As diretrizes internacionais recomendam sessões de caminhada realizadas até o surgimento da dor; quando tiveram liberdade para escolher o ritmo, os participantes reduziram levemente a intensidade e a velocidade média caiu para cerca de 2,6 km por hora (imagem: Tawatchai07/Freepik)

Saúde
Deixar paciente com doença arterial periférica escolher ritmo de exercício melhora adesão ao tratamento
24 de março de 2026

Pesquisa indica que permitir a autosseleção da velocidade de caminhada, mesmo que menor, não reduz os efeitos cardiovasculares benéficos na comparação com a terapia-padrão

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Pesquisa indica que permitir a autosseleção da velocidade de caminhada, mesmo que menor, não reduz os efeitos cardiovasculares benéficos na comparação com a terapia-padrão

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As diretrizes internacionais recomendam sessões de caminhada realizadas até o surgimento da dor; quando tiveram liberdade para escolher o ritmo, os participantes reduziram levemente a intensidade e a velocidade média caiu para cerca de 2,6 km por hora (imagem: Tawatchai07/Freepik)

 

Fernanda Bassette | Agência FAPESP – A doença arterial periférica (DAP) é um distúrbio vascular crônico marcado pelo estreitamento progressivo das artérias que irrigam os membros inferiores. Esse processo dificulta a circulação do sangue e aumenta o risco de eventos cardiovasculares, fazendo com que atividades cotidianas simples, como caminhar, passem a ser um desafio. O sintoma mais característico é a claudicação intermitente: dor, queimação ou câimbra nas pernas que surgem durante o esforço e melhoram com o repouso.

Embora menos conhecida do que a hipertensão ou o diabetes, a DAP é relativamente comum entre pessoas idosas. Estimativas internacionais apontam prevalência entre 3% e 5% da população e estudos regionais sugerem que até 10% dos adultos mais velhos no Brasil possam apresentar a doença. Os principais fatores de risco são os mesmos das doenças cardiovasculares: tabagismo, diabetes, hipertensão e colesterol elevado.

O tratamento clínico da DAP tem no exercício físico um de seus pilares. As diretrizes internacionais recomendam sessões de caminhada em intensidade moderada, realizadas até o surgimento da dor, com pausas para descanso. Essa estratégia já demonstrou benefícios importantes, como a redução aguda da pressão arterial após o exercício. Na prática, porém, o desconforto provocado pela dor se transforma em uma das principais barreiras à adesão aos programas de atividade física – por isso a busca por estratégias menos dolorosas e mais viáveis no dia a dia é tão importante.

“A lógica de pedir para o paciente caminhar até sentir dor funciona e tem resultados eficazes, e por isso é defendida. Mas isso sempre me incomodou”, diz o profissional de educação física Raphael Mendes Ritti, professor e pesquisador da Universidade Nove de Julho (Uninove). “A gente sabe que cerca de metade da população saudável não pratica atividade física regularmente. Aí você pega um paciente idoso, com dificuldade para caminhar, e diz que ele precisa fazer exercício sentindo dor. Isso é uma barreira enorme”, diz.

Foi a partir desse incômodo que Ritti e sua equipe decidiram realizar estudos para testar uma alternativa: o impacto da caminhada em intensidade autosselecionada. Nesse modelo, em vez de seguir a regra de caminhar até sentir dor, o próprio paciente escolhe o ritmo, a intensidade, a duração das séries e os momentos de pausa. A pergunta central era simples: será que uma abordagem mais flexível manteria os benefícios cardiovasculares do exercício?

Para responder a isso, os pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação da Uninove selecionaram 20 pacientes com DAP e os acompanharam durante sessões de caminhada em esteira, monitoradas com uso de frequencímetro e aferição da pressão arterial. A investigação, apoiada pela FAPESP, seguiu três frentes principais: a primeira foi entender como o paciente organiza a própria sessão quando tem autonomia, que intensidade escolhe, como distribui o esforço e quanto tempo consegue caminhar sem parar. A segunda avaliou o impacto cardiovascular dessas escolhas, medindo o nível de estresse fisiológico imposto ao coração e aos vasos. A terceira analisou a experiência subjetiva do exercício, investigando percepção de esforço, dor e prazer. Os resultados foram publicados no Journal of Cardiopulmonary Rehabilitation and Prevention.

