Diva Amon participou do LAC Connections Symposium 2026, evento realizado entre 25 e 27 de agosto pela FAPESP e pela Academia Brasileira de Ciências (foto: Thiago Silva)
Em entrevista à Agência FAPESP, Diva Amon, cientista de Trindade e Tobago que liderou a primeira expedição caribenha ao mar profundo, explica a urgência de manter espécimes e dados nos países de origem e fortalecer as parcerias Sul-Sul
Em entrevista à Agência FAPESP, Diva Amon, cientista de Trindade e Tobago que liderou a primeira expedição caribenha ao mar profundo, explica a urgência de manter espécimes e dados nos países de origem e fortalecer as parcerias Sul-Sul
Diva Amon participou do LAC Connections Symposium 2026, evento realizado entre 25 e 27 de agosto pela FAPESP e pela Academia Brasileira de Ciências (foto: Thiago Silva)
André Julião | Agência FAPESP – Nascida em Trindade e Tobago, país insular no sul do Caribe, Diva Amon era estudante de biologia no Reino Unido quando percebeu um paradoxo em sua área. Embora qualquer ponto de sua terra natal esteja a poucos quilômetros do mar profundo – porção do oceano com mais de 200 metros de profundidade –, essa proximidade geográfica não garantia à população local acesso às descobertas científicas feitas naquelas águas.
Assim como ocorre em outras partes do mundo, quase todo o material biológico coletado no mar profundo de Trindade e Tobago está depositado em instituições do chamado Norte Global, conjunto de países desenvolvidos majoritariamente no hemisfério Norte. Isso significa que mesmo cientistas daquele país precisam ir até essas instituições nos Estados Unidos e na Europa para estudar sua própria fauna e flora marinhas. Esse padrão de produção de conhecimento tem sido chamado de “ciência colonial”.
Durante o LAC Connections Symposium 2026, evento realizado entre os dias 25 e 27 de agosto, em Itatiba, pela FAPESP e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), Amon afirmou que a ciência colonial, ou “ciência de paraquedas”, ainda compõe grande parte dos estudos sobre os ecossistemas de sua região, algo que também ocorre na maior parte do Sul Global, como na América Latina, África e Sudeste Asiático (leia mais em: agencia.fapesp.br/59067).
Na ciência de paraquedas, pesquisadores do Norte Global coletam material científico no Sul Global, levam para suas instituições e publicam seus trabalhos sem a participação de cientistas do país de origem do material. Esse tipo de prática também ocorre em outros campos do conhecimento e ainda é bastante presente, mesmo décadas ou séculos após os países fornecedores de animais, plantas e artefatos arqueológicos terem deixado de ser colônias europeias (leia mais em: agencia.fapesp.br/56292, agencia.fapesp.br/58688 e agencia.fapesp.br/57723).
Amon, que é pesquisadora da Universidade da Califórnia em Santa Barbara e diretora do SpeSeas, organização sem fins lucrativos sediada em seu país natal, foi a cientista-chefe da primeira expedição ao mar profundo de Trindade e Tobago liderada por caribenhos, ocorrida entre junho e julho de 2026.
Um levantamento apresentado por ela no evento de Itatiba mostra que, de todo o material biológico coletado nas águas profundas de Trindade e Tobago e Barbados, apenas 3% estavam em seu país, nada em Barbados, 10% em local desconhecido e 87% em instituições do Norte Global.
Na entrevista a seguir, ela fala sobre como tomou consciência da ciência colonial feita ainda hoje, como realizar parcerias equitativas com instituições do Norte Global e como países do Sul Global podem colaborar entre si para conhecer seus oceanos.
Agência FAPESP – Como se interessou por questões como ciência colonial e ciência de paraquedas?
Diva Amon – Como pesquisadora, estudo o oceano profundo, tentando entender o que vive lá, mas também como estamos impactando o ambiente marinho. Nessa jornada de tentar responder a essas questões, ficou muito claro, bem rápido, como a ciência oceânica e a ciência em geral podem ser desiguais e quanto de ciência colonial ainda existe. Lembro quando ainda estava na graduação, por volta de 2008 ou 2009, e tive uma aula sobre um ecossistema chamado Prisma Acrescionário de Barbados [gigantesca estrutura geológica submarina localizada a leste do Mar do Caribe], onde os franceses haviam feito muitos trabalhos. Lembro de ter pensado, ‘isso deve ser nas águas de Barbados, o que é perto de nós’. Eu comecei a perceber que eu não sabia nada sobre o oceano próximo de mim, mesmo estudando ciência oceânica. Foi aí que as questões começaram. Claro, eu ainda era uma estudante e é uma época em que não se tem o poder para mudar as coisas.
Agência FAPESP – E como foram suas primeiras expedições científicas?
