Além de reduzir emissões, é preciso se adaptar a um planeta entre 3 e 5 graus mais quente, diz cientista | AGÊNCIA FAPESP

Além de reduzir emissões, é preciso se adaptar a um planeta entre 3 e 5 graus mais quente, diz cientista Tema foi destaque no último dia da Escola FAPESP 60 anos. Conferência foi proferida por Guy Brasseur, diretor do Instituto Max Planck de Meteorologia e vencedor do Nobel da Paz em 2007 (foto: André Julião/Agência FAPESP)

Além de reduzir emissões, é preciso se adaptar a um planeta entre 3 e 5 graus mais quente, diz cientista

12 de agosto de 2022

André Julião, de Itatiba | Agência FAPESP – O aumento de 2 graus Celsius (oC) na temperatura média do planeta, previsto para o fim do século, não tem sido levado a sério por grande parte dos governos e empresas no mundo.

Somados os compromissos dos países que se dispuseram a reduzir emissões de dióxido de carbono (CO2) – e supondo que sejam cumpridos –, o mais provável é que continuemos a aquecer. Por isso, ainda que a mitigação deva ser uma prioridade, é preciso estar preparado para se adaptar a um aquecimento de 3 oC a 5 oC até 2100, afirma o climatologista Guy Brasseur, diretor do Instituto Max Planck de Meteorologia, em Hamburgo, na Alemanha.

Brasseur, que já integrava o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) quando o grupo dividiu o Nobel da Paz com Al Gore, em 2007, foi o conferencista do último dia da Escola FAPESP 60 anos: Ciências Exatas, Naturais e da Vida. O evento ocorreu entre 07 e 10 de agosto, na cidade de Itatiba (SP).

“O futuro da temperatura média do planeta depende muito das emissões que vamos produzir nas próximas décadas. Não sabemos quanto o mundo vai emitir. Vemos alguns países emitindo muito mais do que no passado, mas também outros que estão limitando suas emissões. Se queremos manter o aquecimento abaixo de 2 oC até o fim do século, temos de diminuir as emissões muito abruptamente até 2040 ou 2050”, disse Brasseur à Agência FAPESP, logo após a conferência que encerrou o evento.

Essa incerteza, segundo o pesquisador, é o que deve fazer com que grande parte do esforço científico hoje seja voltado a encontrar formas de se adaptar a um aumento da temperatura média global acima de 2 oC.

“Quando perguntamos aos países o que eles farão para limitar o aquecimento, eles mandam alguma mensagem sobre as medidas que serão tomadas. O atual entendimento é que, com tudo que está programado para acontecer, o aquecimento ainda aumentaria em 3 oC ou 3,5 oC”, afirmou.

As estimativas para 2050 dão uma noção do impacto. A população mundial vai chegar a 9 bilhões de pessoas, o que acarretará uma produção anual de 6 milhões de toneladas de gases do efeito estufa, além de 60 milhões de toneladas de gases poluentes nos centros urbanos.

Para pensar nas ameaças à saúde, nem sequer é preciso analisar previsões para o futuro. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que hoje, anualmente, 8 milhões de pessoas morram prematuramente em consequência da poluição do ar.

A redução de emissões de dióxido de carbono, como a que é necessária para não aquecermos ainda mais, exige uma profunda transformação da sociedade. A mudança precisa ocorrer desde setores mais óbvios, como o de produção de energia, até outros mais insuspeitos.

“O setor de computação é responsável atualmente por 10% das emissões”, contou Brasseur durante a conferência.

A grande transformação

O conjunto de medidas propostas para reduzir as emissões envolve desde a descarbonização da economia até a redução da desigualdade. “Não é algo simples de se fazer. Requer basicamente uma mudança profunda em nossa sociedade”, disse.

Uma medida em curso em alguns países são os centros de serviço climático. Um deles, fundado na Alemanha em 2009 por Brasseur, desenvolve protótipos de produtos e serviços para dar apoio a tomadores de decisão na política, empresas e administração pública para adaptação às mudanças climáticas.

“Sabemos que governos e empresas têm seu próprio tempo e definições do que é urgente. Por isso, a ideia dos centros de serviços climáticos é criar um diálogo entre comunidade, tomadores de decisão e empresas para tornar todos mais conscientes do problema e conseguir mais progresso. Se pudermos convencer as cem maiores empresas do mundo a mudar a forma como fazem negócios e elas efetivamente fizerem isso, todas as outras vão segui-las. A grande dificuldade ainda é comunicar isso e ter certeza de que todo cidadão no planeta saiba e esteja pronto para cooperar”, encerrou.

A Escola FAPESP 60 anos: Ciências Exatas, Naturais e da Vida teve o objetivo de oferecer a bolsistas de pós-doutorado de todo o país a oportunidade de interagir com lideranças científicas do Brasil e do exterior em várias áreas do conhecimento, bem como de conhecer suas trajetórias acadêmicas, suas linhas de pesquisa e os desafios que enfrentam.

Outros palestrantes do evento foram Ana Domingos, professora da Universidade de Oxford (Reino Unido), Barry O’Keefe, do National Cancer Institute (Estados Unidos), José Nelson Onuchic, da Rice University (Estados Unidos), Osvaldo Novais de Oliveira Jr., da Universidade de São Paulo (USP), e Virgilio A. F. Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Mais informações em: https://60anos.fapesp.br/escola-exatas.
 

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