Vidas periféricas | AGÊNCIA FAPESP

Com base em pesquisas feitas no Centro de Estudos da Metrópole, documentário discute a realidade dos conjuntos habitacionais da Cidade Tiradentes, em São Paulo. Filme estréia neste sábado (29/3) no festival É Tudo Verdade

Vidas periféricas

28 de março de 2008

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Viver na Cidade Tiradentes é uma experiência compartilhada por mais de 200 mil pessoas. Muitas delas são discriminadas por morar no bairro do extremo leste de São Paulo, a mais de 30 quilômetros do centro da cidade e que abriga o maior complexo de conjuntos habitacionais do continente.

Esse estigma é o tema do documentário Moro na Tiradentes, dirigido por Henri Gervaiseau e Cláudia Mesquita, que estréia neste sábado (29/3) no festival É Tudo Verdade, na capital paulista.

O filme, que teve base em pesquisas em antropologia urbana, é uma produção do setor de Audiovisual do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), coordenado por Gervaiseau. Ligado ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o CEM é um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP.

De acordo com Gervaiseau, a temática da sociabilidade é o principal ponto de contato do documentário com as pesquisas realizadas no CEM. "Uma das frentes de pesquisa do centro, ligada a temáticas da sociabilidade e da pobreza, realizava um trabalho na Cidade Tiradentes. Achamos que a questão da moradia seria um bom ângulo para abordar o bairro pela via audiovisual", disse à Agência FAPESP.

O diretor afirma que o documentário é o primeiro de uma trilogia que pretende explorar as várias formas de morar em Cidade Tiradentes. "Este filme fala da experiência de morar em conjuntos habitacionais. O segundo, cuja produção está em andamento, tratará da experiência do mutirão. O terceiro, em fase de pesquisa, vai abordar a moradia na favela e locais invadidos", disse.

Segundo ele, embora se baseie em estudos de antropologia urbana, a produção não pretende ser mera ilustração das pesquisas. "A idéia era construir um novo discurso, buscando novos ângulos de percepção que não foram revelados pelos indicadores sociais ou pela abordagem conceitual da pesquisa", explicou o também professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

A partir dessa idéia, os diretores iniciaram uma pesquisa, que durou um ano e meio, sobre situações e personagens nos conjuntos habitacionais. "O filme foi centrado nos personagens. Tentamos mostrar ao mesmo tempo uma experiência social do bairro e a intimidade dessas pessoas no contexto urbano", disse.

A maioria dos personagens mora em apartamentos, sempre em espaços muito pequenos. "Conseguimos um conjunto de narrativas que conta um pouco a história da moradia na Cidade Tiradentes. O nome do documentário remete ao estigma que decorre do fato de essas pessoas morarem na periferia", afirmou Gervaiseau.


Pobrezas distintas

Gervaiseau conta que, embora seja um dos bairros com maior número de desempregados no município, Cidade Tiradentes não é particularmente violento. O bairro tem características que são apenas dele.

"Essa particularidade é coerente com um elemento que já aparecia nas pesquisas do CEM: ao contrário do que se diz, as pobrezas são diferentes. Ser pobre em um conjunto habitacional em Cidade Tiradentes não é o mesmo que ser pobre na favela em Paraisópolis", afirmou.

Além do interesse de acumular conhecimento sobre a sociabilidade urbana, segundo Gervaiseau, tanto o filme como as pesquisas têm o interesse de servir como instrumento de luta contra a pobreza.

"As pessoas têm uma vida difícil no bairro, que é muito carente de equipamentos coletivos e oportunidades de trabalho e lazer. Os moradores precisam se deslocar para lugares distantes em busca de emprego. Ao mesmo tempo, sem querer cair em generalidades, vemos ali que o povo brasileiro é sofrido e sabe resistir às adversidades", apontou.

Gervaiseau dirigiu, entre outros, o documentário de longa-metragem Em Trânsito, sobre as dificuldades para se deslocar nas grandes cidades. Cláudia Mesquita, doutora em cinema pela ECA-USP, é professora da Universidade Federal de Santa Catarina.

Segundo Gervaiseau, além de Cidade Tiradentes, o CEM desenvolve pesquisa sobre temáticas semelhantes em áreas como o centro de São Paulo e a favela de Paraisópolis. Uma delas gerou o documentário 5 Mulheres de Paraisópolis, de 2005, também dirigido por Cláudia.

Moro na Tiradentes será exibido no festival É Tudo Verdade, na Reserva Cultural, em São Paulo, no sábado (29/3) às 20h e no domingo (30/3) às 14h.

No Rio de Janeiro, o filme será exibido na terça-feira (1/4) no Cine Glória, às 18h, e no Cine Guadalupe, às 17h. O Cine Guadalupe terá mais uma sessão na quarta-feira (2/4), às 19h. A última exibição será no Instituto Moreira Salles, na quinta-feira (3/4), às 18h.


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