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Novo indicador metabólico prevê longevidade e risco de doenças crônicas

Apresentada na FAPESP Week Países Baixos, ferramenta analisa dez substâncias no sangue para antever problemas de saúde e orientar o envelhecimento saudável

Novo indicador metabólico prevê longevidade e risco de doenças crônicas
O tabagismo despontou como o fator negativo de maior impacto na pontuação metabólica. Por outro lado, o aumento da prática regular de atividades físicas melhora a pontuação (foto: Age Cymru/Unsplash)

Elton Alisson, de Leiden (Países Baixos) | Agência FAPESP – Cerca de 60% das pessoas com mais de 65 anos convivem hoje com duas ou mais doenças crônicas simultâneas, apontam estudos realizados em diferentes países. Com o intuito de reverter esse quadro e promover o envelhecimento saudável, pesquisadores europeus criaram um novo indicador personalizado que atua como um retrato detalhado do metabolismo do paciente, analisando com alta precisão as substâncias químicas que o próprio corpo produz para funcionar.

Apresentado durante a FAPESP Week Países Baixos por Joris Deelen, do Centro Médico da Universidade de Leiden (LUMC), o indicador atua como um marcador geral de saúde na meia-idade, permitindo identificar precocemente quem está em uma trajetória de envelhecimento saudável e quem apresenta maior risco de declínio funcional. A iniciativa ganha relevância na Europa diante da ampla variação na expectativa de vida saudável, apontou Deelen.

"O tempo de vida desfrutado com boa saúde após os 65 anos varia drasticamente na Europa: na Romênia são cerca de quatro anos, enquanto nos Países Baixos são dez anos", comparou. "Essa disparidade decorre principalmente da condição socioeconômica, do nível educacional, do estilo de vida e de fatores genéticos."

Como não é possível medir diretamente o envelhecimento biológico, a equipe – que também envolveu cientistas do Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento em Colônia, na Alemanha – decidiu procurar as respostas no sangue de 44 mil voluntários acompanhados ao longo de vários anos em 12 estudos conduzidos na Europa. Por meio de exames de sangue detalhados, mediram mais de 200 substâncias, incluindo níveis de gordura, açúcar e marcadores de inflamação.


O pesquisador Joris Deelen (foto: Elton Alisson/Agência FAPESP)

Ao longo da pesquisa, foram registrados 5.500 óbitos entre os voluntários acompanhados. Ao analisar o sangue dessas pessoas, os pesquisadores mapearam quais substâncias servem como um alerta biológico para um maior risco de mortalidade.

Em seguida, o grupo estabeleceu uma colaboração direta com o Brasil para otimizar o indicador. "Tivemos uma estudante de intercâmbio de São Paulo [Gabriela Natalle Lopes, estudante de medicina na Faculdade Israelita Albert Einstein] que veio a Leiden e trabalhou conosco para atualizar a pontuação, tornando-a personalizada e mais adequada para intervenções clínicas", relatou Deelen.

A atualização da ferramenta foi feita em três etapas. Primeiro, os cientistas ajustaram o cálculo matemático usando dados da população neerlandesa, permitindo que o teste passe a gerar um resultado único e personalizado para cada paciente. Depois, para facilitar o uso no dia a dia dos consultórios, eles simplificaram o exame: em vez de centenas de itens, a ferramenta agora foca em apenas dez substâncias do sangue que os médicos já estão acostumados a avaliar. Por fim, a equipe inverteu a lógica da nota para que qualquer pessoa entenda facilmente. "Na pontuação original, um número alto era ruim; decidimos mudar para que uma nota mais alta indique uma saúde melhor", explicou Deelen.

A nova versão mostrou-se ainda mais eficaz na previsão de doenças cardiometabólicas (como diabetes, infarto e acidente vascular cerebral). De acordo com o pesquisador, um aumento de um ponto nessa nova escala corresponde ao adiamento, em média, de 14 anos do surgimento da primeira doença cardiometabólica.

Intervenções práticas

Por refletir o estado funcional geral do organismo, o escore correlaciona-se com diversos parâmetros do envelhecimento saudável, como a função cognitiva, a capacidade pulmonar e a força das mãos (que reflete a função muscular geral).

Para testar se o indicador poderia ser modificado por ações práticas, os cientistas submeteram grupos de voluntários a mudanças no estilo de vida e programas de treino de força. Os resultados mostraram um padrão marcante: as intervenções promoveram melhorias expressivas especificamente nos indivíduos considerados menos saudáveis (aqueles com pontuação inicial abaixo da média). Nesse grupo de maior risco, as mudanças comportamentais e os exercícios reduziram significativamente os níveis de insulina em jejum e de triglicerídeos (gorduras circulantes no sangue), além de proporcionar ganhos na composição corporal.

