Mulheres são maioria entre bolsistas de mestrado
(foto: Thiago Romero)

Mulheres na ciência brasileira
22 de setembro de 2003

Ao chamar o novo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia de "clube do Bolinha", o presidente Lula reabre a discussão sobre a presença feminina no setor. Apesar de serem a maioria dos bolsistas de iniciação científica e de mestrado, as mulheres estão em menor número entre os mais titulados e são quase invisíveis em cargos de direção de centros de pesquisa

Mulheres na ciência brasileira

Ao chamar o novo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia de "clube do Bolinha", o presidente Lula reabre a discussão sobre a presença feminina no setor. Apesar de serem a maioria dos bolsistas de iniciação científica e de mestrado, as mulheres estão em menor número entre os mais titulados e são quase invisíveis em cargos de direção de centros de pesquisa

22 de setembro de 2003

Mulheres são maioria entre bolsistas de mestrado
(foto: Thiago Romero)

 

Por Maria da Graça Mascarenhas

Agência FAPESP - Ao empossar, no dia 11 de setembro, o novo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou-o de "clube do Bolinha", por ter uma única mulher - Wrana Maria Panizzi, reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - entre os seus 24 integrantes.

"Não foi citado o nome de uma mulher, que é uma coisa que nós vamos ter que reparar daqui para a frente. A não ser que alguém prove que não tem mulher cientista", disse o presidente.

Na verdade, elas existem e até são em maior número na maioria das áreas do conhecimento. Mas, como entraram só mais recentemente nesse universo, são minoria entre os pesquisadores mais titulados e, portanto, recebem menos recursos para bolsas e auxílios que exigem maior experiência e títulos. E são quase invisíveis em cargos de direção de centros e institutos de pesquisa ou de gestão de política científica e tecnológica. A Academia Brasileira de Ciências, por exemplo, tem cerca de 10% de mulheres em seus quadros. Pouco, mas mais que nos Estados Unidos, onde a presença feminina está em torno de 7,5%.

Em 1965, a revista Science publicou um artigo que se tornou um marco, por ser aparentemente o primeiro sobre o assunto: Mulheres na ciência: por que tão poucas?" E dava as respostas: incompatibilidade da carreira com a maternidade e o casamento, habilidade intelectual, falta de independência da mulher, falta de persistência no trabalho, maior envolvimento com atividades sociais que acadêmicas e influências familiares.

De lá para cá, muita coisa mudou. Outras, nem tanto. No Brasil, por exemplo, na segunda metade da década de 90, as mulheres se tornaram maioria nos bancos universitários e entre os formandos participantes do exame nacional de cursos, conhecido como Provão . Em 1998, elas eram 53,9%; em 2002, 66% dos que fizeram o exame. Mas como isto se reflete na carreira científica?

As pesquisadoras Hildete Pereira de Melo e Helena Maria Martins Lastres, respectivamente da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense e do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fizeram um diagnóstico do assunto. Elas coordenaram a equipe brasileira que, no primeiro semestre do ano, encaminhou ao Projeto Iberoamericano de Ciência, Tecnologia e Gênero (GenTeC) o relatório de pesquisa Brasil – Gênero, Ciência, Tecnologia e Inovação – Um Olhar Feminino. O Projeto é uma iniciativa da Unesco e da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI).

No mês de julho passado, as autoras apresentaram parte do trabalho na 55ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no simpósio Educação, Ciência e Tecnologia e a Inclusão Feminina. Na mesma reunião, outros quatro simpósios trataram do tema.

O trabalho das pesquisadoras, apresentado como duas contribuições – O sistema científico brasileiro numa perspectiva de gênero: o caso do CNPq e Educar para Incluir: numa perspectiva de gênero – procurou traçar um quadro dessa inserção feminina no sistema de pesquisa nacional, "partindo da hipótese que, a despeito do crescimento expressivo do número de mulheres com formação universitária no Brasil, a participação feminina na produção do conhecimento ainda está aquém da presença feminina na universidade".

Elas começaram analisando a presença feminina na universidade. "As mulheres entraram no século 20 analfabetas e terminaram o século com escolaridade maior que a dos homens", observa Hildete de Melo. Em 2001, segundo ela, 52% das pessoas com diploma superior no Brasil eram mulheres. Em 2002, entre os estudantes presentes ao Provão, as mulheres eram 94,5% dos formandos em Pedagogia, 89,2% em Psicologia, 89,1% em Enfermagem, 86,7% em Letras e 73,8% dos formandos em Biologia, carreiras tradicionalmente classificadas como femininas. Em contrapartida, nas profissões tradicionalmente tidas como masculinas – Engenharias Mecânica, Elétrica e Civil, Física e Agronomia – a participação feminina era, respectivamente, de 4,5%, 10,4%, 25,3%, 27,5% e 29,2% dos formandos. Entretanto, as mulheres foram ocupando, de forma gradativa, novas áreas. Entre os formandos dos cursos de Matemática, Odontologia e Jornalismo já há predominância feminina; e há um certo equilíbrio de gênero entre os formandos dos cursos de Administração, Direito, Medicina Veterinária, Engenharia Química, Química e Medicina.

