'O pensamento de Milton adquiriu, para mim, um sentido social e político, relacionado à minha própria inserção na sociedade e ao desejo de nela intervir com reflexão crítica', conta Malachias (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
O geógrafo e educador Billy Malachias fala sobre como é possível adaptar teorias complexas para o ensino básico e defende o uso da trajetória de Milton como ferramenta de formação étnico-racial
O geógrafo e educador Billy Malachias fala sobre como é possível adaptar teorias complexas para o ensino básico e defende o uso da trajetória de Milton como ferramenta de formação étnico-racial
'O pensamento de Milton adquiriu, para mim, um sentido social e político, relacionado à minha própria inserção na sociedade e ao desejo de nela intervir com reflexão crítica', conta Malachias (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Como transformar conceitos geográficos complexos em ferramentas de cidadania dentro das escolas brasileiras? Esse é o foco do geógrafo, pesquisador e educador Billy Malachias (Antônio Carlos Malachias). Aluno e colaborador de Milton Santos, ele atua na área de ensino de Geografia e Políticas Educacionais, com ênfase em estudos sobre desigualdade e território. E, vinculado a instituições como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), tem participação em debates sobre educação, direitos humanos e pensamento crítico. Nesta conversa com a Agência FAPESP, Malachias mergulha na gênese de obras clássicas de Milton Santos, como O centro da cidade de Salvador e Espaço e método, e recorda o perfil intelectual de um pensador que submetia seus manuscritos ao crivo dos alunos.
Agência FAPESP – Fale sobre sua experiência de levar Milton Santos para a sala de aula.
Billy Malachias – Eu proponho pensar não apenas Milton Santos na sala de aula, mas Milton Santos na escola. Para mim, a trajetória dele contribui em pelo menos três dimensões. A primeira é a curricular e pedagógica, pois seus conceitos são extremamente fecundos para o ensino. A segunda é a biográfica e étnico-racial, pois o próprio Milton, por sua vida e por seu pertencimento étnico-racial, já pode figurar como objeto curricular, atendendo inclusive a diretrizes da educação básica. A terceira é a dimensão da gestão escolar, pois a teoria do espaço desenvolvida por ele, especialmente a ideia do espaço como um conjunto indissociável de ações e objetos, permite pensar a escola como totalidade, inclusive em sua organização interna e em sua relação com o entorno.
Agência FAPESP – Como se faz isso na prática?
Malachias – Eu passei a trabalhar na tradução didática de conceitos miltonianos para diferentes níveis escolares. Isso consiste em dar forma pedagógica a ideias complexas, sem que elas percam sua potência. Reconheço que esse tipo de operação pode ser visto por alguns como uma simplificação indevida, mas a considero inevitável e necessária. Levar Milton para a escola exige selecionar recortes, dosar conceitos e adequar a linguagem ao ciclo de ensino.
Agência FAPESP – Como era o próprio Milton Santos em sala de aula?
Malachias – Quando fui aluno de Milton, vi de perto como ele trabalhava em sala de aula. Ele levava para as aulas textos que estava escrevendo e os submetia à crítica dos estudantes, que contribuíam com suas próprias referências e interpretações. Esse processo de interlocução fazia com que ele buscasse continuamente maior precisão conceitual. Isso reforça a ideia de que, para Milton, os conceitos são históricos, datados e permanentemente reelaboráveis.
Agência FAPESP – Como surgiu seu interesse pela obra de Milton Santos?
Malachias – Minha aproximação não foi apenas acadêmica. O pensamento de Milton adquiriu, para mim, um sentido social e político, relacionado à minha própria inserção na sociedade e ao desejo de nela intervir com reflexão crítica. O interesse inicial por algumas obras foi sendo ampliado à medida que eu percebia a potência da produção miltoniana para compreender o mundo e agir sobre ele.
Agência FAPESP – Neste caso, quais foram os livros fundamentais em sua formação?
