de um crescente uso de ferramentas digitais, como modelagem e aprendizado de máquina.

Segundo os autores, o impacto de longo prazo dependerá da capacidade de reduzir a distância entre evidência científica e implementação, por meio de governança inclusiva e soluções regionalizadas.

“Depois de 2015, houve uma discussão mais focada na resiliência, na sustentabilidade, no bem-estar animal e na saúde única. É uma mudança de comportamento cultural tanto do ponto de vista da pesquisa como da demanda da sociedade por melhor qualidade de vida. Aí começamos a perceber que o maior gap é justamente o intervalo entre a ciência e a prática para a implantação desse processo no campo. Não basta simplesmente gerar tecnologia. Temos de transformá-la em evidências e implantação, o que envolve políticas públicas e acesso do pequeno produtor a esses novos sistemas produtivos”, explica à Agência FAPESP Iran José Oliveira da Silva, professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq-USP e um dos coordenadores do estudo.

Líder do Núcleo de Pesquisa em Ambiência (Nupea), Silva é orientador do zootecnista Robson Mateus Freitas Silveira, também da Esalq e primeiro autor do artigo.

“Queríamos entender como a ciência evoluiu. Acredito que esse avanço a partir de 2015 está relacionado à Agenda 2030, que mudou a perspectiva dos pesquisadores, encorajados a incluir os ODS [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável]em seus projetos”, complementa Silveira, que recebe apoio da FAPESP por meio de Bolsa de Pós-Doutorado.

Segundo o zootecnista, a revisão da literatura evidencia que essa área do conhecimento ainda está no início da fase de expansão, com possibilidade de novas agendas, métodos e hipóteses, além da perspectiva de o crescimento da produção científica continuar nos próximos anos.

Visão integrada

Para Silveira, a interdisciplinaridade também foi um dos avanços nos últimos anos. “Na década de 1990, os estudos tratavam, por exemplo, do estresse térmico. Atualmente, já incluem uma visão sobre adaptação, avaliando a resiliência das espécies animais para enfrentar a nova situação climática”, afirma o zootecnista, que durante seu doutorado desenvolveu uma metodologia capaz de projetar como rebanhos de animais de produção de diferentes espécies responderão fisiologicamente aos impactos das mudanças climáticas entre 2050 e 2100 (leia mais em: agencia.fapesp.br/55917).

Ao fazer a análise temática, os cientistas detectaram que estão consolidadas pesquisas sobre emissões de gases de efeito estufa e impactos ambientais, enquanto áreas emergentes, como agricultura inteligente para o clima (CSA na sigla em inglês para climate-smart agriculture), saúde única (One Health) e estruturas integradas de sustentabilidade, ainda permanecem menos conectadas à pesquisa aplicada e a políticas públicas.

Esses conceitos vêm sendo estruturados e preveem abordagens integradas. A agricultura inteligente para o clima é um conjunto de práticas e tecnologias agropecuárias que visa combater a insegurança alimentar e promover o desenvolvimento sustentável com gestão de paisagens (terras agrícolas, pecuária, florestas e pesca), ao mesmo tempo em que aborda mudanças climáticas.

Já a saúde única é um conceito integrado que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e o meio ambiente e busca estratégias multidisciplinares para combater ameaças como zoonoses, resistência a antibióticos e aquecimento global.

Realidades locais

Importante vetor de transformação dos sistemas produtivos, as mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que impactam a produção agropecuária, têm nela um dos seus propulsores. Isso porque o sistema agroalimentar global é apontado como responsável por um terço das emissões de gases de efeito estufa, além de ser a principal fonte de emissões de metano (por meio da produção animal) e consumir um percentual significativo da água doce do planeta, principalmente por meio da irrigação.

Com a crescente demanda por alimentos para uma população mundial de cerca de 10 bilhões de pessoas até 2050, segundo projeção da Organização das Nações Unidas (ONU), estima-se que a expansão agrícola ainda pressionará o ambiente com mudanças de uso da terra (conversão de florestas para pastagens ou áreas agricultáveis, por exemplo) e aumento de emissões de carbono.

“Acreditamos que um caminho importante seja o fortalecimento de pesquisas regionalizadas e inclusivas, buscando até mesmo formas colaborativas com pequenos agricultores, pensando em políticas públicas e valorizando as realidades e bancos de dados regionais”, avalia Silva. “Utilizar bancos de dados globais e transferir para uma região específica pode não comportar a realidade daquele país ou daquela área. Quando trabalhamos com informações regionalizadas, começamos a ser mais assertivos.”

Segundo os resultados da pesquisa, embora a literatura científica venha propondo cada vez mais soluções tecnológicas, genéticas e baseadas em manejo, a adoção continua desigual entre países, especialmente nos mais vulneráveis, onde limitações estruturais, econômicas e institucionais dificultam essa ligação. Além disso, há assimetrias geográficas na produção científica, com sub-representação de países do Sul Global, especialmente os do continente africano.

O estudo sugere ainda que pesquisas futuras priorizem não só a regionalização, mas a integração de abordagens socioeconômicas e culturais, além de caminhos reais de implementação que conectem ciências ambientais, sociais e voltadas aos animais.

Nesse sentido, em seu pós-doutorado, Silveira está buscando pesquisadores de outras regiões brasileiras para entender como serão os impactos das mudanças climáticas até 2100 em relação à produção de aves e suínos. Pretende identificar e montar estratégias de produção dessas espécies de forma mais sustentável e adequada às realidades, por exemplo, do Centro-Oeste e do Nordeste, em diferentes cenários.

O artigo Animal production under climate change: a global scientometric analysis of research structure, thematic evolution, and knowledge gaps pode ser lido em: link.springer.com/content/pdf/10.1007/s11250-026-05071-0.pdf.
 

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