Novas rotas da cana | AGÊNCIA FAPESP

Em workshop do BIOEN-FAPESP, especialistas apontam outros caminhos potenciais para utilização da cana-de-açúcar, como a geração de eletricidade e a produção de hidrocarbonetos (foto: Eduardo Cesar)

Novas rotas da cana

17 de junho de 2009

Por Thiago Romero

Agência FAPESP – Açúcar, etanol, eletricidade, plásticos e hidrocarbonetos. Para Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), essa é a rota de utilização da cana a ser seguida pelas atividades de pesquisa científica e tecnológica nos próximos anos.

Em palestra no Workshop on the Impact of land use change and biofuel crops on soils and the environment, promovido pelo Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) nesta terça-feira (16/6), na sede da Fundação, Jank apontou novos potenciais da cana-de-açúcar.

“É muito provável que, daqui a dez anos, o Brasil esteja investindo em estudos e na produção de hidrocarbonetos a partir de açúcares convencionais, quando a cana poderá dar origem a um combustível de terceira geração, principalmente se o preço do petróleo voltar a patamares elevados”, disse.

“Essas novas rotas de utilização da cana são uma possibilidade extremamente concreta e bem próxima da realidade. Pelo menos uma dezena de empresas americanas está investindo pesadamente nessa área, seja por vias biológicas ou não biológicas. Essa nova fronteira acontecerá tão mais rápido quanto maiores forem a escassez do petróleo e os problemas do clima”, afirmou.

Segundo Jank, atualmente as pesquisas e suas aplicações estão entrando na era da eletricidade gerada a partir da cana-de-açúcar e também é muito provável que, em poucos anos, a maior parte do bagaço e da palha da cana seja usada para a geração de energia elétrica, “que hoje é o mercado demandante, uma vez que já existe um excedente de etanol no mercado devido à expansão da indústria nacional nos últimos anos”.

Dois terços da energia da cana-de-açúcar, seja para a produção de biocombustíveis ou eletricidade, têm origem na biomassa da gramínea, explicou o presidente da Unica, entidade que reúne 127 empresas industriais associadas.

Segundo ele, a energia contida nas plantações de cana do país apresenta potencial estimado da ordem de 14 mil megawatts, o que representaria “duas usinas de Itaipu adormecidas nos canaviais brasileiros”.

“O potencial de crescimento da eletricidade de cana, a chamada bioeletricidade, é surpreendente, devendo passar dos atuais 3% da matriz energética nacional para cerca de 15% em 2020, isso considerando apenas a utilização do bagaço e da palha da cana que está plantada atualmente no Brasil”, apontou o também professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

A biomassa da cana é considerada ainda, de acordo com Jank, uma matéria-prima cada vez mais importante para a indústria da alcoolquímica, com destaque para os plásticos verdes e uma série de outros produtos que podem ser feitos além do etanol.

“Estamos diante de um emaranhado de possibilidades e as experiências brasileiras ainda estão à frente do ponto de vista global, mas essa dianteira ainda não está garantida e dependerá de muito investimento em pesquisa e desenvolvimento na área, além da definição de uma nova agenda de pesquisa para a cana no mundo da energia”, destacou.

BIOEN

Na abertura do Workshop on the Impact of land use change and biofuel crops on soils and the environment, o presidente da FAPESP, Celso Lafer, destacou a importância do BIOEN. Lançado em julho de 2008 pela FAPESP, o programa financia atualmente projetos em três linhas de pesquisa: melhoramento de cultivares para produção de biomassa de cana e de outras plantas; pesquisa sobre processos de produção de bioetanol e de outros compostos de interesse da indústria; e pesquisas sobre os impactos sociais, econômicos e ambientais do uso e da produção de biocombustíveis.

Glaucia Mendes Souza, coordenadora do BIOEN e uma das coordenadoras da área de biologia da FAPESP, explicou no workshop que um dos objetivos do programa e também dos encontros científicos que o acompanham é justamente traçar um mapa da pesquisa em bioenergia no país e definir as áreas do conhecimento que devem ser priorizadas para investimentos.

“Foram submetidos 154 projetos às primeiras chamadas do BIOEN, em um total contratado de R$ 43 milhões, sendo R$ 27 milhões em pesquisas sobre plantas, R$ 16 milhões em processos e R$ 427 mil em estudos sobre os impactos”, disse Glaucia.

Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, entre as principais metas do BIOEN está a intensificação da atividade de pesquisa em São Paulo e o aumento do número de cientistas no Estado em áreas do conhecimento relacionadas à bioenergia. São Paulo, segundo ele, reúne mais da metade da produção científica em bioenergia desenvolvida no Brasil.

“A parte essencial da estratégia do programa é, em uma velocidade suficientemente rápida, formar mais pesquisadores e aumentar a capacidade científica na área, levando em consideração o aumento do interesse mundial pela bioenergia e todas as mudanças verificadas na curva do avanço do conhecimento na área”, disse.

“Para manter a posição de liderança que o Brasil conquistou, precisamos redefinir a dimensão da pesquisa em bioenergia de tal modo que possamos enfrentar os novos desafios que surgiram por causa do aumento da comunidade científica mundial na área, o que exige não só recursos financeiros, mas principalmente cientistas capazes de usar esses investimentos”, ressaltou Brito Cruz.

O diretor científico da FAPESP chamou a atenção ainda dos pesquisadores e docentes presentes no evento do BIOEN para a necessidade do aumento da presença mundial da ciência brasileira em bioenergia. “Muitos resultados interessantes na área estão escondidos em artigos publicados em língua portuguesa, então temos outro desafio importante que é o de produzirmos ciência mais competitiva mundialmente”, disse.

O workshop foi organizado pela Divisão de Pesquisa sobre Impactos Socioeconômicos, Ambientais e de Uso da Terra do BIOEN, que é coordenada por Heitor Cantarella, pesquisador científico do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Solos e Recursos Ambientais do Instituto Agronômico de Campinas.
 

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