Alencar: "A biodiversidade é a base dos serviços ecossistêmicos, que mantém as nossas vidas funcionando" (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Conferências FAPESP 2025
Cientistas defendem maior inserção da biodiversidade na agenda da COP-30
04 de abril de 2025

Tema foi debatido durante o primeiro evento da série Conferências FAPESP 2025, que teve como convidada a diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Ane Alencar

Conferências FAPESP 2025
Cientistas defendem maior inserção da biodiversidade na agenda da COP-30

Tema foi debatido durante o primeiro evento da série Conferências FAPESP 2025, que teve como convidada a diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Ane Alencar

04 de abril de 2025

Alencar: "A biodiversidade é a base dos serviços ecossistêmicos, que mantém as nossas vidas funcionando" (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

 

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Ao mesmo tempo que é fortemente impactada pelas alterações no clima, a biodiversidade também é importante para combater o problema. Enquanto eventos climáticos extremos têm causado o deslocamento e a redução de espécies, são os chamados serviços ecossistêmicos e as soluções baseadas na natureza – ambos dependentes de uma biodiversidade saudável – que podem garantir as transformações propostas nas agendas de adaptação e mitigação da crise climática.

“A biodiversidade é a base dos serviços ecossistêmicos, que mantém as nossas vidas funcionando. Regula água, clima, solo, polinização e segurança alimentar. Portanto, a biodiversidade se conecta na agenda de mitigação e adaptação climática e também na de justiça climática [relacionada com o fato de os impactos das mudanças no clima atingirem diferentes grupos sociais de maneiras e intensidades distintas]”, disse Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

A pesquisadora falou sobre a necessidade de maior integração da biodiversidade na agenda climática durante a conferência “Contribuições para a COP-30: A Biodiversidade na Agenda Climática”, que inaugurou em 28 de março a série Conferências FAPESP 2025.

“Os ecossistemas têm papel fundamental na absorção e remoção do CO2 [dióxido de carbono] da atmosfera. Evitar o desmatamento, portanto, reduz as emissões de gases de efeito estufa. E restaurar os ecossistemas resulta na redução de carbono da atmosfera – um efeito importante de mitigação das mudanças climáticas”, completou.

Já no que diz respeito à agenda de adaptação, Alencar pontuou que soluções como a restauração de encostas, por exemplo, protegem contra desastres, garantindo água de qualidade e alimentos que tenham condições de serem produzidos com um mínimo de herbicidas – o que traz efeito positivo na saúde humana.

Debate com a comunidade científica

O evento também reuniu especialistas e integrantes dos comitês científicos de alguns programas temáticos da Fundação – entre eles o Programa FAPESP para o Atlântico Sul e Antártica (PROASA), Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA) e a Iniciativa Amazônia+10 – para discutir e pensar estratégias da comunidade científica para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-30), que será realizada em novembro, em Belém (PA).

Simone Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Universidade Estadual de Campinas (Nepam-Unicamp) e membro da coordenação do BIOTA, ressaltou que a palavra biodiversidade é mencionada apenas três vezes na carta enviada à comunidade internacional pelo presidente da COP-30, o embaixador André Corrêa do Lago.

O documento de 11 páginas, publicado em 10 de março, traz a visão da Presidência brasileira sobre o processo da COP-30 e faz um chamado a todos os países para executarem um trabalho conjunto contra as mudanças climáticas.

“Acontece que o clima não existe sem biodiversidade. É a biodiversidade que produz o clima e o clima é estruturador da biodiversidade. Portanto, não é possível desconectar uma coisa da outra”, disse Vieira.

De acordo com Carlos Joly, professor emérito da Unicamp, o princípio “da responsabilidade comum e diferenciada” sobre as mudanças climáticas, base das negociações realizadas no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, é motivo de disputa entre os representantes de países desenvolvidos e em desenvolvimento no fórum.

O conceito, estabelecido na Rio-92, cobra maior participação (em financiamentos) dos países desenvolvidos, que historicamente geraram a maior parte do CO2 presente na atmosfera. No entanto, não existe esse mesmo conceito na área de biodiversidade.

Segundo Joly, há pelo menos 20 anos se discute integrar clima e biodiversidade no debate, uma vez que se sabe que as duas agendas precisam estar casadas. “O Brasil não é o único país com essa visão apartada. Há outros que também têm emperrado a possibilidade de realização de COPs conjuntas ou de criação de grupos de trabalho em conjunto entre representantes das diferentes convenções”, afirmou.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) – órgãos científicos que produzem relatórios sobre a situação do clima e da biodiversidade, respectivamente, para embasar a tomada de decisão política – organizaram um workshop conjunto e produziram relatórios evidenciando como as duas agendas são imbricadas.

“No entanto, o relatório precisava ser acatado nas plenárias pelos países e o Brasil se opôs à aprovação do documento, porque juntava os dois temas. O Brasil autorizou o take note, ou seja, reconheceu que o documento existe, mas o encaminhou para a prateleira”, relatou.

Alencar alertou que um dos reflexos de apartar clima e biodiversidade nas discussões ambientais está na não inclusão dos incêndios florestais entre os compromissos previstos para o Brasil assumir na COP-30.

“Incêndios florestais não são contabilizados no inventário de emissão de gases de efeito estufa. Eles são tidos mundialmente como uma questão natural. Só que incêndios florestais em florestas tropicais não são naturais. É claro que eles podem ser exacerbados por um fenômeno climático, como foi em 2024. Mas essa é uma agenda que a gente precisa levar para a COP-30, pois há um aumento dos incêndios na Amazônia e 65% das emissões por fogo são tardias. E depois que ele passa, as árvores morrem”, afirmou a pesquisadora.

A COP-30 também será destaque em outras cinco Conferências FAPESP já programadas para este ano, que serão ministradas por David Obura (IPBES), em 25 de abril; Ima Vieira (Museu Paraense Emilio Goeldi), de Belém, em 29 de abril; Thelma Krug (IPCC), em 30 de maio; Denise Duarte (Universidade de São Paulo – USP), em 27 de junho; e Helena Nader (Academia Brasileira de Ciências – ABC), em 29 de agosto.

O evento do dia 28 de março pode ser assistido na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=rcn9iQTnccE.
 

  Republicar
 

Republicar

A Agência FAPESP licencia notícias via Creative Commons (CC-BY-NC-ND) para que possam ser republicadas gratuitamente e de forma simples por outros veículos digitais ou impressos. A Agência FAPESP deve ser creditada como a fonte do conteúdo que está sendo republicado e o nome do repórter (quando houver) deve ser atribuído. O uso do botão HMTL abaixo permite o atendimento a essas normas, detalhadas na Política de Republicação Digital FAPESP.