Vitalidade lingüística
02 de maio de 2006

Esforços empreendidos por lingüistas no interior do Brasil, nos últimos anos, estão estimulando os povos indígenas a preservar seus idiomas. Uma das mais recentes contribuições vem da tese de doutorado defendida pela pedagoga Maria Pankararu

Vitalidade lingüística

Esforços empreendidos por lingüistas no interior do Brasil, nos últimos anos, estão estimulando os povos indígenas a preservar seus idiomas. Uma das mais recentes contribuições vem da tese de doutorado defendida pela pedagoga Maria Pankararu

02 de maio de 2006

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - Os Fulni-ô, infelizmente, são uma exceção à regra. Esse povo indígena, em todo o Nordeste brasileiro, é o único que conseguiu manter sua língua materna com bastante vitalidade. Praticamente todas as outras – e eram muitas quando os colonizadores chegaram – estão mortas.

"A manutenção do yathe, que está encravada no meio de população de língua portuguesa há séculos, é algo realmente extraordinário", afirma Januacele da Costa, professora do Departamento de Lingüística da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), à Agência FAPESP. "É possível comparar a sobrevivência desse idioma com o basco, uma língua também isolada, dentro dos territórios atuais da França e da Espanha."

Se os Fulni-ô conseguiram resistir, e hoje possuem meios de exteriorizar melhor sua "indianidade", em quase todas as outras tribos a saída surge apenas quando os lingüistas se aproximam e criam meios de difusão do idioma, que muitas vezes é apenas falado. Essa necessidade, por exemplo, levou a pedagoga, historiadora e indígena Maria Pankaruru, orientada por Januacele, a trabalhar em seu doutorado com a língua ofayé, tribo do interior do Mato Grosso do Sul.

"Essa língua é falada atualmente por apenas 11 pessoas. A tribo hoje tem 46 indígenas e outros 27 brancos que vivem lá devido aos casamentos interétnicos", explica Maria, que atualmente é funcionária da Funai de Maceió.

O trabalho acadêmico da pesquisadora, defendido no dia 19 de abril, culminou com a criação de uma cartilha, que está sendo usada pela professora Marilda de Souza com dez crianças da tribo Ofayé. A pesquisa atingiu um nível muito maior do que a montagem do material didático. A primeira indígena doutora do Brasil fez uma espécie de gramática da língua estudada por ela.

"Esse é um trabalho que tenta colaborar para a preservação de uma língua indígena específica", explica Maria. "O que ocorre muitas vezes é que as crianças indígenas estão aprendendo direto o português. Os país têm medo de que, se elas falarem apenas a língua indígena, sejam discriminadas nas escolas, pelos colegas. O problema é que o preconceito ocorre de qualquer forma, muitas vezes por parte do professor, mesmo que a criança fale apenas a língua oficial do Brasil", afirma a pesquisadora indígena, que contou com uma bolsa financiada pela Fundação Ford, instituição que aqui no Brasil tem uma parceria com a Fundação Carlos Chagas.

Em sua própria trajetória – além das duas graduações e do mestrado, Maria estudou até a antiga sétima série em São Paulo, porque sua família resolveu deixar a tribo Pankararu, localizada no sertão pernambucano, devido à seca, mas depois voltou ao Nordeste – a pesquisadora admite que ouviu professores passarem aos seus alunos muitos dos estereótipos atrelados aos indígenas. "Isso existe infelizmente", afirma.

Apesar de ser de uma tribo com 4 mil pessoas ainda, que mantém vivo vários dos rituais feitos pelos antepassados, Maria Pankararu não poderá repetir seu trabalho lingüístico do doutorado na sua própria tribo. "Nós perdemos a nossa língua faz muitas gerações."


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