Aluna de Milton Santos, María Laura Silveira atualmente é pesquisadora no Conicet e professora de pós-graduação na Universidad de Buenos Aires (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Entrevista com María Laura Silveira
Uma obra que segue fundamental para entender as sociedades
08 de maio de 2026

Colaboradora próxima de Milton Santos, a geógrafa argentina explica de que forma a teoria dos dois circuitos da economia urbana ajuda a interpretar fenômenos atuais, como a financeirização, a digitalização e a economia de plataforma

Entrevista com María Laura Silveira
Uma obra que segue fundamental para entender as sociedades

Colaboradora próxima de Milton Santos, a geógrafa argentina explica de que forma a teoria dos dois circuitos da economia urbana ajuda a interpretar fenômenos atuais, como a financeirização, a digitalização e a economia de plataforma

08 de maio de 2026

Aluna de Milton Santos, María Laura Silveira atualmente é pesquisadora no Conicet e professora de pós-graduação na Universidad de Buenos Aires (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

 

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Aluna de Milton Santos, a geógrafa argentina María Laura Silveira, atualmente pesquisadora principal no Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet) e professora de pós-graduação na Universidad de Buenos Aires, foi uma de suas colaboradoras mais próximas nos últimos anos de vida. Participou do último projeto submetido por ele à FAPESP e, após sua morte, deu continuidade às pesquisas, atualizando conceitos centrais da obra do mestre – especialmente a teoria dos dois circuitos da economia urbana – à luz das transformações recentes, como a financeirização, a digitalização e a economia de plataformas. Nesta entrevista, Silveira mostra como o pensamento de Milton Santos permanece vivo e capaz de interpretar o mundo contemporâneo.

Agência FAPESP – Qual era o foco do último estudo de Milton Santos, que ele não pôde terminar?
María Laura Silveira – Era sobre os circuitos da economia urbana: um projeto que, depois da morte dele, eu retomei sozinha, com auxílio da FAPESP. Ele queria se debruçar fundamentalmente sobre a porção marginal do circuito superior e sobre a nova configuração do circuito inferior, considerando as modificações ocorridas desde a década de 1970, quando a teoria dos dois circuitos da economia urbana foi apresentada. Essa teoria foi revolucionária, em um contexto em que ainda predominava a comparação entre as cidades do chamado ‘terceiro mundo’ e as cidades do ‘mundo desenvolvido’, como se aquelas fossem um estágio anterior destas, na mesma linha de evolução. Milton questionou radicalmente isso na década de 1970 e quis voltar ao tema na década de 1990.

Agência FAPESP – O que é a porção marginal do circuito superior?
Silveira – Os circuitos se definem por graus diferentes de capital, tecnologia e organização, o circuito superior tendo altos graus e o circuito inferior com baixos graus. A porção marginal do circuito superior compartilha elementos constitutivos de um e de outro, podendo, eventualmente, ter graus importantes de tecnologia, mas vulnerabilidade financeira. Consideremos, por exemplo, um pequeno laboratório farmacêutico, que faz um tipo específico de medicamento ou que produz um fármaco de base para um grande laboratório. Ou uma firma de informática que faz um serviço específico para uma grande. Ou uma fábrica de autopeças que produza um componente específico para uma grande montadora de veículos. Essas empresas precisam ter conhecimento tecnológico, instrumentos de trabalho, um grau de organização que permita essa interlocução, que permita que sejam fornecedoras. Porém, são vulneráveis, pois, se a grande empresa compradora, por algum motivo, interromper as compras, elas podem se tornar inadimplentes e cair no circuito inferior da economia.

Agência FAPESP – Essa porção marginal configura um terceiro setor?
Silveira – Não existem três setores com demandas próprias: um superior, um inferior e um intermediário. A porção marginal está integrada ao circuito superior. Mas, por sua vulnerabilidade, pode cair para o circuito inferior. Por isso, a gente sempre preferiu usar a palavra ‘porção’, para não dar a impressão de que seriam três circuitos.

Agência FAPESP – Como levou adiante essa pesquisa?
Silveira – A FAPESP apoiou um novo projeto, que deu continuidade ao anterior. Publiquei vários artigos e capítulos de livros. Alunos meus apresentaram dissertações e teses. Continuamos com essa linha de pesquisa, porque nos parece que continua sendo atual.

