Elton Alisson, de Leiden (Países Baixos) | Agência FAPESP – A crescente parceria científica entre o Brasil e os Países Baixos ganha um novo impulso com a 28ª edição da FAPESP Week, que teve início ontem (27/10) na cidade de Leiden. Na abertura do evento, os participantes destacaram a importância do encontro para fortalecer a colaboração de longo prazo entre as instituições de pesquisa dos dois países. O simpósio internacional vai até amanhã (29/10) e busca unir o estado de São Paulo e a comunidade acadêmica neerlandesa em áreas estratégicas, como saúde, agricultura sustentável, transição energética, inteligência artificial e biotecnologia.
Durante a cerimônia de abertura, na Universidade de Leiden, dirigentes institucionais apresentaram dados sobre o crescimento do intercâmbio acadêmico e detalharam suas perspectivas para o futuro da aliança bilateral.
O presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago, ressaltou que o reaquecimento da produção científica global após os anos críticos da pandemia ocorre em um cenário transformado pela tecnologia. “A inteligência artificial, tanto em sua pesquisa fundamental quanto em sua aplicação prática, emergiu como uma mudança estrutural. Agora é a prioridade número um nas agendas de pesquisa da maioria dos países”, pontuou.
O dirigente destacou a estabilidade institucional da agência de fomento à pesquisa paulista, que concede anualmente mais de 10 mil novas bolsas e apoia 50 centros de pesquisa de classe mundial, com duração de dez anos, além de 115 Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs). Ao detalhar o avanço do intercâmbio com os parceiros neerlandeses, o presidente ressaltou o crescimento recente das pesquisas conjuntas.
“Nos últimos cinco anos, pesquisadores dos Países Baixos e de São Paulo publicaram mais de mil artigos em colaboração todos os anos. Isso representa um resultado impressionante e serve como indicador da força da cooperação entre nossas respectivas regiões”, concluiu.
Ena Voûte, membro da diretoria executiva e responsável pelo portfólio de colaboração internacional do Conselho de Pesquisa dos Países Baixos (NWO na sigla em neerlandês), reforçou que a aliança científica entre as regiões vem ganhando força. “Nossa colaboração só se intensificou nos últimos dez anos. Por isso, em vez de simplesmente estender nosso atual memorando de entendimento de cooperação após 15 anos, desenvolveremos um novo para refletir as mudanças desde 2012 e reavaliar como queremos colaborar no futuro”, declarou (leia mais em: agencia.fapesp.br/59490).

Na cerimônia de abertura, o presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago, destacou a inteligência artificial como um tema prioritário de pesquisa (foto: Laura Redondo/Agência FAPESP)
A dirigente destacou a aplicação de metodologias voltadas ao impacto social desde a concepção dos projetos e lembrou que a dimensão humana é o verdadeiro motor da parceria: “No centro da FAPESP Week e no coração de qualquer iniciativa internacional estão pessoas como vocês”, disse. Encerrando sua saudação, Voûte projetou os desdobramentos dos trabalhos ao longo da semana: “A FAPESP Week não é o fim, e estou animada para ver onde os próximos anos de parceria entre NWO e FAPESP nos levarão. Espero que nos próximos dias todos aprendamos coisas novas, criemos novas conexões e fortaleçamos laços com velhos amigos”.
O presidente do Conselho Executivo da Universidade de Leiden, Luc Sels, ressaltou a tradição e a vocação internacional da instituição fundada em 1575. “Estou convencido de que a força da universidade está não apenas em suas tradições, mas principalmente em sua capacidade de construir novas conexões, abraçar novas perspectivas e permanecer aberta ao mundo”, afirmou. Sels enfatizou a importância da integração interdisciplinar e elogiou a excelência da pesquisa paulista: “O que me fascina não é apenas a força das disciplinas individuais, mas ainda mais o que se torna possível quando começamos a conectá-las. Isso torna, na minha opinião, São Paulo um parceiro empolgante, pois possui uma força científica notável em biodiversidade, saúde, agricultura, energia e tecnologias emergentes”.
