Em contraste com democracias ocidentais, sujeitas a ciclos eleitorais curtos, a China trabalha com horizontes de décadas, o que permite combinar planejamento econômico de longo prazo, diplomacia contínua e construção gradual de influência, analisa Frank (foto: Érika de Faria/Temporal Filmes)
Em palestra apresentada na Escola Interdisciplinar FAPESP 2025: Humanidades, Ciências Sociais e Artes, o historiador francês Robert Alain Frank falou sobre como o planejamento de longo prazo e a diplomacia discreta transformaram o país asiático – antes pobre e rural – em uma superpotência tecnológica
Em palestra apresentada na Escola Interdisciplinar FAPESP 2025: Humanidades, Ciências Sociais e Artes, o historiador francês Robert Alain Frank falou sobre como o planejamento de longo prazo e a diplomacia discreta transformaram o país asiático – antes pobre e rural – em uma superpotência tecnológica
Em contraste com democracias ocidentais, sujeitas a ciclos eleitorais curtos, a China trabalha com horizontes de décadas, o que permite combinar planejamento econômico de longo prazo, diplomacia contínua e construção gradual de influência, analisa Frank (foto: Érika de Faria/Temporal Filmes)
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Quando foi fundada a República Popular da China em 1949, após um ciclo revolucionário que durou quase 40 anos, o país era um dos mais pobres do mundo, com uma população essencialmente rural estimada em torno de 540 milhões de pessoas. A expectativa média de vida era da ordem de 35 anos e a taxa de alfabetização não passava dos 20%. Hoje, com um Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de US$ 18,74 trilhões, a China é a segunda maior economia do mundo e rivaliza com os Estados Unidos em vários setores tecnológicos de vanguarda, entre eles, energia renovável, telecomunicações 5G, inteligência artificial aplicada em larga escala, supercomputadores por capacidade total instalada, robótica industrial, ferrovias de alta velocidade e veículos elétricos. Com 67% da população vivendo em cidades, seu processo de construção de infraestrutura e urbanização é o mais rápido e intenso da história humana. A transição do país de economia eminentemente rural de 1949 para a superpotência emergente de 2025 foi de uma complexidade extraordinária.
Conhecer tal processo é imprescindível para o entendimento do mundo contemporâneo. Apesar disso, e embora o mercado brasileiro esteja abarrotado de produtos chineses, o desconhecimento a respeito da história moderna da China é notável no Brasil, inclusive no âmbito universitário. Nossos cursos de pós-graduação primam pela ausência de projetos capazes de cobrir essa lacuna. Com o objetivo de despertar o interesse de pós-doutorandos pelo tema, a comissão organizadora da Escola Interdisciplinar FAPESP 2025: Humanidades, Ciências Sociais e Artes trouxe ao país o pesquisador Robert Alain Frank, professor emérito da Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne, na área de História das Relações Internacionais. Ele apresentou a conferência “China, seu lugar nas relações internacionais e seu relacionamento com o mundo desde 1978”, enfocando o tema de maneira abrangente.
Seu ponto de partida foi o audacioso programa de reformas implementado por Deng Xiaoping (1904-1997) em 1978. Conhecido como as “Quatro Modernizações” (agricultura, indústria, ciência e tecnologia e defesa nacional), esse programa estratégico recolocou a China de pé e a tirou do atraso depois da tentativa fracassada de industrialização rotulada como “Grande Salto Adiante” (1958-1962) e da “Revolução Cultural Proletária” (1966-1976), ambos movimentos liderados por Mao Zedong (1893-1976) – também conhecido como Mao Tsé-Tung.
“A prioridade de Deng Xiaoping era clara: a economia em primeiro lugar. Ele entendeu que sem uma forte base econômica a China não conseguiria superar seus grandes problemas internos. Ao mesmo tempo, tratava-se de desmontar uma lógica estatal ineficiente sem provocar o colapso social”, disse Frank.
No setor rural, as “comunas populares” (grandes fazendas coletivas que incluíam produção agrícola, pequena produção industrial, serviços, escolas e forças armadas, tudo sob comando unificado) foram paulatinamente desmontadas e finalmente abolidas. Em seu lugar, foi introduzido um sistema que devolvia às famílias o controle sobre parcelas de terra, com parte da produção vendida ao Estado e parte comercializada livremente.
No setor industrial, foram criadas as chamadas “Zonas Econômicas Especiais”, com fortes incentivos para investimentos estrangeiros. Ao mesmo tempo, as grandes empresas estatais passaram a gozar de maior autonomia de gestão e da possibilidade de reter lucros. E houve um crescimento explosivo de pequenas e médias empresas semicoletivas ou privadas, voltadas para a produção de bens de consumo leves. Tudo isso culminaria, mais tarde, na criação de um sistema misto, com empresas estatais estratégicas (energia, petroquímica, siderurgia, telecomunicações) e um segmento manufatureiro privado altamente dinâmico e competitivo.
