A doença é uma inflamação crônica causada pelo acúmulo de bactérias abaixo da gengiva, afetando os tecidos de suporte dos dentes (foto: Shutterstock)

Saúde
Combinação de ômega-3 e ácido acetilsalicílico tem eficácia semelhante à de antibióticos contra periodontite grave

Estudo apoiado pela FAPESP acompanhou 109 pacientes por um ano. Os resultados oferecem uma alternativa viável para reduzir o uso de antimicrobianos e frear a resistência bacteriana

03 de setembro de 2026
Saúde
Combinação de ômega-3 e ácido acetilsalicílico tem eficácia semelhante à de antibióticos contra periodontite grave

Estudo apoiado pela FAPESP acompanhou 109 pacientes por um ano. Os resultados oferecem uma alternativa viável para reduzir o uso de antimicrobianos e frear a resistência bacteriana

03 de setembro de 2026

A doença é uma inflamação crônica causada pelo acúmulo de bactérias abaixo da gengiva, afetando os tecidos de suporte dos dentes (foto: Shutterstock)

 

Fernanda Bassette | Agência FAPESP – A combinação de ômega-3 e ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose apresentou resultados semelhantes aos do uso de antibióticos no tratamento da periodontite grave, segundo estudo publicado em maio no Journal of Periodontology. Os resultados sugerem uma alternativa terapêutica promissora para parte dos pacientes e ganham relevância em um contexto global de preocupação crescente com a resistência bacteriana aos antimicrobianos.

A pesquisa, apoiada pela FAPESP (projetos 20/05874-2 e 20/05875-9), acompanhou durante um ano 109 pacientes com periodontite em estágio avançado. A doença é uma inflamação crônica causada pelo acúmulo de bactérias abaixo da gengiva, que afeta os tecidos de suporte dos dentes. Quando não controlada, pode causar mobilidade, perda óssea e até a queda dos dentes.

“Os pacientes com doença grave apresentam bolsas muito profundas, que funcionam como reservatórios para bactérias associadas à doença. É um quadro bastante desafiador de tratar”, afirma a cirurgiã-dentista Nídia Cristina Castro dos Santos, professora e pesquisadora do Einstein Hospital Israelita e primeira autora do estudo. Também assinam o artigo cientistas da Universidade Guarulhos (UNG), da Universidade de Taubaté (Unitau), da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP-USP) e da Universidade Harvard (Estados Unidos).

Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em quatro grupos. Todos passaram pela instrumentação subgengival (procedimento popularmente chamado de raspagem, considerado o tratamento padrão da periodontite), mas receberam terapias complementares diferentes.

O grupo-controle utilizou placebo tanto para os antibióticos quanto para a combinação de ômega-3 e AAS (medicamento também conhecido como aspirina), com cápsulas idênticas às dos tratamentos ativos. Um segundo grupo recebeu a combinação dos antibióticos metronidazol e amoxicilina, considerada a terapia com melhores evidências científicas para casos graves da doença, administrada três vezes ao dia, durante 14 dias. O terceiro grupo tomou 3 gramas por dia de ômega-3, além de uma dose diária de AAS por seis meses. Já o quarto grupo recebeu a combinação das duas estratégias simultâneas: os antibióticos por duas semanas e o protocolo com ômega-3 e AAS por seis meses. Os participantes foram reavaliados após três meses, seis meses e um ano.

Ao final do acompanhamento, cerca de 58% dos pacientes tratados com antibióticos atingiram a meta clínica estabelecida pelos pesquisadores, definida pela presença de no máximo quatro bolsas periodontais profundas remanescentes. Entre aqueles que receberam ômega-3 e AAS, o percentual foi praticamente o mesmo: 57,7%. Já no grupo que recebeu apenas a raspagem e placebo, o índice ficou em 23,1%. A associação das duas estratégias – antibióticos e suplementação – não trouxe benefícios adicionais.

