“Embora seja intuitivo buscar cooperação com países do Norte Global, mais avançados tecnologicamente, a parceria científica com a Argentina tem um valor estratégico único por causa da natureza horizontal, paritária e de complementaridade entre os dois países”, afirmou Mané Jr. (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Cooperação internacional
Parceria científica entre Brasil e Argentina resiste a crises e fragmentação geopolítica
02 de junho de 2026

Durante a 3ª Conferência FAPESP 2026, Ernesto Mané Jr., chefe do Setor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, aponta caminhos para manter ativa a colaboração entre os países

Cooperação internacional
Parceria científica entre Brasil e Argentina resiste a crises e fragmentação geopolítica

Durante a 3ª Conferência FAPESP 2026, Ernesto Mané Jr., chefe do Setor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, aponta caminhos para manter ativa a colaboração entre os países

02 de junho de 2026

“Embora seja intuitivo buscar cooperação com países do Norte Global, mais avançados tecnologicamente, a parceria científica com a Argentina tem um valor estratégico único por causa da natureza horizontal, paritária e de complementaridade entre os dois países”, afirmou Mané Jr. (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

 

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Em um mundo marcado por múltiplas crises simultâneas, como as mudanças climáticas, as pandemias, os conflitos armados, as emergências humanitárias e o enfraquecimento do sistema multilateral, a diplomacia científica se torna ainda mais importante para manter a cooperação entre os países. Foi a partir desse contexto de fragmentação geopolítica, marcada por uma disputa cada vez mais acirrada entre Estados Unidos e China, que o diplomata e físico Ernesto Mané Jr. defendeu a ciência e a inovação como instrumentos de soberania e integração regional.

A mensagem foi apresentada durante a 3ª Conferência FAPESP 2026, realizada na sexta-feira (29/05), no auditório da Fundação. Mané Jr., chefe do Setor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, destacou o papel da ciência como ponte entre Brasil e Argentina, mesmo em tempos de desafios e instabilidade global.

“Embora seja intuitivo buscar cooperação com países do Norte Global, mais avançados tecnologicamente, a parceria científica com a Argentina tem um valor estratégico único por causa da natureza horizontal, paritária e de complementaridade entre os dois países”, afirmou Mané Jr., que também tem um perfil único entre os diplomatas brasileiros. Doutor em física nuclear pela Universidade de Manchester (Reino Unido), foi pesquisador na Organização Europeia para a Investigação Nuclear (Cern, na sigla oficial em francês), o maior laboratório de física de partículas do mundo, na Suíça, com pós-doutorado pelo Laboratório Nacional de Física de Partículas do Canadá.

Para o diplomata, a parceria científica com a Argentina é importante para a construção de uma infraestrutura científica e tecnológica regional robusta e soberana, que vai muito além de uma simples relação de aprendizado entre nações.

Definida pela Royal Society como a colaboração em que ciência e diplomacia se reforçam mutuamente para beneficiar a sociedade, o tema da diplomacia científica é caro à FAPESP. Historicamente a Fundação tem incentivado ações de internacionalização, cooperação científica e mobilidade acadêmica.

“Esse movimento só é possível porque os acadêmicos são atores centrais desse processo. Eles compartilham um compromisso com o conhecimento que lhes permite atuar para além das restrições ideológicas que marcaram períodos como a bipolaridade”, afirmou Celso Lafer, ex-presidente da FAPESP (2007-2015), que foi o moderador da palestra. Lafer também foi ministro das Relações Exteriores do Brasil em duas ocasiões, em 1992 e de 2001 a 2002.

Mané Jr. destacou que a cooperação entre os dois países se mantém importante mesmo diante da reorientação profunda que a política de Ciência, Tecnologia e Inovação argentina tem passado desde o início do governo de Javier Milei, em 2023. A atual gestão tem sido marcada por um forte ajuste orçamentário, foco em resultados econômicos e reclassificação do antigo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação a uma secretaria voltada prioritariamente à inovação.


Com o orçamento federal argentino comprometido, o diplomata recomendou que instituições paulistas busquem parcerias diretamente com províncias e agências locais, destacando a Comissão de Investigações Científicas da Província de Buenos Aires (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Um relatório do Observatório Ibero-Americano aponta que o país perdeu 5.750 postos de trabalho científico entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025, o equivalente a 7,5 cientistas deixando o ecossistema de pesquisa por dia. A Argentina também passou a figurar entre os países com menor investimento em pesquisa e desenvolvimento da região.

“Apesar da crise, a Argentina possui uma tradição em ciência e educação muito forte, com cinco prêmios Nobel, um sistema educacional avançado e parcerias históricas que têm sido muito úteis para o Brasil", disse.

Um exemplo destacado por Mané Jr. é a área nuclear, em que a Argentina possui grande expertise, exportando reatores nucleares. Ele lembrou que a empresa pública argentina Invap é responsável pelo projeto básico e pela construção do Reator Multipropósito Brasileiro (reator de pesquisa com diversas finalidades, como produção de radioisótopos, testes de materiais e comustíveis nucleares, análises laboratoriais, entre outras).

Outras áreas de colaboração destacadas incluem ciência espacial, pesquisas na Antártida e o uso compartilhado de grandes infraestruturas. “Pesquisadores argentinos são hoje os maiores usuários estrangeiros do Sirius, o acelerador de partículas brasileiro”, ressaltou.

Com o orçamento federal argentino severamente comprometido, o diplomata recomendou que instituições paulistas busquem parcerias diretamente com províncias e agências locais. Ele destacou a Comissão de Investigações Científicas da Província de Buenos Aires (CIC) como um canal estratégico, por possuir centros e laboratórios que não dependem do governo federal.

Mané Jr. também apresentou resultados de um mapeamento inédito da diáspora científica brasileira na Argentina, conduzido pelo Setor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Embaixada. A rede, majoritariamente feminina e concentrada nas áreas de biociências e saúde, tem se organizado de forma espontânea e se tornou um ativo estratégico para o Programa de Diplomacia da Inovação (PDI, iniciativa que utiliza a rede de embaixadas e consulados do Brasil para promover o ecossistema brasileiro de CT&I no exterior). “Essas pesquisadoras funcionam como embaixadoras naturais da ciência brasileira na Argentina, mantendo a cooperação ativa independente das oscilações políticas”, afirmou.

Ao fim da palestra, questionado sobre a importância da cooperação Sul-Sul em mudanças climáticas, focada nos países do continente africano, Mané Jr. respondeu sob uma perspectiva histórica, pessoal e estratégica, destacando que essa relação faz parte da trajetória brasileira de atrair talentos e fortalecer laços diplomáticos por meio do conhecimento.

“O meu pai é da Guiné-Bissau e veio para o Brasil com uma bolsa de estudos nos anos 1970 para estudar economia na Universidade de São Paulo. Portanto, a cooperação Sul-Sul Brasil-África faz parte da minha história também. Fora isso, acho extremamente importante esse tipo de cooperação. Mas é uma construção de longo prazo baseada em vínculos educacionais, científicos e tecnológicos que garantem o desenvolvimento regional e a sobrevivência coletiva", afirmou Mané Jr., que também é chefe do setor de meio ambiente da Embaixada do Brasil em Buenos Aires.

A íntegra da conferência “Diplomacia Científica em Tempos de Fragmentação Geopolítica: Redes, inovação e cooperação Sul-Sul” está disponível em: youtu.be/1HAM6ZwbL8c.
 

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