Composto atua no organismo liberando óxido nítrico (NO), gás naturalmente produzido pelo corpo que tem ação vasodilatadora (imagem: Marcelo Ganzarolli de Oliveira)

Cardiologia
Molécula vasodilatadora pode reduzir dano ao coração após o infarto

Pesquisa da Unicamp avaliou em ratos os efeitos da S-nitrosoglutationa. Resultados mostram que o composto preserva as células cardíacas durante a retomada da circulação, mas requer dosagem exata para não ser tóxico

18 de agosto de 2026
Cardiologia
Molécula vasodilatadora pode reduzir dano ao coração após o infarto

Pesquisa da Unicamp avaliou em ratos os efeitos da S-nitrosoglutationa. Resultados mostram que o composto preserva as células cardíacas durante a retomada da circulação, mas requer dosagem exata para não ser tóxico

18 de agosto de 2026

Composto atua no organismo liberando óxido nítrico (NO), gás naturalmente produzido pelo corpo que tem ação vasodilatadora (imagem: Marcelo Ganzarolli de Oliveira)

 

Claudia Izique | Agência FAPESP – Uma molécula capaz de relaxar os vasos e restaurar o fluxo de sangue logo após um infarto pode reduzir drasticamente as sequelas e o tamanho da lesão no músculo do coração. É o que indica um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) publicado em março na revista Scientific Reports.

Em experimentos com roedores, o grupo testou a S-nitrosoglutationa (GSNO), que atua no organismo liberando óxido nítrico (NO) – um gás naturalmente produzido pelo corpo e que tem ação vasodilatadora. Os achados, contudo, trazem um alerta importante para o desenvolvimento de futuros tratamentos: a eficácia do composto depende de se administrar a dose exata, pois o excesso anula o efeito protetor e pode ser tóxico às células.

“Coletivamente, essas descobertas demonstram um efeito cardioprotetor da GSNO dependente da dose, provavelmente mediado pela biodisponibilidade sustentada de óxido nítrico e pela melhora da vasodilatação coronariana”, destacam os autores no artigo.

O Brasil registra entre 300 mil e 400 mil casos de infarto agudo do miocárdio por ano, segundo estatísticas do Ministério da Saúde. A taxa de sobrevivência é de 80% a 86%, mas há o risco de sequelas. Até 50% do tamanho final do infarto pode ser atribuído ao dano causado pela lesão que ocorre quando o fluxo sanguíneo é restabelecido na área afetada, processo conhecido como isquemia e reperfusão (I/R) miocárdica.

“Quando há uma isquemia e o fluxo é restabelecido, o coração sofre um surto de estresse oxidativo e inflamação que agrava a morte do tecido cardíaco”, explica Marcelo Ganzarolli de Oliveira, professor do Instituto de Química (IQ) da Unicamp. Na prática, isso significa que o retorno abrupto do sangue e do oxigênio à área bloqueada desequilibra o metabolismo das células. Como resultado, ocorre uma superprodução de moléculas nocivas, como os radicais livres de oxigênio. Esse excesso – que caracteriza o estresse oxidativo – sobrecarrega as defesas naturais do órgão e acaba destruindo as estruturas celulares saudáveis, o que amplia de forma irreversível a lesão inicial do infarto.

Por esse motivo, o grupo de pesquisa liderado por Oliveira busca alternativas para atenuar essas lesões pós-infarto e tem obtido resultados promissores com o uso de biomateriais para carrear óxido nítrico no organismo. O trabalho conta com apoio da FAPESP e envolve a colaboração de Andrei Carvalho Sposito, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, além de bolsistas de pós-doutorado. Também participam pesquisadores das universidades de Twente e de Eindhoven, dos Países Baixos.

Direto no coração

No estudo recém-publicado, os pesquisadores produziram a GSNO no laboratório e a aplicaram de forma contínua em corações de ratos que tiveram a circulação de sangue interrompida por 35 minutos, simulando um infarto. Os cientistas testaram o tratamento com duas dosagens diferentes da molécula: uma moderada – 200 micromolar (µM) – e outra mais que o dobro da primeira – 500 µM. Em seguida, avaliaram como o coração reagiu, observando a facilidade com que o sangue voltou a circular (fluxo coronariano e resistência vascular), a força e a saúde dos batimentos (parâmetros hemodinâmicos), o tamanho da lesão deixada pelo infarto, quantas células do tecido continuaram vivas (viabilidade celular) e a capacidade de os vasos sanguíneos relaxarem e voltarem a se abrir (resposta vasodilatadora).

O resultado foi que tanto o grupo que recebeu GSNO 200 µM como o que recebeu GSNO 500 µM tiveram o fluxo sanguíneo aumentado e a resistência vascular reduzida, demonstrando o efeito vasodilatador da GSNO. Mas apenas o grupo que recebeu a concentração de 200 µM teve redução significativa da área do infarto e melhora na recuperação funcional do ventrículo. “A concentração de 500 µM não conferiu proteção adicional e ainda apresentou risco de citotoxicidade”, comenta Oliveira.

Já a GSNO em concentração de 200 µM manteve a biodisponibilidade de óxido nítrico na área infartada, promoveu a vasodilatação e preservou a função das mitocôndrias – as organelas produtoras de energia para as células –, reduzindo o estresse oxidativo durante a reperfusão. Ou seja, o tratamento preservou a capacidade das artérias coronarianas de se dilatarem logo após o infarto, melhorando a oferta de oxigênio ao tecido fragilizado.

Como explica Oliveira, a GSNO transfere óxido nítrico para proteínas críticas da mitocôndria, limitando a produção de espécies reativas de oxigênio. Com isso, o fornecimento de energia para as células do coração se mantém estável. “Ao diminuir os níveis de apoptose [morte celular] e fibrose tecidual [substituição do músculo saudável por tecido de cicatriz] na fase pós-isquêmica [período que se segue ao infarto], a GSNO ajuda a evitar a hipertrofia [aumento anormal e prejudicial do coração] e a perda de função sistólica [capacidade de o órgão bombear o sangue] a longo prazo”, diz o pesquisador.

O artigo conclui que a GSNO é uma candidata promissora para atuar como um tratamento complementar após o infarto. Com base nos benefícios do óxido nítrico, a molécula tem grande potencial para reduzir os danos no coração causados pelo bloqueio e retorno repentino do fluxo de sangue, desde que as doses sejam rigorosamente ajustadas para evitar efeitos adversos.

Prova de conceito

Para Oliveira, o trabalho é um primeiro passo importante para provar que a entrega direcionada do óxido nítrico consegue frear as lesões no coração após o infarto. É o que os cientistas chamam de “prova de conceito”.

O próximo passo será incorporar a GSNO em hidrogéis a serem aplicados sobre o epicárdio – a camada externa do coração – durante procedimentos cirúrgicos. “O gel tem ação local: libera o óxido nítrico e é absorvido pelo organismo”, conta.

Também estão em curso pesquisas para incorporar a GSNO em hidrogéis injetáveis e em stents – confeccionados por meio de impressão 3D – utilizados em cirurgia de revascularização. “A grande maioria dos stents disponíveis no mercado tem revestimentos poliméricos para liberação de fármacos. O que nós estamos desenvolvendo são stents inteiramente poliméricos, absorvíveis e liberadores de óxido nítrico”, diz.

As novas etapas da investigação também são apoiadas pela FAPESP.

O artigo S-nitrosoglutathione preserves vasodilation and attenuates myocardial ischemia-reperfusion injury pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-45498-x.
 

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