Mas, e a carreira científica? A partir do banco de dados do CNPq (Diretório de Pesquisa 4.0), Hildete de Melo e Helena Lastres levantaram as concessões de bolsas nas modalidades iniciação científica, mestrado (no país e no exterior) doutorado (no país, no exterior e bolsa-sanduíche) e de pesquisa (pós-doutorado e produtividade), esta última direcionada especificamente para pesquisadores. Constataram que, desde 1995, as mulheres são maioria nas concessões de bolsas de iniciação científica (52,8% contra 47,2% das concessões a homens) e, desde 1998, nas de mestrado (52,1% contra 47,9%). Entretanto, a situação se inverte nas bolsas de doutorado e de pesquisa: não só o número de concessões é maior para os homens como esta realidade se mantém ao longo da década praticamente inalterada. No caso das bolsas de pesquisa, que exigem maior titulação, a disparidade fica em torno de 69,5% de concessões dadas aos homens contra 30,5% de bolsas dadas às mulheres, ao longo de todo o período.

Mas as autoras fizeram uma leitura mais aprofundada das bolsas de produtividade, o nível mais alto, e que são classificadas pelo CNPq em nove categorias, segundo a titulação e a produção científica do pesquisador: 1A, 1B, 1C, 2A, 2B, 2C, 3A, 3B e 3C, sendo o nível 1A o dos pesquisadores com maior titulação e o nível 3 o dos pesquisadores emergentes, com pesquisas próprias ou ainda associados a projetos coordenados por pesquisadores mais experientes. No nível 1A, a concessão de bolsas às mulheres passou de 18,5% em 1990 para 21,1% em 1999. Nos demais níveis, no mesmo período, a expansão foi maior: de 18,9% para 24,7% no nível 1B; de 24% para 28,6% no nível 1C; e de 30,2% para 36,5% no nível 2B. Em todos esses níveis a curva de concessão se manteve inalterada no período. As bolsas destinadas ao nível 3, contudo, tiveram queda geral de recursos e de concessões ao longo da década. E, aí, as mulheres foram as maiores prejudicadas. No caso das bolsas para o nível 3A, a participação feminina caiu de 41,6% em 1990 para 28,6% em 1999; no nível 3B, caiu de 42,3% para 33,3%; e no nível 3C, de 45,5% para 44%

"A menor presença feminina nas bolsas de pesquisa do CNPq pode ser explicada pela inserção tardia das mulheres no sistema de ciência e tecnologia", diz Hildete de Melo. Mas ela acrescenta que isto não justifica tudo: permanece a dificuldade das mulheres em conciliar a carreira científica com a vida familiar. "É difícil conciliar a produção científica com a gestação e a maternidade. Isto pode ser constatado observando-se dados que mostram que essas mulheres têm uma maternidade tardia ou optam por não ter filhos", diz Hildete. Ela cita dados colhidos na Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2001: 46,2% da população ocupada feminina com 3º grau não têm filhos. Por faixa etária, 57,3% das mulheres com até 35 anos de idade não têm filhos.

Essa dificuldade de conciliar a vida familiar com a produção científica talvez seja a responsável por uma afirmação tomada como verdade, a de que as mulheres cientistas produzem menos que os homens. A bioquímica Jacqueline Leta, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicou este ano, na revista européia Scientometrics, um estudo em colaboração com Grant Lewison, da City University, de Londres, Inglaterra, intitulado A contribuição das mulheres na ciência brasileira: um estudo de caso em astronomia, imunologia e oceanografia.

O objetivo do estudo era verificar se a produção científica das pesquisadoras brasileiras, nessas três áreas de conhecimento, diferia, em quantidade e qualidade, da produção científica dos pesquisadores homens. Ela também tomou como base de dados o Diretório de Pesquisa do CNPq, procurando identificar o total de doutores em cada uma das áreas e a proporção de mulheres. Os dados foram cruzados com artigos publicados em publicações indexadas no Web of Science. O resultado obtido foi que a proporção de artigos de mulheres e de homens segue a proporção da presença delas na área, isto é, elas produzem de acordo com o que elas representam no total de pesquisadores. Do ponto de vista de impacto também não houve diferença. "Isto contraria boa parte da literatura mundial, que diz que a mulher produz menos; ela produz menos porque ocupa um espaço menor nas atividades de pesquisa", diz Jacqueline Leta.

O fato de as mulheres serem maioria nas universidades e nas bolsas de iniciação científica e de mestrado pode levar a supor que no futuro a participação feminina na carreira científica em todos os níveis será alterada", diz Hildete de Melo. "Mas não dá para ficar esperando de braços cruzados", acrescenta. A observação do presidente da República veio dar um pequeno empurrão nesse processo.


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