Na prescrição da caminhada tradicional – guiada pelas diretrizes internacionais –, a intensidade do percurso foi ajustada pelos pesquisadores para provocar dor moderada nos participantes. Para esses pacientes, isso correspondeu, em média, a uma velocidade de 3,4 km por hora na esteira. “Pode parecer muito lento, mas é suficiente para provocar dor em quem tem doença arterial periférica. Para uma pessoa sem a doença, esse ritmo é praticamente um passeio”, explica Ritti.

Quando tiveram liberdade para escolher o ritmo da caminhada, os participantes reduziram levemente a intensidade e a velocidade média caiu para cerca de 2,6 km por hora. Do ponto de vista fisiológico, isso se traduziu em uma carga cardiovascular um pouco menor: enquanto a sessão guiada pela diretriz levou os pacientes a aproximadamente 77% da frequência cardíaca máxima, na sessão autosselecionada esse valor ficou em torno de 66%.

A surpresa dos pesquisadores veio ao analisar o conjunto dos dados. “Quando a intensidade da caminhada foi imposta, isso realmente gerou um estresse fisiológico maior, mas a diferença em comparação com a intensidade autosselecionada foi muito menor do que a gente imaginava”, afirma o profissional de educação física Max Duarte de Oliveira, um dos autores do estudo. Isso significa que caminhar no próprio ritmo, sem esperar sentir dor, reduziu o desconforto e promoveu respostas cardiovasculares importantes, incluindo a redução da pressão arterial após o exercício.

Mais tempo

Outro achado importante foi a forma como os pacientes organizaram o exercício. Na sessão com prescrição tradicional, seguindo as diretrizes, a caminhada foi fragmentada em blocos de três a cinco minutos, intercalados por pausas quando a dor surgia. Já na sessão com intensidade definida pelos pacientes, os participantes conseguiram caminhar por períodos mais longos e contínuos, chegando a uma média de 13 minutos sem interrupção.

“Eles preferiram fazer menos séries, por mais tempo, mesmo em um ritmo mais lento, do que repetir o ciclo de caminhar, parar por causa da dor e recomeçar”, explica Oliveira. Apesar dessas diferenças, a distância total percorrida ao final das sessões foi semelhante: cerca de 1.700 metros na caminhada guiada pela diretriz e 1.500 metros na caminhada autosselecionada.

A experiência subjetiva do exercício também foi diferente dependendo da intensidade escolhida. Os pesquisadores avaliaram a chamada resposta afetiva, que é uma medida psicofisiológica que indica prazer ou desprazer relatado pelo próprio paciente durante a atividade. Os resultados apontam que os pacientes relataram sensações mais positivas quando caminhavam no ritmo que escolheram em comparação com a caminhada imposta, que foi associada a níveis mais baixos de prazer.

“Existe uma evidência muito sólida de que exercícios associados a experiências negativas têm baixa chance de continuidade. Não adianta o exercício ser eficaz do ponto de vista fisiológico se o paciente não consegue sustentá-lo no dia a dia”, diz o professor Ritti.

De acordo com os autores, os resultados desses estudos levantam uma discussão em torno do tratamento convencional da DAP. “Os nossos dados sugerem que permitir ao paciente escolher o próprio ritmo do exercício reduz a dor, melhora a experiência e não altera os benefícios agudos”, afirma Ritti. O próximo passo é avaliar se essa estratégia funciona no longo prazo. “A hipótese é que, ao permitir que o exercício seja menos doloroso e mais prazeroso, a intensidade autosselecionada pode transformar a caminhada de uma obrigação difícil em um hábito possível, podendo ampliar o impacto do exercício sobre a saúde cardiovascular desses pacientes”, conclui Ritti.

O artigo Comparison of cardiovascular and perceptual responses during guideline-recommended and self-selected intensity exercises in patients with peripheral artery disease – a randomized crossover study pode ser lido em: journals.lww.com/jcrjournal/abstract/2025/11000/comparison_of_cardiovascular_and_perceptual.5.aspx.
 

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