Malachias – As duas obras que mais me marcaram no início da graduação foram O centro da cidade de Salvador, de 1959, e Espaço e método , de 1985. O centro da cidade de Salvador, que é a tese de doutorado de Milton, foi decisivo porque ajudou a traduzir conceitos em pesquisa concreta. Para quem está começando a formação, esse livro oferece uma passagem da abstração teórica para a materialidade de um caso empírico. Eu já conhecia Salvador, e isso facilitou a compreensão, mas a leitura do livro transformou meu modo de olhar a cidade. Nessa obra, Milton trabalha com quatro categorias do método – forma, função, processo e estrutura – para interpretar o centro de Salvador. Milton pensava as formas da cidade, mais tarde reelaboradas como formas geográficas; a função da cidade, ou, mais precisamente, de seu centro; a estrutura urbana e a lógica a que essa estrutura atendia; a distribuição dos objetos geográficos e das pessoas. Ao pensar a função da cidade, Milton conseguia explicar, por exemplo, por que, em Salvador, a cidade alta era mais valorizada do que a cidade baixa: a cidade alta correspondia à função defensiva, de fortaleza, enquanto a cidade baixa concentrava a função portuária, o comércio direto e inclusive o comércio de pessoas. Por trás disso estão temas como valor, especulação imobiliária e a lógica do centro urbano no conjunto do estado.
Agência FAPESP – Esses conceitos fundamentais do pensamento de Milton já estavam presentes em uma obra tão precoce?
Malachias – Sim, em larga medida já estavam, ainda que talvez o próprio Milton não tivesse plena consciência disso naquele momento. Eu relaciono essa obra inicial a Espaço e método, no qual as mesmas categorias – forma, função, processo e estrutura – reaparecem, agora de maneira muito mais elaborada e explicitamente metodológica. Minha impressão é que uma parte significativa das percepções de Milton sobre o espaço geográfico já estava presente nesse período inicial. Ainda que essa fase seja normalmente classificada como regionalista, com forte influência francesa, Milton já demonstrava ali uma percepção distinta daquela tradição. Eu entendo que há, nesse período, um movimento que depois se acentuará: não exatamente uma ruptura total com a tradição francesa, mas uma crítica crescente à sua insuficiência, sobretudo para explicar a realidade dos países do chamado Terceiro Mundo.
Agência FAPESP – Como definir o espaço geográfico em Milton Santos?
Malachias – Milton Santos formulou diferentes definições de espaço geográfico ao longo do tempo. Em um momento, o espaço é pensado como fixos e fluxos; em outro, como acumulação desigual de tempos; mais tarde, como conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Essas fórmulas não são apenas nomes diferentes: são modos distintos de apreender uma mesma problemática, reelaborados conforme a exigência de maior precisão conceitual. A definição do espaço como acumulação desigual de tempos é, para mim, particularmente expressiva: o espaço seria, entre as produções humanas, aquilo que mais absorve no presente elementos do passado, ao mesmo tempo em que projeta o futuro. O espaço acumula objetos de diferentes idades, e cada objeto técnico carrega consigo o sistema técnico em que se insere. Esses objetos tanto promovem mudanças como produzem resistências. O espaço já ocupado é precisamente o lugar em que o capital encontra obstáculos, ao passo que se alastra mais rapidamente onde não encontra resistências consolidadas. Na definição final do espaço como sistema de ações e sistema de objetos, Milton busca mostrar como tempo e espaço se fundem por meio da técnica, agora pensada não como técnica isolada, mas como sistema técnico.
Agência FAPESP – Há críticas à obra de Milton Santos?
Malachias – Há uma crítica feita por alguns leitores da obra de Milton: a de que nela faltaria o sujeito, ou de que os conceitos apareceriam de forma excessivamente abstrata, sem personagens concretos. Eu compreendo essa crítica, embora pessoalmente goste muito da ênfase miltoniana no método. O que aconteceu foi que Milton estava empenhado em definir o objeto da geografia e isso exigia, antes de tudo, um esforço metodológico. Nesse momento do percurso, o sujeito pode parecer menos visível. Mesmo assim, a sociedade está presente na obra, ainda que não por meio de personagens destacados ou individualizados.
Agência FAPESP – Como era Milton Santos no plano pessoal?
Malachias – Milton era, em geral, muito formal na maneira de vestir. Eu não tenho lembrança de vê-lo de camiseta; no máximo, com camisa social de manga curta. Em sala de aula, costumava aparecer de terno claro, camisa social e pasta na mão. Um estudante chegou a chamá-lo de ‘o baiano mais francês da face da terra’, expressão que considero sugestiva: esse modo de se apresentar teria sido, em parte, aprendido na França e incorporado como traço pessoal.
Agência FAPESP – E quanto ao perfil dele como intelectual?
Malachias – Ele via o intelectual como alguém situado em um lugar de relativo isolamento. Não era uma postura simples, porque implicava estar frequentemente sozinho diante dos grupos, criticando e sendo criticado. Eu, porém, não tinha intimidade suficiente para fazer afirmações mais profundas sobre sua vida interior.
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