Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Respirar ar rarefeito – como o encontrado no topo de grandes montanhas – costuma ser desgastante para o organismo. Mas um estudo conduzido na Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostrou que a exposição controlada e em pequenos intervalos ao ar com baixa oxigenação é segura, não prejudica o sono e pode modular hormônios e marcadores associados à inflamação em pessoas com doença de Parkinson. Os resultados preliminares abrem caminho para investigações mais aprofundadas sobre o uso da técnica como terapia complementar para a condição.
Chamada cientificamente de hipóxia intermitente, a abordagem busca estimular respostas adaptativas do corpo sem sobrecarregá-lo. “Os resultados iniciais indicam que a técnica ativa mecanismos de proteção que podem beneficiar pessoas com Parkinson de modo seguro, sem causar efeitos adversos. Isso é importante, pois nos permite realizar investigações com um maior número de voluntários e também com protocolos de longo prazo, que avaliem os efeitos de sessões repetidas”, afirma Fabio Barbieri, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Movimento Humano (Movi-Lab) e do projeto de extensão Ativa Parkinson na Unesp de Bauru, que liderou a investigação.
Estima-se que 11 milhões de pessoas no mundo tenham a doença de Parkinson. Caracterizada pela degeneração progressiva de neurônios produtores de dopamina – neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos –, a condição provoca sintomas motores bem conhecidos, como tremores, rigidez muscular e lentidão, mas também desencadeia manifestações não motoras importantes, incluindo alterações metabólicas, processos inflamatórios e distúrbios do sono.
Como explica Barbieri, medicamentos ajudam no manejo da enfermidade, mas não promovem as modificações metabólicas e anti-inflamatórias necessárias para aliviar todos os sintomas. “Atualmente, o exercício físico é a única estratégia disponível que consegue melhorar as manifestações clínicas. Por isso, é interessante descobrir se a hipóxia controlada teria um efeito parecido, tornando-se um tratamento complementar ao exercício físico. De maneira nenhuma estamos falando em cura da doença de Parkinson ou de uma abordagem que substitua qualquer outro tratamento”, ressalta o pesquisador.
Publicado em agosto na revista Parkinsonism & Related Disorders e apoiado pela FAPESP, o estudo contou com a participação de 30 voluntários – metade afetada pela doença de Parkinson e a outra metade saudável. No experimento, que durou 39 minutos, eles utilizaram máscaras e equipamentos que intercalavam quatro ciclos de seis minutos respirando ar com apenas 10% de concentração de oxigênio (equivalente a 5.800 metros de altitude) e três intervalos de cinco minutos respirando ar normal (21% de oxigênio). Em outro dia, para comparação, os mesmos voluntários passaram por uma sessão-controle respirando apenas ar normal durante todo o tempo.
Marcadores sanguíneos
Os pesquisadores observaram que, nos voluntários com Parkinson, uma única sessão de hipóxia intermitente foi suficiente para reduzir, momentaneamente, os níveis de cortisol (hormônio associado ao estresse) e de leptina (hormônio produzido pelo tecido adiposo que atua no controle do metabolismo e da saciedade, mas que em excesso favorece processos inflamatórios). Além disso, houve um aumento sustentado da adiponectina – substância de ação anti-inflamatória que costuma ficar desregulada na doença de Parkinson –, efeito que se manteve mesmo 24 horas após o experimento.
Segundo Murilo Henrique Faria, primeiro autor do estudo e bolsista da FAPESP, o desequilíbrio nessas três substâncias costuma estar ligado à inflamação no cérebro, a desajustes hormonais e a problemas para dormir comuns na doença. “Portanto, nossos resultados demonstram que o uso da hipóxia intermitente pode modular o metabolismo, o que possivelmente desencadeia efeitos positivos no comportamento de sono em pessoas com doença de Parkinson”, afirma.
Entre os autores, havia o receio de que a hipóxia pudesse causar despertares ou insônia, mas não foi o que o experimento mostrou. “Uma única sessão de hipóxia intermitente não alterou parâmetros gerais do sono [como número de despertares ou tempo para adormecer], tanto nas pessoas com doença de Parkinson quanto nos voluntários saudáveis”, conta Faria.
De acordo com Barbieri, embora uma sessão do protocolo tenha sido suficiente para modificar biomarcadores no sangue, como reduzir o cortisol e aumentar a adiponectina, ela pode ter sido insuficiente para reorganizar o ciclo de sono-vigília. “Daí a necessidade de estudos mais aprofundados e com maior duração”, diz.
O estudo também confirmou que o procedimento não alterou as taxas de ferro no sangue nem elevou os níveis de interleucina 6 (molécula que estimula processos inflamatórios), reforçando a segurança do método. Além disso, ajudou a preservar a concentração da proteína BDNF (sigla em inglês para fator neurotrófico derivado do cérebro), essencial para a proteção e a sobrevivência dos neurônios. “Manter os níveis de BDNF estáveis é um resultado relevante, pois essa proteína costuma cair durante períodos de inatividade física – queda que de fato ocorreu quando os pacientes passaram pela sessão-controle respirando ar normal. A hipóxia intermitente conseguiu evitar esse declínio ao mesmo tempo em que aumentou a adiponectina, o que abre caminho para novas investigações”, afirma Faria.
O papel da hormese
O motivo por trás desse efeito benéfico da hipóxia intermitente está em um conceito chamado hormese, a capacidade do organismo de se adaptar a pequenos estresses. “Usamos doses controladas de hipóxia para provocar adaptações positivas, algo que pode ajudar pessoas com doença de Parkinson”, explica Carlos Augusto Kalva-Filho, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências de Bauru (FC-Unesp) e coautor do estudo.
Ele conta que esse tipo de exposição ao ar simulado de elevada altitude, seja por meio de máscaras e equipamentos, seja por câmaras isoladas, costuma ser indicado para a preparação de atletas. “No entanto, poucos grupos de pesquisa no mundo investigam essa estratégia em pessoas com doença de Parkinson.”
O segredo, acrescenta o pesquisador, está na alternância entre ar rarefeito e ar normal e no controle rigoroso da dose. Esse estímulo na medida certa mantém ativa uma proteína chamada HIF-1α (fator induzido por hipóxia 1-alfa), que funciona como um sensor celular capaz de acionar mecanismos de proteção dos neurônios e otimizar a produção de energia nas células (o chamado metabolismo mitocondrial). “É esse controle preciso que gera o benefício. Portanto, não é o caso de simplesmente fugir para as montanhas”, brinca.
Kalva-Filho também explica que o efeito é muito diferente do chamado mal agudo da montanha, quando viajantes em grandes altitudes sentem dor de cabeça, náusea ou fadiga – e jogadores de futebol perdem o fôlego e o rendimento em campo. “Ao viajar para esses locais muito altos, o organismo sofre um estresse contínuo e prolongado, o que acaba sobrecarregando o corpo. Já no laboratório, tudo é controlado.”
O artigo The acute effects of a single session of intermittent hypoxia on blood biomarker concentrations and sleep parameters in people with Parkinson’s disease: A randomized, double-blind, crossover trial pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S1353802026007492.
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