“A adesão do país à Organização Mundial do Comércio [OMC] em 2001, já sob o comando de Jiang Zemin (1926-2022), acelerou o processo de modernização e de integração à economia mundial. Foi um gesto estratégico. Não se tratava apenas de comércio, mas de consolidar a China como ator estrutural da globalização”, afirmou Frank.
O pesquisador lembrou que, paralelamente ao avanço econômico, prevaleceu, até 2012, a orientação diplomática de low profile (perfil discreto) de Deng Xiaoping: “Foi uma diplomacia de prudência calculada. A prioridade era crescer sem despertar alarme precoce nas grandes potências”, explicou. Em chinês, isso recebeu uma denominação poética: Taoguang Yanghui, que significa algo como “ocultar o brilho, nutrir a capacidade”. Em outras palavras, manter um perfil discreto, não exibir poder antes da hora, evitar confrontos, concentrar esforços no desenvolvimento interno. Muitos comentaristas ocidentais substituíram a frase por uma expressão mais incisiva em inglês, que foi amplamente atribuída a Deng Xiaoping, embora ele nunca a tenha dito: Hide your strength. Bide your time (Oculte sua força. Espere sua hora).
Essa política conciliadora é, na verdade, anterior à era Deng Xiaoping e tem a forte marca do antigo primeiro-ministro Zhou Enlai (1898-1976). Foi adotada pelos governantes chineses quando estes perceberam que não podiam contar com a União Soviética e iniciaram todo um processo de aproximação com os Estados Unidos.
Com a chegada de Xi Jinping ao poder em 2012, e fruto da própria posição conquistada no desenvolvimento interno e da centralidade na economia global, a China iniciou uma nova etapa diplomática, caracterizada por maior assertividade internacional. São marcos nessa escalada a criação do BRICS (bloco das grandes economias emergentes, integrado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em 2009; da Nova Rota da Seda (megaprojeto chinês para expandir infraestrutura e conexões comerciais em escala global, que já resultou em acordos de cooperação com mais de 150 países), em 2013; e da Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP) (o maior acordo de livre-comércio do mundo, reunindo 15 países da Ásia-Pacífico), em 2020.
Esse grande protagonismo global expressa também um novo momento industrial, caracterizado pela produção de bens com alto valor agregado e a liderança em segmentos tecnológicos de vanguarda: o que Frank nomeou como “poder brando com vastos recursos”. Com a polidez que ainda caracteriza a diplomacia chinesa, essas cartas foram postas na mesa, quando o presidente Donald Trump escalou sua guerra tarifária e retórica com vista a preservar a hegemonia norte-americana. Xi Jinping, como se diz, “pagou para ver”, e fez Trump recuar.
No auge da tensão entre os dois países, Xi promoveu dois eventos com óbvio objetivo simbólico. No final de agosto de 2025, reuniu em Tianjin os chefes de Estado ou de governo dos países que integram a Shanghai Cooperation Organization (SCO), organização intergovernamental de segurança e cooperação criada em 2001, e mostrou-se, muito sorridente, ao lado de Vladimir Putin, presidente da Rússia, e de Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia. Poucos dias depois, no início de setembro, a pretexto de comemorar o 80º aniversário da vitória da China sobre o Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial, promoveu, em Beijing, uma das mais espetaculares paradas militares já realizadas, com a exibição de armamentos de última geração, entre eles, mísseis hipersônicos, drones de enxame, sistemas antiaéreos avançados e cães-robôs, equipados com sensores, câmeras e armas leves. Mas, como ressaltou Frank, a intenção foi mostrar poder e não o utilizar.
Como pano de fundo ideológico para isso tudo, há uma crescente referência ao pensamento confuciano no discurso político chinês, especialmente em torno das ideias de ordem social e harmonia. “Confúcio [551 a.C.-479 a.C.] foi combatido durante a Revolução Cultural, como protótipo do filósofo ultraconservador. Agora, voltou à cena, porque oferece uma narrativa de paz, estabilidade e continuidade histórica. E essa narrativa pode ser instrumentalizada para legitimar políticas assertivas sob o manto de uma missão civilizatória”, argumentou Frank. E destacou a expansão dos Institutos Confúcio como elemento-chave da política de soft power chinesa. Hoje são 525 institutos no mundo, com grande capilaridade na Europa, África e América Latina, inclusive o Brasil. “A China investe pesadamente em recursos culturais porque sabe que prestígio simbólico é parte essencial do jogo político entre as potências.”
Para Frank, um dos pontos mais decisivos para entender a China é o modo como o tempo é mobilizado politicamente. “A China tem tempo. E sabe usar o tempo. Essa é talvez sua maior vantagem estratégica”, afirmou. Em contraste com democracias ocidentais, sujeitas a ciclos eleitorais curtos, o Partido Comunista trabalha com horizontes de décadas, o que permite combinar planejamento econômico de longo prazo, diplomacia contínua e construção gradual de influência. “O Ocidente discute quem vencerá nas próximas eleições; a China discute quem será potência em 2050”, resumiu.
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