“O uso de antibióticos não é considerado o padrão-ouro do tratamento. Embora a associação entre metronidazol e amoxicilina apresente bons resultados nos casos mais severos, seu uso deve ser avaliado caso a caso por causa dos riscos relacionados à resistência bacteriana e aos possíveis efeitos adversos”, diz Castro.

Os resultados reforçam uma linha de investigação que vem sendo pesquisada há algum tempo. Em estudo anterior, também apoiado pela FAPESP e publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores observaram em ratos com doença periodontal que a suplementação com ômega-3, especialmente quando associada ao exercício físico, reduziu a inflamação e a perda óssea provocadas pela infecção. Embora realizado em modelo animal, o trabalho já indicava o potencial do nutriente nos processos inflamatórios relacionados à saúde bucal (leia mais em: agencia.fapesp.br/55792).

De acordo com Castro, diferentemente dos anti-inflamatórios tradicionais, que atuam bloqueando determinadas vias inflamatórias, o ômega-3 participa da produção de moléculas envolvidas na resolução natural da inflamação e no reparo dos tecidos. Já o AAS em baixa dose foi utilizado porque potencializa a formação desses mediadores. A hipótese dos pesquisadores era que essa estratégia ajudaria o organismo a controlar melhor o processo inflamatório crônico característico da periodontite.

“Nós imaginávamos que a combinação de antibióticos e ômega-3 teria o melhor desempenho no controle da periodontite desses pacientes. Também acreditávamos que o resultado do grupo que usou o ômega-3 com o AAS ficaria um pouco abaixo do grupo dos antibióticos. O resultado foi surpreendente porque as duas terapias tiveram um desempenho muito parecido, abrindo um novo caminho para o tratamento desses pacientes”, diz Castro.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a manutenção dos benefícios observados. Mesmo seis meses após o fim da suplementação, os pacientes continuavam apresentando resultados semelhantes aos registrados ao término do tratamento. Segundo Castro, isso sugere que a modulação da resposta inflamatória pode produzir efeitos duradouros, embora os mecanismos envolvidos ainda estejam sendo investigados.

Para a cirurgiã-dentista Magda Feres, autora principal do estudo, professora titular da Escola de Medicina Dentária de Harvard e do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UNG, os resultados indicam que a modulação da resposta inflamatória pode representar uma alternativa viável para pacientes selecionados. “A combinação de ômega-3 e aspirina em baixa dose alcançou benefícios clínicos comparáveis aos do protocolo com metronidazol e amoxicilina, o que abre uma alternativa real para quem não pode usar antibióticos, especialmente pacientes com alergia ou intolerância a esses medicamentos”, afirma.

Segundo Feres, os resultados ganham importância diante da crescente preocupação com a resistência aos antibióticos, considerada uma das principais ameaças à saúde pública mundial. “Mostrar que é possível tratar a periodontite grave modulando a resposta do próprio organismo é uma informação nova e relevante, que contribui para preservar os antibióticos para quando forem realmente indispensáveis”, diz.

As autoras ressaltam, porém, que os resultados não significam uma mudança imediata na prática clínica. O estudo foi realizado com pacientes sem doenças sistêmicas importantes e ainda serão necessários novos trabalhos para confirmar os achados em diferentes populações e identificar quais grupos realmente podem se beneficiar de cada abordagem.

Parte dessa resposta, conta Feres, pode vir das análises microbiológicas atualmente em andamento, que investigam como as terapias influenciam a composição das bactérias presentes nas bolsas periodontais. Dados preliminares já sugerem uma redução de espécies associadas à doença e um aumento de microrganismos relacionados à saúde gengival. “É um avanço importante, mas não um ponto final. A mensagem, portanto, é de otimismo cauteloso: temos uma alternativa promissora e cientificamente plausível ao antibiótico em casos selecionados. A substituição de rotina virá com mais evidências”, conclui.

O artigo Immunomodulators, associated or not with systemic antibiotics, to treat periodontitis: A 1-year multicenter, placebo-controlled, double-blind, randomized clinical trial pode ser lido em: aap.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jper.70081.
 

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