Agência FAPESP – Atualizando Milton, como o circuito inferior mudou nas últimas décadas?
Silveira – A primeira grande transformação foi que a pobreza se tornou estrutural. Entre as décadas de 1970 e 1990, o fenômeno da pobreza se espalhou e se intensificou nos nossos países. Outra variável que se tornou absolutamente fundamental para definir o atual período da globalização é o consumo. Os pobres não deixaram de consumir. Então, hoje, temos esse dado fundamental que é o crescimento concomitante da pobreza e do consumo. Como isso se tornou possível? Graças ao grau de financeirização, que também teve um crescimento explosivo. As pessoas com menor poder aquisitivo acabam se endividando para poderem continuar consumindo. Isso também permite que os agentes que fazem parte do circuito inferior possam continuar produzindo.

Agência FAPESP – Principalmente nas últimas décadas de sua vida, Milton deu muita importância ao papel da técnica. Como os recursos técnicos contribuíram para essa nova configuração?
Silveira – Por meio daquilo que o próprio Milton chamou de ‘técnicas doces’. São técnicas que não exigem grandes recursos. Hoje, com um computador, com um celular, enfim, com instrumentos móveis, a pessoa pode, em uma sala de sua casa, produzir alguma coisa, algum bem ou serviço. Então, isso permite que haja uma produção de baixo, uma produção popular.

Agência FAPESP – O circuito inferior também transformou suas formas de organização para isso?
Silveira – Sim. O circuito inferior teve que requalificar suas formas de organização e de venda para se adaptar a uma demanda também requalificada e para disputar com o circuito superior a possibilidade de vender a crédito. Tudo isso foi criando um circuito inferior que se expande com uma elasticidade que espanta.

Agência FAPESP – Milton foi muito visionário, porque anteviu uma situação que se tornaria dominante com o advento das plataformas digitais e do que se convencionou chamar de uberização do trabalho.
Silveira – Exatamente, exatamente. Essas plataformas ainda não existiam no tempo dele. Nem depois, no período em que fiquei em São Paulo. É um fenômeno bem mais recente, que levou a precarização do trabalho a uma escala sem precedentes. Ao mesmo tempo, eu creio que tudo isso vai robustecendo essas economias de baixo, nas quais existe um fracionamento crescente das tarefas, dos produtos, do tempo. Importante ressaltar que a teoria dos dois circuitos não é classificatória. Ela procura entender a realidade socioeconômica como uma unidade, na qual cada processo de modernização, ao se tornar hegemônico, impõe o passo para outras divisões do trabalho, que não desaparecem, mas coexistem. O circuito inferior não é o que sobra. Ele tenta se adaptar. Também não é uma coisa independente. Ele é o resultado indireto da modernização. Faz o que pode com os dados da época.

Agência FAPESP – Por que se costuma falar em “técnica” e não em “tecnologia”?
Silveira – O que Milton chamou de ‘fenômeno técnico’ engloba técnica e ação. Não são só os objetos, mas também a forma de usar os objetos. Não havia, na época, a ideia de meio técnico-científico-informacional. Mas a visão de futuro dele fez com que concebesse categorias que podem continuar sendo preenchidas por novas coisas.

Agência FAPESP – Como era Milton no trato pessoal?
Silveira – Em primeiro lugar, ele era muito, mas muito rigoroso. Tinha rigor com o trabalho, com a palavra. Mas, ao mesmo tempo, era uma pessoa divertida, que fazia o cotidiano ficar leve. A ironia era sua marca registrada. E o entusiasmo: vamos pesquisar isso, vamos escrever aquilo.

Agência FAPESP – E do ponto de vista intelectual e espiritual?
Silveira – Eu acho que ele era uma pessoa muito intuitiva. Bastante crítico em relação a uma cabeça cartesiana, só racional. E insistia muito na ideia de ‘outras racionalidades’, de como os agentes de baixo têm ‘outras razões’. Por isso, sempre teve esperança de que os pobres teriam um papel histórico importante. Não acho que fosse uma pessoa que não tivesse crença nenhuma. Quando foi adoecendo, ele às vezes falava de Deus.

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