Autores também destacam a necessidade de projetar cenários socioecológicos futuros, para garantir a eficácia a longo prazo da restauração (foto: Pedro Brancalion/Lastrop-USP)
Estudo publicado no Journal of Applied Ecology busca preencher lacuna na área ao ensinar como aplicar o conhecimento científico, tradicional e prático no momento da tomada de decisão
Estudo publicado no Journal of Applied Ecology busca preencher lacuna na área ao ensinar como aplicar o conhecimento científico, tradicional e prático no momento da tomada de decisão
Autores também destacam a necessidade de projetar cenários socioecológicos futuros, para garantir a eficácia a longo prazo da restauração (foto: Pedro Brancalion/Lastrop-USP)
Tatiana Maria | Agência FAPESP * – Pesquisa publicada ontem (01/09) no Journal of Applied Ecology busca sanar uma lacuna na literatura científica ao desenvolver diretrizes para uma efetiva restauração ecológica baseada em evidências. O trabalho, que conta com o apoio da FAPESP por meio do núcleo BIOTA Síntese, sistematiza de maneira direta e aplicável dez passos fundamentais para o uso de evidências na restauração de ecossistemas. Desenvolvido por cientistas e profissionais de Brasil, México, China, Etiópia, Gana, Espanha e Inglaterra, o guia pode ser aplicado nos mais diversos ecossistemas do mundo, de modo adaptado a cada contexto.
“Estudos anteriores já apontavam que era benéfico usar evidências para melhorar os resultados da restauração, mas, para quem buscava aplicar essas evidências, ainda faltava um guia prático de como fazer e quais cuidados tomar”, explica Rafael Chaves, autor brasileiro do estudo, vice-diretor do BIOTA Síntese e especialista do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA).
Segundo os autores, o primeiro passo no uso de evidências em projetos de restauração ecológica deve ser relacionado ao knowledge brokering, ou seja, garantir que haja um sistema para articular os conhecimentos. O estudo propõe, em seguida, que o interessado identifique os objetivos e desafios prioritários da restauração e pesquise as mais variadas evidências, examinando sua robustez, vieses e aplicabilidade. “Embora muito conhecimento já tenha sido produzido, o restaurador precisa ter segurança do que é útil no caso dele”, diz Chaves.
O estudo também pontua a relevância de se contemplar diversas cosmovisões e sistemas de saberes. “É importante reconhecer e integrar diferentes tipos de conhecimento, como o científico, o prático, o indígena e o das comunidades locais”, explica o pesquisador.
Nesse sentido, os autores destacam a necessidade de considerar o contexto das políticas públicas de cada local – articulando a interface entre ciência, política e prática – e também projetar cenários socioecológicos futuros, para garantir a eficácia a longo prazo da restauração em um mundo em transformação. Nessa complexa operacionalização, discutir escolhas e compensações na hora das tomadas de decisão – o chamado trade-off – é essencial.
Como última diretriz, a pesquisa destaca o papel estratégico da coprodução de conhecimentos aplicáveis por meio de instituições e pessoas que promovam a articulação das práticas e evidências, favorecendo seu uso nos mais diversos contextos. Segundo Chaves, esse procedimento visa preencher as lacunas de conhecimento identificadas durante a aplicação das dez regras para o uso de evidências na restauração.
Transdisciplinaridade
O grupo de autores de quatro continentes integra especialistas de diferentes campos que pesquisam e atuam na área da restauração de ecossistemas por meio de órgãos governamentais, ONGs, empresas privadas e instituições de pesquisa.
Por meio da transdisciplinaridade, os autores constatam a necessidade de projetos de restauração de ecossistemas considerarem pesquisa e prática e integrarem, além do manejo, também dinâmicas socioecológicas locais.
“O estudo foi desenvolvido mesclando uma revisão bibliográfica consistente com a experiência prática dos autores na aplicação de evidências em iniciativas de restauração em diferentes ecossistemas, combinando assim embasamento acadêmico e experiência aplicada”, conclui Chaves.
O artigo Ten rules for using evidence to guide ecosystem restoration pode ser lido em: besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2664.70520.
* Tatiana Maria é bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao Projeto BIOTA Síntese.
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