Segundo Martin Wagner, pesquisador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, não existem informações para 10.726 substâncias listadas no relatório PlastChem, inviabilizando qualquer garantia de sua segurança (imagem: Shutterstock)
Tema marcou a abertura da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos, em Campinas. Evento reúne lideranças globais na área, além de 125 estudantes de 31 países
Tema marcou a abertura da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos, em Campinas. Evento reúne lideranças globais na área, além de 125 estudantes de 31 países
Segundo Martin Wagner, pesquisador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, não existem informações para 10.726 substâncias listadas no relatório PlastChem, inviabilizando qualquer garantia de sua segurança (imagem: Shutterstock)
Agência FAPESP * – O primeiro dia da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos (ESPCA em Microplásticos), que começou na terça-feira (01/09) em Campinas (SP), foi marcado pelo destaque à necessidade de aplicar a pesquisa científica sobre poluição plástica em possibilidades reais de enfrentamento do problema. O evento reúne, até o dia 11, referências nacionais e internacionais na pesquisa sobre o tema em diferentes áreas de conhecimento, com a participação de 125 estudantes de 31 países e de 19 Estados brasileiros.
“O que nos trouxe até aqui foi uma visão compartilhada do poder de transformação da educação e do poder das pessoas para a mudança. O principal objetivo da escola é empoderar a próxima geração de cientistas, promover a colaboração com lideranças globais e apoiar os esforços governamentais e diplomáticos no enfrentamento da poluição plástica”, disse a coordenadora do evento, Cassiana Montagner, docente no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ-Unicamp).
Na primeira conferência da ESPCA, Martin Wagner, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, alertou que micro e nanoplásticos são apenas um dentre os cinco tipos de poluição plástica, que está presente em todo o ciclo de produção desses materiais, e não apenas no momento do descarte. Segundo o pesquisador, dois aspectos recebem pouca atenção nesse ciclo: a emissão de gases de efeito estufa no processo produtivo e a poluição atmosférica causada pela queima dos resíduos.
Em sua apresentação, o foco do especialista esteve nas substâncias químicas associadas aos plásticos. Wagner é o principal autor do relatório PlastChem, que sintetiza conhecimento disperso em várias fontes de informação. Nele, estão identificadas mais de 16 mil substâncias, das quais em torno de um quarto já foi classificada como danosa por governos ao redor do mundo. “No entanto, mais grave do que isso é o fato de que não existem informações para 10.726 das substâncias listadas, ou seja, nenhum governo avaliou essas substâncias e, portanto, não tem como garantir a segurança de materiais que utilizamos cotidianamente”, alertou.
Entre os impactos da exposição a essas substâncias reportados em estudos, Wagner listou transtornos reprodutivos e metabólicos, doenças cardiovasculares, malformações congênitas e alguns tipos de câncer, entre outras patologias que, segundo o pesquisador, resultam em quase 600 mil mortes prematuras por ano. Estudos recentes também indicam possível relação com obesidade e alterações no ritmo circadiano. “Estamos pagando com a nossa saúde pelo desenvolvimento dessa configuração econômica, e só conhecemos a ponta do iceberg”, ressaltou.
Entre os principais problemas a serem enfrentados, ele listou a falta de transparência sobre as substâncias adicionadas aos produtos plásticos. “A indústria não é obrigada a indicar a composição e, por isso, os recursos públicos são gastos para que nós passemos anos fazendo pesquisa e engenharia reversa para descobrir as substâncias presentes nos plásticos”, relatou. Wagner também falou da fragmentação do conhecimento e da complexidade química dos plásticos, que fazem com que cada produto seja quase único, dificultando a regulamentação.
Sobre essa complexidade, outro dado compartilhado pelo pesquisador é que, das substâncias identificadas, somente metade tem funções no produto final, como, por exemplo, corantes e aditivos que conferem ao plástico características como a maleabilidade e a elasticidade. A outra metade é formada por substâncias com o único objetivo de facilitar a produção. Além disso, há uma série de compostos cuja presença não é intencional, como impurezas ou subprodutos de reações que ocorrem na produção, sobre os quais há pouquíssimo conhecimento e muita dificuldade de controle.
Falando com um público formado por jovens cientistas, Wagner alertou sobre a importância de aprender com os erros do passado. “Nós estamos perdendo tempo”, afirmou o cientista ao mostrar exemplos de materiais que as pesquisas demoraram muito tempo para indicar como problemáticos. “Ficamos paralisados pela análise, entramos em ciclos de repetição e refinamento de experimentos, geramos uma ‘névoa informacional’ e demoramos para transformar esse conhecimento em mudança. Enquanto isso, vidas são perdidas.”
“Não é culpa da ciência, há vários fatores, como a pressão da indústria, mas somos parte do problema. Ficamos focados em compreender o problema e prestamos menos atenção à solução”, afirmou. O cientista propôs como caminhos possíveis o compartilhamento do conhecimento produzido e das práticas adotadas por grupos de cientistas em diferentes lugares, a busca por conclusões mais significativas a partir das grandes quantidades de dados que são produzidos e o aprimoramento do processo de transformação dessas evidências em políticas públicas e regulamentação.

Conferencistas estrangeiros são apresentados ao público da ESPCA (foto: Michele Fernandes)
Tratado global
Em sua palestra, Wagner também abordou o Tratado Global contra a Poluição Plástica, instrumento internacional em negociação que se encontra em um impasse no momento por falta de consenso entre os cerca de 180 países participantes. E relatou como foi criada a Coalizão de Cientistas por um Tratado Efetivo contra a Poluição Plástica, que tem o objetivo de promover a participação de especialistas nos espaços de negociação, mas ressaltou que ainda é necessário um maior envolvimento de cientistas da América Latina.
A programação terminou com uma conferência de Walter Waldman, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e vice-coordenador do evento. Ele abordou os desafios metodológicos nas pesquisas sobre microplásticos e as desigualdades entre as pesquisas realizadas no Norte e no Sul do planeta, que resultam em lacunas de dados sobre várias regiões. Citando outros especialistas, ressaltou que a ciência precisa ser global para que as políticas públicas e regulações não sejam enviesadas. E deixou um questionamento: o mundo precisa de “publicações melhores do Norte Global ou de mais dados do Sul Global?”.
A ESPCA em Microplásticos é uma parceria entre a Unicamp e a UFSCar, com apoio da FAPESP.
A programação completa pode ser conferida em: microplasticschool.iqm.unicamp.br/.
* Com informações de Mariana Rodrigues Pezzo, do Instituto da Cultura Científica da UFSCar.
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