"Quando analisamos a mudança na pontuação no grupo geral, não vimos alteração expressiva; porém, quando dividimos os indivíduos pelo escore inicial, vimos que a intervenção no estilo de vida foi especificamente eficaz naqueles com pontuação abaixo de zero – ou seja, as pessoas que estavam menos saudáveis no início", explicou Deelen. "Isso indica que o escore é um excelente indicador para identificar quem realmente precisa de intervenção e para monitorar os ganhos de saúde proporcionados pelos exercícios."

As análises conduzidas pelo grupo revelaram que o indicador metabólico é determinado em 40% pela hereditariedade (genética) e em 60% pelo estilo de vida e por fatores ambientais. Entre os comportamentos analisados, o tabagismo despontou como o fator negativo de maior impacto na pontuação metabólica. Por outro lado, o aumento da prática regular de atividades físicas atua reduzindo o risco e melhorando a pontuação.

O pesquisador ressaltou ainda que eventos ocorridos nas fases iniciais do desenvolvimento humano deixam sequelas permanentes: "Até mesmo a desnutrição na infância eleva o escore metabólico desses indivíduos mais tarde na vida adulta", apontou o professor.

Comunicação músculo-cérebro

A premissa apontada pelo estudo neerlandês – de que a atividade física e a saúde metabólica global determinam a longevidade e a proteção contra o declínio funcional – ganha explicação biológica detalhada em pesquisas conduzidas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Investigações lideradas pelo professor Tiago da Silva Alexandre revelam que o envelhecimento musculoesquelético e a demência estão intimamente conectados por uma comunicação molecular contínua (crosstalk) entre quatro tecidos vitais: músculo, osso, gordura e cérebro.

Esse "diálogo" bioquímico entre as estruturas ocorre por meio da liberação de miocinas – substâncias sinalizadoras e protetoras secretadas pelo tecido muscular durante o movimento. Contudo, à medida que a idade avança, pode haver um aumento da infiltração de gordura no interior das fibras musculares. Essa alteração compromete não apenas a capacidade contrátil e o gasto metabólico, mas também a integridade funcional do cérebro.

"A literatura mostra que esses tecidos trocam substâncias entre si, mas o acúmulo de gordura no músculo altera o metabolismo de lipídios e carboidratos, além de estar associado a um maior risco de síndrome metabólica [conjunto de fatores como hipertensão, glicemia alta e colesterol alterado], perda de mobilidade e demência", explicou Alexandre.

Outro fator determinante identificado nas pesquisas envolve a interação entre a gordura abdominal, a deficiência de vitamina D e a perda de memória. O excesso de gordura visceral sequestra a vitamina D e reduz sua disponibilidade circulante no organismo, desencadeando um efeito em cascata que atinge simultaneamente o aparelho motor e o sistema nervoso central.

"Existe um ciclo biológico claro: quem tem mais gordura no abdômen apresenta maior risco de deficiência de vitamina D. Como esse hormônio é essencial para a síntese de proteínas e para a força muscular, a sua falta deixa o músculo mais fraco e reduz sua massa. Ao mesmo tempo, por atuar diretamente na proteção do tecido cerebral, a deficiência de vitamina D eleva significativamente o risco de a pessoa idosa desenvolver declínio cognitivo", detalhou o pesquisador.

IA a serviço do SUS

Para transpor esses achados científicos para a atenção prática na rede pública de saúde, foi criado recentemente na UFSCar, com apoio da FAPESP, o Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Métodos Inteligentes no SUS para o Tratamento de Pessoas com Demência (CCD-MIDEM). A iniciativa utiliza ferramentas de inteligência artificial e biomarcadores para integrar dados de prontuários eletrônicos e exames de imagem no atendimento especializado à terceira idade.

"Os serviços públicos enfrentam enorme dificuldade para realizar o diagnóstico precoce e o diagnóstico diferencial entre os tipos de demência, como a vascular e a doença de Alzheimer. Com a inteligência artificial, pretendemos criar modelos preditivos capazes de indicar a probabilidade de demência logo nas primeiras consultas e definir qual intervenção multidisciplinar é a mais adequada para cada estágio da doença", destacou Alexandre.

Mais informações sobre a FAPESP Week Países Baixos em: fapesp.br/week/2026/netherlands.
 

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