Doutora em geografia pela USP, Flavia Grimm acompanhou de perto a organização e a transferência do Arquivo Milton Santos para o IEB-USP (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Entrevista com Flavia Grimm
A curadoria de um dos maiores acervos intelectuais do país
08 de maio de 2026

Ex-aluna e colaboradora, a geógrafa fala de seu trabalho com os 60 mil documentos e explica como a organização peculiar feita pelo autor reflete sua visão crítica sobre a geografia e a sociedade

Entrevista com Flavia Grimm
A curadoria de um dos maiores acervos intelectuais do país

Ex-aluna e colaboradora, a geógrafa fala de seu trabalho com os 60 mil documentos e explica como a organização peculiar feita pelo autor reflete sua visão crítica sobre a geografia e a sociedade

08 de maio de 2026

Doutora em geografia pela USP, Flavia Grimm acompanhou de perto a organização e a transferência do Arquivo Milton Santos para o IEB-USP (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

 

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Doutora em geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora junto ao Arquivo Milton Santos no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), Flavia Grimm acompanhou de perto a organização e a transferência de um dos mais extensos acervos documentais da intelectualidade brasileira. Com cerca de 60 mil documentos – entre manuscritos, preparações de aulas, palestras e conferências, relatórios de pesquisa, fichas de leitura e correspondência –, o conjunto permite reconstituir, em detalhe, o processo de elaboração de um pensamento que se construiu em diálogo permanente com a realidade. Nesta entrevista, Grimm comenta a singularidade desse arquivo de trabalho, as principais linhas da obra de Milton Santos e a atualidade de suas ideias.

Agência FAPESP – Como foi a experiência de organizar o Acervo Milton Santos no IEB?
Flavia Grimm – Trabalhei muitos anos com esse material, ainda na casa do próprio Milton Santos, entre 2005 e 2012, aproximadamente. Eu havia sido orientanda dele no mestrado e depois fiz minha tese de doutorado, apoiada pela FAPESP, sobre a trajetória epistemológica do pensamento dele. Nesse período, eu manuseava o arquivo sem alterar a organização original. Ele tinha uma forma muito peculiar de organizar: por grandes temas, como ‘Bahia’, ‘Urbanização no Terceiro Mundo’, ‘Globalização’; ou por conceitos, como ‘Espaço’, ‘Tempo’, ‘Técnica’ etc. Meu trabalho foi alimentar um banco de dados criado pelo arquiteto Manoel Lemes Neto, professor titular e pesquisador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Ao longo de mais de seis anos, fui indexando esse material e atribuindo palavras-chave, o que foi possível também porque eu conhecia o pensamento dele. Em 2010, o IEB trouxe a biblioteca dele para o campus da USP e eu acompanhei esse processo. Em 2012, foi a vez do arquivo. E, já como pós-doutoranda no IEB, entre 2013 e 2016, fui buscar, com a família, uma segunda parte do acervo que estava na Bahia, na casa dos pais dele. Um ponto fundamental a ressaltar é que o acervo foi integralmente doado pela família, o que é algo raro. Muitas famílias vendem seus arquivos. Nesse caso, houve uma decisão clara de tornar esse patrimônio público.

Agência FAPESP – Esse material da Bahia era muito diferente do restante do acervo?
Grimm – Quantitativamente, era bem menor – algo como 30 e poucas caixas, num total de aproximadamente 290 do acervo inteiro. Mas, qualitativamente, era tão importante quanto. Ali havia muitos documentos do período do exílio, principalmente os anos 1970, com temas como desenvolvimento, subdesenvolvimento e urbanização no Terceiro Mundo. Também havia lacunas. Alguns documentos parecem ter sido destruídos ou danificados, possivelmente por causa da ditadura. Há indícios de que certos papéis chegaram a ficar próximos do fogo. Provavelmente, porque outros foram queimados. Então, era um conjunto menor, mas extremamente relevante.

