Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima: duas cidades com estratégias distintas no enfrentamento da COVID-19 | AGÊNCIA FAPESP

Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima: duas cidades com estratégias distintas no enfrentamento da COVID-19 Pesquisadores da USP encerram a primeira parte da coleta de material em Mâncio Lima, no oeste do Acre, e retornam a São Paulo para dar início à análise do material coletado

Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima: duas cidades com estratégias distintas no enfrentamento da COVID-19

23 de outubro de 2020

Agência FAPESP –  Marcelo Urbano Ferreira e Marly Augusto Cardoso, pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), respectivamente, concluem a primeira parte da pesquisa que rastreia a disseminação do SARS-CoV-2 na região do Vale do Juruá, no Acre. Eles ainda retornarão à região para realização de um inquérito sorológico com 2 mil habitantes de Mâncio Lima. No quinto episódio da série Diário de Campo – Vale do Juruá, os pesquisadores retornam a São Paulo para dar início à análise do material coletado.

Episódio 5: O retorno 

Tarauacá, Gregório, Envira, Purus e Iaco: cada rio tem sua história, seus seringais

* Depoimento de Marcelo Urbano Ferreira à Agência FAPESP

12 de agosto, quarta-feira

Despedida do Vale do Alto Juruá. Amanhã cedinho partimos para o Vale do Rio Acre, de volta ao Seringal Nova Empresa – hoje Rio Branco, capital do Estado. Lá, encontraremos Mônica da Silva Nunes, minha ex-aluna de doutorado (bolsista da FAPESP) que há vários anos é professora da UFAC. Jantaremos juntos. Nosso voo de volta a São Paulo sai no começo da tarde de sexta-feira, dia 14.

Agora, é preparar as malas e pacotes para o retorno a São Paulo. Não é muita coisa, felizmente; sempre temos mais bagagem na viagem de ida do que na volta. Roupa mesmo é pouca.

Se a internet não falhar, conseguirei trabalhar um pouco nas tarefas acumuladas nos últimos dias. Há de tudo um pouco: projetos para avaliar, conversas com alunos em trabalho remoto, leituras de artigos, alguns documentos para preparar. Amanhã estaremos o dia todo na estrada, nossa velha BR-364, sem acesso à internet.

13 de agosto, quinta-feira

Saída de Mâncio Lima às 6h30. Café da manhã em Cruzeiro do Sul, na cafeteria da Renata. O melhor café da cidade. Ela integra a equipe multiprofissional de apoiadores do projeto MINA junto ao Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) do município. Os pais dela são mineiros e moram atualmente em Cruzeiro do Sul. Depois de fazer muitos pães de queijo, pães e bolos caseiros por encomendas, Renata abriu essa cafeteria há dois anos. Resistiu à pandemia graças ao apoio dos amigos e clientes fiéis.

A notícia do dia foi a cassação, pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Acre, do mandato do prefeito de Cruzeiro do Sul, Ilderlei Cordeiro, e de seu vice-prefeito. Se o combate à COVID-19 já enfrentava enormes dificuldades antes disso, podemos imaginar como será depois dessa reviravolta.

Viagem longa, mas tranquila, chegada a Rio Branco pouco antes das 17h, com uma breve parada em Feijó. Cruzamos vários rios importantes: o Tarauacá (no município de mesmo nome), o Gregório, o Envira (em Feijó), o Purus, o Iaco (em Sena Madureira). Cada rio tem suas histórias, seus seringais. O Purus só conheço bem no Amazonas, no ponto em que ele se une ao rio Acre, a muitos quilômetros daqui. Andei por várias comunidades ribeirinhas na região. Os demais rios só mesmo de vista.

A estrada exige cuidado. Apesar da manutenção em curso, há ainda muitos buracos e algumas crateras no caminho. Vários trechos com erosão da estrada, especialmente aqueles próximos a cursos d' água aterrados durante a construção. Parte da estrada simplesmente desaparece e a pista se estreita. Destaca-se também o grande número de caminhões transportando toras de madeira pela estrada, algo incomum há alguns anos. O desmatamento avança velozmente pela região. Tentamos registrar em vídeo alguns exemplos.

Entramos em Rio Branco pela Via Verde, passando pela Usina Cultural João Donato (pouca gente sabe, mas ele é acreano) e pelo campus principal da UFAC, junto ao Parque Tucumã. Ainda a tempo de tomar um tacacá da Dora, na praça da prefeitura, no centro da cidade – como o chá britânico, toma-se o tacacá às 5h da tarde. Daí para o hotel.

Jantar com Mônica da Silva Nunes, médica patologista nascida em Araçatuba, interior de S ão Paulo. Uma paulista de interesses muito amplos e variados, que veio em 2004 fazer seu trabalho de campo em Acrelândia, a 120 km de Rio Branco, na fronteira com Rondônia. Mônica é professora da UFAC há 12 anos, onde vem formando gerações de médicos interessados em doenças tropicais.

O local onde jantamos – Point do Pato – traz lembranças desse primeiro contato com o Acre. Assim que chegamos a Rio Branco, para preparar as atividades em Acrelândia, Mônica e eu ficamos hospedados por quase duas semanas na casa de Pascoal Torres Muniz, hoje aposentado como professor da UFAC, que eu havia coorientado no doutorado. Pascoal é um baiano sábio. Foi para São Paulo em meados da década de 1990 fazer seu doutorado no Departamento de Nutrição da USP, onde conheceu Marly. Ela conta um pouco dessa história no Jornal da USP. Acreano adotivo, ele teve um papel fundamental na consolidação da pesquisa na UFAC, onde chegou ao posto de vice-reitor.

A casa do Pascoal, onde nos hospedamos naquela época, fica na mesma praça do restaurante. É muito conhecido pelo pato no tucupi, o melhor da cidade, e outros pratos clássicos amazônicos. Vir aqui nos faz relembrar o Pascoal, que hoje mora em Fortaleza.

Amanhã a aventura será despachar nossa bagagem – e amostras! Os planos são simples: uma caminhada no Parque Tucumã, junto ao campus da UFAC, um bom banho no hotel e ida ao aeroporto por volta das 12h, para despachar as malas e o material colhido no campo. Chegada a São Paulo à noite. Só quando as retirarmos na esteira em São Paulo poderemos considerar a missão cumprida!

Para assistir aos episódios anteriores da série Diário de Campo – Vale do Juruá acesse: episódio 1 “A partida”, 2 “A coleta”, 3 “O atendimento”, 4 “Malária”.
 

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