Capa da revista Science Signaling destaca grânulos de estresse formados por DDX3X com mutação associada a doenças (imagem: reprodução)

Neurobiologia
Estudo do CNPEM avança na compreensão de transtorno do neurodesenvolvimento
30 de março de 2026

Pesquisadores apoiados pela FAPESP identificaram papel inédito do cloreto na regulação da proteína DDX3X, fundamental para o funcionamento do cérebro; estudo é destaque de capa da revista Science Signaling

Neurobiologia
Estudo do CNPEM avança na compreensão de transtorno do neurodesenvolvimento

Pesquisadores apoiados pela FAPESP identificaram papel inédito do cloreto na regulação da proteína DDX3X, fundamental para o funcionamento do cérebro; estudo é destaque de capa da revista Science Signaling

30 de março de 2026

Capa da revista Science Signaling destaca grânulos de estresse formados por DDX3X com mutação associada a doenças (imagem: reprodução)

 

Agência FAPESP – Estudo liderado por cientistas do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) ajuda a entender os mecanismos moleculares por trás da chamada síndrome DDX3X – condição genética rara caracterizada principalmente por deficiência intelectual, além de, em alguns casos, alterações na formação do cérebro. 

Apoiado pela FAPESP e publicado na revista Science Signaling como destaque de capa, o trabalho mostrou que o íon cloreto é capaz de interferir diretamente na atividade de uma enzima chamada DDX3X, essencial para o correto desenvolvimento neurológico. Como o gene dessa proteína está localizado no cromossomo X, essa alteração é mais frequente em mulheres e se manifesta ainda durante a gestação, no período de formação do sistema nervoso.

“Antes de pensar em tratamento, é essencial entender o que acontece no nível molecular desses transtornos. O trabalho ajuda a construir essa base científica fundamental”, disse a pesquisadora Juliana Oliveira, uma das autoras do trabalho, à Assessoria de Comunicação do CNPEM.

Até então conhecido principalmente por sua função no equilíbrio químico das células, o cloreto revelou um papel muito mais ativo. Os cientistas demonstraram que esse íon se liga diretamente à proteína DDX3X, interferindo em sua atividade enzimática e função celular. Na prática, essa interação reduz a capacidade da proteína de cumprir um papel essencial: separar fitas de RNA, como se fosse um zíper, etapa fundamental para que as informações genéticas sejam corretamente usadas pelas células.

“Identificamos um novo tipo de regulação molecular, conectando o equilíbrio de íons dentro da célula ao funcionamento de uma proteína-chave do cérebro”, resume Ivan Rosa e Silva, coautor do estudo. Além disso, a pesquisa mostrou que o cloreto também influencia a formação dos chamados “grânulos de estresse”, estruturas celulares que ajudam a proteger o material genético em situações adversas, processo especialmente importante durante o desenvolvimento do sistema nervoso.

Ao separar proteínas e RNAs como água e óleo, a célula forma estruturas celulares conhecidas como condensados – pequenas “gotículas” que organizam moléculas dentro da célula e controlam processos vitais. Os condensados biomoleculares têm sido apontados por cientistas como uma das descobertas mais transformadoras da biologia moderna. Em condições normais, essas estruturas são dinâmicas e funcionais, mas mutações na DDX3X alteram sua formação, tornando-as mais rígidas e disfuncionais, o que pode comprometer o funcionamento celular.

Tecnologia de ponta

Para chegar aos resultados, os cientistas usaram uma abordagem integrativa, combinando diferentes técnicas experimentais e computacionais avançadas, como ressonância magnética nuclear, microscopia de fluorescência, técnicas de luz síncrotron e experimentos em células vivas.

Parte dos experimentos foi realizada no Sirius, a fonte de luz síncrotron brasileira que possui um dos aceleradores de elétrons mais avançados do mundo. Isso permitiu analisar a estrutura da proteína em nível atômico por meio da cristalografia de raios X e investigar a dinâmica dos condensados ao longo do tempo por meio da técnica moderna de espectroscopia XPCS.

O trabalho dá continuidade a estudo anterior do grupo publicado em 2021, quando foi caracterizada uma mutação inédita identificada em uma paciente brasileira. Nesta nova etapa, os pesquisadores aprofundaram a análise ao investigar uma mutação mais severa, ampliando o entendimento dos mecanismos da doença.

Além de Rosa e Silva e de Oliveira, entre os autores do estudo estão os pesquisadores do CNPEM Ivan Paula Prado, Felipe Benevenutti e uma equipe multidisciplinar com mais de 20 cientistas brasileiros em áreas como biologia estrutural, bioquímica e neurociência.

O artigo DDX3X is a Cl-sensitive RNA helicase pode ser lido em: science.org/doi/10.1126/scisignal.adv4376.
 

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