À esquerda, seção do ceco de ave de corte infectada por versão selvagem de Salmonella Enteritidis apresenta reações em macrófagos (partes mais escuras) 14 dias após a infecção. À direita, mutante da bactéria causa resposta imune mais acentuada (imagens: Julia Cabrera/FCAV-Unesp)

Formas mutantes de Salmonella tornam infecção mais agressiva em aves comerciais, aponta estudo
05 de maio de 2023
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Deleção de dois genes, que em camundongos atenuou a ação da bactéria, tornou a resposta imune mais exacerbada em frangos de corte. Trabalho reforça a necessidade de medidas de sanidade animal e higiene ao longo de toda a cadeia de produção

Formas mutantes de Salmonella tornam infecção mais agressiva em aves comerciais, aponta estudo

Deleção de dois genes, que em camundongos atenuou a ação da bactéria, tornou a resposta imune mais exacerbada em frangos de corte. Trabalho reforça a necessidade de medidas de sanidade animal e higiene ao longo de toda a cadeia de produção

05 de maio de 2023
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À esquerda, seção do ceco de ave de corte infectada por versão selvagem de Salmonella Enteritidis apresenta reações em macrófagos (partes mais escuras) 14 dias após a infecção. À direita, mutante da bactéria causa resposta imune mais acentuada (imagens: Julia Cabrera/FCAV-Unesp)

 

André Julião | Agência FAPESP – Um grupo de pesquisadores apoiado pela FAPESP criou formas mutantes da bactéria Salmonella – patógeno de aves comerciais e de humanos – para entender os mecanismos que favorecem a colonização do trato entérico de frangos e galinhas. O entendimento dos mecanismos utilizados pelo microrganismo pode auxiliar na busca de estratégias para controlar a infecção.

No estudo, publicado na revista Scientific Reports, os pesquisadores observaram que, ao contrário do esperado, as estirpes mutantes causaram infecções mais graves em frangos de corte de diferentes idades.

Os mutantes possuíam os genes ttrA e pduA defectivos (não ativos). Ambos foram apontados por estudos de outros grupos, feitos com camundongos, como alguns dos responsáveis pela capacidade da Salmonella de viver em ambiente sem oxigênio, favorecendo sua instalação, colonização intestinal e disseminação no ambiente produtivo.

“Isso daria uma vantagem na competição com outros microrganismos que também habitam o trato intestinal”, conta Julia Cabrera, primeira autora do artigo, ex-bolsista de treinamento técnico da FAPESP e, atualmente, doutoranda na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (FCAV-Unesp), em Jaboticabal.

“O aparato genético de Salmonella é suficiente para que ela mude o comportamento não só diante do hospedeiro [aves comerciais], como de outras bactérias que competem com ela naquele ambiente. Na falta dos dois genes, ela encontrou outros mecanismos para sobreviver, tendo se tornado até mais patogênica para as aves”, explica Mauro Saraiva, coautor e responsável pela condução do estudo durante pós-doutorado na FCAV-Unesp.

Os resultados reforçam a importância de medidas de sanidade animal desde os primeiros dias de vida das aves até o abate, além de cuidados durante o transporte e a conservação da carne. Por enquanto, uma vacina para prevenir a colonização intestinal de aves por estirpes de Salmonella, responsáveis por surtos de salmoneloses humanas transmitidas por alimentos, está fora do horizonte.

O estudo integra um projeto apoiado pela FAPESP coordenado por Angelo Berchieri Junior, professor da FCAV-Unesp (leia mais em: agencia.fapesp.br/29821/).

Segundo o pesquisador, são pouco diagnosticados no Brasil os eventos de infecção humana transmitida por alimentos, mas o consumidor não deve negligenciar a conservação adequada dos alimentos e a higiene.

“Nem sempre os sorotipos de Salmonella conhecidos por causarem doenças transmitidas por alimento [DTA] geram enfermidade. Embora haja outras vias importantes introdutórias da bactéria nas granjas avícolas, o maior perigo é quando as aves são expostas nos primeiros dias de vida, quando o sistema imune ainda não está totalmente formado”, afirma o pesquisador.

Nesses casos, diz, a excreção fecal é mais prolongada, provocando contaminação mais extensa do galpão e, por conseguinte, mais aves infectadas são transportadas para o abatedouro. É nessa fase que ocorre a maior parte da contaminação da carcaça, como é chamado o frango pronto para venda.

Infecção

Para chegar aos resultados, galinhas poedeiras e frangos de corte de diferentes idades foram infectados pelos sorotipos Enteritidis e Typhimurium de Salmonella, os mais comuns no Brasil. Foram usados mutantes que tinham os genes ttrA e pduA inativados em laboratório. As infecções foram comparadas com a provocada pelos correspondentes selvagens, que tinham todos os genes funcionais.

A resposta imune celular foi medida pela técnica de imuno-histoquímica, que se baseia na reação antígeno-anticorpo e marcação do composto formado no tecido infectado. Quanto maior a área marcada, mais exacerbada a resposta celular do organismo à infecção. No estudo, foram analisadas diferentes porções do intestino das aves (ceco, íleo e tonsila cecal), além do fígado.

Os mutantes de Enteritidis causaram resposta imune celular mais acentuada do que a versão selvagem, com exceção das galinhas poedeiras. O sorotipo Typhimurium, por sua vez, causou respostas similares das aves tanto na versão selvagem quanto na mutante.

Em todas as linhagens estudadas, os pesquisadores observaram uma grande migração de macrófagos, células de defesa que atacam invasores como as bactérias, nos tecidos infectados por Salmonella.

“O próximo passo é fazer testes de PCR em tempo real para entender quais moléculas estão envolvidas nessa resposta imune celular mais exacerbada nas aves infectadas por estirpes mutantes”, encerra Saraiva.

O artigo Salmonella enterica serovars in absence of ttrA and pduA genes enhance the cell immune response during chick infections está disponível em: www.nature.com/articles/s41598-023-27741-x.
 

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