Amon – Muitas das expedições em que embarquei na primeira metade da minha carreira eram ciência colonial. Eram lideradas por instituições do Norte Global e realizadas no Sul Global. No começo eu não percebia o problema. O que eu notava era que não havia ninguém com aparência como a minha ou que soasse como eu, ninguém do meu país ou de outros países em desenvolvimento presentes. Isso foi o que realmente se destacou primeiro. Quando vou a conferências científicas, isso se repete. Há muito mais pessoas dos Estados Unidos e da Europa. Foi na segunda metade da minha carreira que comecei a pensar em como lidar com isso. Como podemos gerar fatos a respeito de modo a mostrar as provas de que isso existe, e como podemos começar a mudar esse cenário. Acredito que, durante a pandemia de COVID, especialmente, houve um enorme aumento em inclusão e diversidade em muitos países do Norte Global, especialmente nos Estados Unidos. E creio que foi aí que muitas dessas conversas realmente se tornaram sérias. Elas seguem acontecendo, mas continua sendo uma luta. Quando se fala com cientistas do Sul Global, eles concordam plenamente e contam experiências similares. Mas há muitos cientistas do Norte Global que simplesmente não pensam nisso, apenas fazem suas pesquisas. No entanto, há muitas pessoas lutando para isso ser reconhecido e mudado, não apenas na pesquisa sobre oceano profundo, mas na conservação e na ciência globalmente.
Agência FAPESP – Estudar o oceano profundo é especialmente caro, uma vez que depende de expedições científicas, navios etc. Então, na maior parte do tempo, provavelmente você depende de parcerias com instituições do Norte. Como fazer para obter esses recursos e manter a independência?
Amon – Essa é a pergunta de ouro. Algumas coisas estão acontecendo, uma vez que esse problema não é de um único país, mas de países economicamente menos desenvolvidos ao redor do mundo. E não apenas na ciência de oceano profundo, mas em vários campos. Só posso falar pela minha experiência, mas o que percebi é que se trata de escolher as pessoas certas para trabalhar. Pessoas que reconheçam esses desafios e que queiram ser parte da solução. Mas a jornada é longa. Levei uma década para chegar a um lugar em que tivesse poder suficiente, reputação ou o que quer que fosse para começar a reivindicar mudança e para que as pessoas e instituições começassem a ouvir. Como cientistas, individualmente, podemos começar a mudança, mas isso também diz respeito às instituições. Criar parcerias significativas com pessoas que estão na mesma sintonia que você, mas também com outros em posições de poder para pressionar por mudanças institucionais. Por exemplo, trabalho bastante com a National Geographic Society. Nos últimos três ou quatro anos, eles introduziram regras de que se você está se candidatando para que eles te financiem, você deve estar trabalhando no seu país de origem ou ter colaboradores no país em que você quer trabalhar. Não pode ‘cair de paraquedas’ e fazer ciência colonial. E isso só aconteceu porque os exploradores e cientistas apoiados pela National Geographic Society pediram por essa mudança. Creio que isso é o que estamos vendo globalmente e é essencialmente o que precisamos fazer: pressionar por mudanças institucionais.
Agência FAPESP – Como os materiais coletados na expedição que você liderou foram compartilhados?
Amon – Fizemos como aprendi em uma expedição de 2023, com pesquisadores da Costa Rica. Todo o material biológico coletado, os espécimes, continuarão em Trindade e Tobago, cada um deles. Isso era parte do acordo feito quando estávamos buscando colaboradores estrangeiros. Se houver duplicatas ou pedaços, eles podem levar. A ideia é não repetir o que ocorreu na maior parte da história, com as amostras ficando depositadas em países do Norte Global e nós, do Sul Global, sem acesso a elas.
Agência FAPESP – Você acredita que é possível fazer ciência oceânica, ou pesquisa em outros campos da ciência, apenas com uma rede de instituições do Sul Global?
Amon – Sim! No começo havia esse pensamento de que se deveria construir competência no sentido Norte-Sul [instituições do Norte Global treinando pesquisadores do Sul Global]. E estamos percebendo que isso não é unidirecional. Essa construção é compartilhada e vai nos dois sentidos. Na verdade, posso dizer que as parcerias mais interessantes que tenho hoje são do Sul Global com Sul Global. Estou trabalhando muito com colegas da África do Sul, das Seychelles, do Sri Lanka e de países caribenhos. Foi uma parceria com cientistas da Costa Rica que me permitiu participar de uma expedição e aprender como liderar outra depois. Outro ponto importante é compartilhar. Por exemplo, quando pensamos em países menos desenvolvidos, o Brasil é um dos líderes em ciência de oceano profundo. Há pessoas incríveis, na USP [Universidade de São Paulo] e em outras instituições, que estão realmente mostrando para o resto do mundo, especialmente para cientistas de países em desenvolvimento como o meu, como fazer isso em seu próprio país. No Brasil, sei que há muitas parcerias com a indústria de óleo e gás para utilizar bem seus recursos. É esse tipo de aprendizado entre países do Sul Global que podemos ter. Como superar os desafios, muitos dos quais são os mesmos, como a falta de recursos. Então trabalhar juntos pode nos ajudar a construir soluções robustas.
A Agência FAPESP licencia notícias via Creative Commons (CC-BY-NC-ND) para que possam ser republicadas gratuitamente e de forma simples por outros veículos digitais ou impressos. A Agência FAPESP deve ser creditada como a fonte do conteúdo que está sendo republicado e o nome do repórter (quando houver) deve ser atribuído. O uso do botão HMTL abaixo permite o atendimento a essas normas, detalhadas na Política de Republicação Digital FAPESP.