Em sua reflexão final, Sels ressaltou o papel da ciência frente às tensões mundiais: “Em um momento de tensão geopolítica, governos de ambos os lados do Atlântico falam cada vez mais sobre soberania tecnológica e digital. Mas a soberania deve fortalecer nossa capacidade de cooperar, não se tornar uma desculpa para isolamento científico”.
Diplomacia científica
O embaixador do Brasil nos Países Baixos, Fernando Simas Magalhães, discursou sobre os benefícios mútuos da diplomacia científica. “Aprofundar a cooperação bilateral em ciência, tecnologia e inovação beneficia ambos os lados ao aproveitar as forças de nossas nações. Essa cooperação é ainda mais importante em um momento de aparente desconfiança crescente nas parcerias internacionais”, avaliou. O diplomata lembrou a posição estratégica do Brasil e o marco histórico dos 200 anos de relações diplomáticas entre os países, celebrado este ano.
“O Brasil é um parceiro estratégico em um momento em que economistas ao redor do mundo buscam cadeias de suprimentos que combinem avanços tecnológicos, sustentabilidade, diversificação e confiabilidade”, afirmou. Magalhães destacou também a robustez do ambiente nacional de inovação: “O ecossistema de inovação do Brasil cresceu significativamente e agora compreende cerca de 20 mil startups em setores como fintech, tecnologia de saúde e agritecnologia. A Estratégia Nacional para Ciência, Tecnologia e Inovação visa elevar o investimento em P&D para 2% do PIB [Produto Interno Bruto] até o fim de 2027”.
A representante do Ministério da Educação, Cultura e Ciência dos Países Baixos, Susanne Caarls, celebrou o marco do bicentenário diplomático e ressaltou o alto nível e o impacto internacional da produção compartilhada. “Fiquei particularmente impressionada com o alto impacto da colaboração entre o NWO e a FAPESP. Juntos, o estado de São Paulo e os Países Baixos produziram mais de 8 mil publicações conjuntas em áreas-chave da ciência”, disse. Caarls concluiu reafirmando a dimensão global da produção de conhecimento: “A ciência não conhece fronteiras. Os desafios que enfrentamos, seja em saúde, agricultura ou energia, são globais e exigem soluções globais. A parceria entre Brasil e Países Baixos é um exemplo brilhante de como podemos enfrentar essas questões juntos”.
O diretor científico da FAPESP, Marcio de Castro, apresentou dados quantitativos para demonstrar a dimensão do polo científico paulista e os objetivos para a relação bilateral. “São Paulo é responsável por quase 42% da produção científica brasileira e poderia ser considerado um país. Tem a população da Espanha, o PIB da Suécia e a área territorial do Reino Unido”, relatou.
Castro também salientou a posição de destaque do estado na América do Sul: “São Paulo é o único polo de ciência e tecnologia na América do Sul no ranking global das 200 cidades científicas, ocupando a 49ª posição, e abriga cerca de 55% de todas as startups de deep tech do país”, disse. Quanto às metas do simpósio, o diretor destacou a determinação de estreitar ainda mais os vínculos: “Quando olhamos para os parceiros de São Paulo, vemos que os Países Baixos estão entre os dez principais países. Mas o motivo de estarmos aqui é que decidimos que os Países Baixos subiriam nessa lista, estimulando centros conjuntos de pesquisa e impacto global”.
Encerrando os pronunciamentos da mesa de abertura, o gerente da Assessoria de Relações Internacionais da FAPESP, Raul Machado Neto, ressaltou a proposta prática do evento e o empenho organizacional que antecedeu sua realização. “Esta é a 28ª edição da FAPESP Week. Este evento não é uma apresentação de artigos acadêmicos; em vez disso, o objetivo principal é fomentar conexões, aumentar a colaboração, a pesquisa e a ciência entre os dois lados”, sublinhou.
Mais informações sobre a FAPESP Week Países Baixos em: fapesp.br/week/2026/netherlands.
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