Agência FAPESP – O acervo impressiona pela dimensão. Como interpretar essa preocupação documental de Milton Santos? Às vezes parece que ele já pensava nos futuros biógrafos, como se estivesse deixando um caminho traçado.
Grimm – É verdade. Mas, ao mesmo tempo, tendo convivido com ele, não posso afirmar que ele concordaria com essa linha de interpretação. O Milton Santos era uma pessoa extremamente organizada. Guardava tudo e frequentemente duplicava documentos. Um mesmo texto podia aparecer em várias caixas, porque ele organizava por diferentes lógicas temáticas. Devemos considerar também o contexto da ditadura. Por exemplo, ele escrevia sua agenda pessoal a lápis – claramente como alguém que já teve de apagar informações por segurança. O mais importante é que se tratava de um arquivo de trabalho. Não é um arquivo íntimo, com diários pessoais. É o arquivo de um pensador em plena atividade. Nele, você acompanha como uma ideia nasce em uma conferência, evolui em um curso, vira artigo e depois livro. Hoje, estimamos, junto à equipe do arquivo do IEB, cerca de 60 mil documentos, mas esse número pode crescer, porque há milhares de fichas de leitura, anotações, relatórios. Cada pequeno papel é um documento.

Agência FAPESP – Há possibilidade de se encontrar materiais inéditos, que tragam novos elementos para a interpretação da obra dele?
Grimm – Inéditos, no sentido de documentos não publicados, certamente existem. E isso é muito bonito. Mas não creio que haja algo que mude radicalmente a interpretação da obra. Milton Santos publicou muito, não por pressão institucional, mas porque estava sempre avançando. Ele não tinha apego às próprias ideias: se uma noção deixava de explicar a realidade, ele a abandonava. Por isso, o arquivo dialoga diretamente com a obra publicada. Ele reflete o processo de elaboração de um pensamento sempre em movimento e tornado público.

Agência FAPESP – Você estudou as grandes linhas do pensamento dele. Como sintetizaria essa trajetória?
Grimm – Há uma contemporaneidade impressionante no pensamento dele. Um exemplo claro é o livro Por uma outra globalização, que ele ditou em grande parte entre 1998 e 2000. Ele já falava da globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade – algo extremamente atual. Se voltarmos ao início, nos anos 1950, o encontramos em diálogo com a geografia regional francesa. A tese dele sobre Salvador analisa funções urbanas – comercial, portuária etc. – como era típico naquele momento. Mas, já nos anos 1960, ele começa a propor uma teoria própria, especialmente ao estudar as cidades dos países subdesenvolvidos. Isso é um marco. No exílio, ele se torna pesquisador e professor em tempo integral e desenvolve a teoria dos circuitos da economia urbana: o circuito superior, com mais capital, mais tecnologia e pouco trabalho, e o circuito inferior, com pouco capital, pouca tecnologia e muito trabalho – o comércio popular, que ele vê como motor da economia urbana. Depois, ele avança para uma reflexão mais teórica, dialogando com o marxismo e com a filosofia, e passa a trabalhar a epistemologia da geografia. Defende que a geografia precisa de um objeto – o espaço geográfico – e desenvolve conceitos como paisagem, território, região e lugar de forma integrada.

Agência FAPESP – E o conceito de “território usado”, no final da obra?
Grimm – Esse é um dos conceitos mais fortes. Ele propõe que o espaço geográfico seja entendido como território usado, ou seja, um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Os objetos, naturais ou técnicos, são a materialidade. As ações são tudo aquilo que dá sentido a esses objetos: indivíduos, empresas, movimentos sociais, Estado. Com isso, ele supera a dicotomia entre natureza e sociedade e permite analisar o uso desigual do território. Há um uso potencial e um uso efetivo. Por exemplo, uma infraestrutura pode existir, mas nem todos conseguem utilizá-la. Esse conceito permite incorporar a dimensão política do espaço.

Agência FAPESP – Quanto ao período africano, há menos informações sobre os interlocutores. O que se sabe?
Grimm – Milton Santos visitou países da África Ocidental nos anos de 1958 e 1962. Entre meados de 1974 e 1976, ele e sua companheira, sra. Marie-Hélène Tiercelin dos Santos, moraram na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, onde tinham proximidade com o presidente Julius Nyerere e circulavam nesse ambiente. E dialogou bastante com geógrafos africanos, como o nigeriano Akin Mabogunje, que aparece na bibliografia de suas obras. É importante lembrar que estamos falando dos anos 1970, sem redes de comunicação como hoje. Os contatos dependiam muito da presença física.

  Republicar
 

Republicar

A Agência FAPESP licencia notícias via Creative Commons (CC-BY-NC-ND) para que possam ser republicadas gratuitamente e de forma simples por outros veículos digitais ou impressos. A Agência FAPESP deve ser creditada como a fonte do conteúdo que está sendo republicado e o nome do repórter (quando houver) deve ser atribuído. O uso do botão HMTL abaixo permite o atendimento a essas normas, detalhadas na Política de Republicação Digital FAPESP.