Para Sachs, desenvolvimento rural tem que levar em conta os pequenos produtores
(foto:IEA)
Otimismo cauteloso em relação ao Brasil. Essa foi a tônica dos debates realizados nesta quinta (6/4), no IEA/USP. O francês Ignacy Sachs e outros intelectuais falaram sobre a "civilização da biomassa" e a falta de projeto político
Otimismo cauteloso em relação ao Brasil. Essa foi a tônica dos debates realizados nesta quinta (6/4), no IEA/USP. O francês Ignacy Sachs e outros intelectuais falaram sobre a "civilização da biomassa" e a falta de projeto político
Para Sachs, desenvolvimento rural tem que levar em conta os pequenos produtores
(foto:IEA)
Agência FAPESP - A explicação que segue pode ser bastante sintética, avisa o ecossocioeconomista (como ele prefere ser identificado) Ignacy Sachs. "Reforma agrária não é apenas dar um pedaço de terra para as pessoas. Ela é tudo, é a nossa vida. Além dela, temos que ter crédito, educação, mercado e ajuda técnica", diz.
As palavras não são do intelectual polonês de nascimento que vive hoje entre a França e o Brasil. "Isso foi dito por uma quebradora de coco do Piauí em um evento sobre reforma agrária realizado no Itamaraty, em Brasília. Ela se levantou da platéia e deu essa importante contribuição", explica Sachs.
O co-diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da França falou nesta quinta-feira (6/4) no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP). Sachs é coordenador do novo ciclo temático do instituto, nomeado "Tristes trópicos ou terra de boa esperança? Obstáculos ou vantagens comparativas para o desenvolvimento da civilização da biomassa?".
Segundo Sachs, as afirmações da trabalhadora piauiense ilustram bem o caminho que deve ser seguido para que o Brasil possa buscar seu desenvolvimento, pelo menos do ponto de vista rural. "Sou favorável ao subsídio para o agricultor, mas não para a agricultura. As pessoas do campo são gestoras dos sistemas de sustentação da vida. Elas são as guardiãs da paisagem", afirma.
Sachs destacou uma série de vantagens comparativas do Brasil para se transformar, em 20 ou 30 anos, em uma moderna "civilização da biomassa", por conta de produtos como o álcool e o biodiesel. Em seguida, reforçou alguns pontos que considera fundamentais para que esses potenciais possam ser usados a favor do desenvolvimento.
"Pluriatividade é uma das palavras-chave. O rural não deve ser apenas agrícola. Além disso, é preciso fugir sempre da monocultura. A saída, ao meu ver, está no sistema rural integrado: pecuária, agrícola e floresta", destacou. Sachs é partidário da idéia de que a produção do petróleo atingiu o seu ápice e, a partir de agora, irá cair.
Do encantamento à difamação
Em concordância com Sachs, o geógrafo Carlos Augusto Monteiro, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, também acredita que existe potencial no Brasil para o desenvolvimento. Entretanto, em sua palestra no IEA, ele demonstrou que o seu grau de otimismo é menor.
"Veja a Amazônia, a injeção de chumbo nos rios do Pantanal, o verdadeiro absurdo que vai ser feito no Nordeste com a transposição do rio São Francisco. Temos muita produção científica, a população está até mais consciente dos nossos problemas sociais e ambientais, mas não temos projeto político em todos os níveis. Estamos mergulhados na vergonha", afirmou Monteiro.
Ao fazer uma análise dos estudos sobre os trópicos, e para isso não deixou de citar Gilberto Freyre, Monteiro lembrou que, nos últimos 500 anos, a relação entre metrópole e colônias passou por três importantes fases. "No começo houve a fase do encantamento. Depois a da dominação, onde começou, por exemplo, a grande exploração do pau-brasil e, em terceiro, a da difamação, que teve início no século 19 e dura praticamente até hoje", disse.
Para o geógrafo da USP, com raras exceções, o brasileiro sempre teve vergonha de viver em país tropical. "Mas isso não significa que não tenhamos uma série de bom motivos para ainda ter esperança", afirmou.
Ao focar sua análise nos trópicos, e na obra do geógrafo francês Pierre Gourou (1900-1999), um grande estudioso da região tropical do mundo, tanto na Ásia como na África e na América do Sul, o professor Hervé Théry, do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França, e da Cátedra Pierre Monbeig da FFLCH-USP, tentou sustentar a tese de que o pessimismo tropical deve dar espaço a um otimismo sensato. Ou confiança moderada, para quem preferir.
Gourou mudou de posição na última etapa de sua vida, explica Théry. O autor de obras como Les pays tropicaux (1947) e Terres de bonne espérance (1982) passou a adotar em seus textos a idéia de transformação do espaço, antes vista como algo mais estático. "Nisso, ele percebeu a existência, na Amazônia, de territórios grandes e pouco povoados", disse.
Esses ingredientes, segundo o pesquisador francês em visita ao Brasil, aliados às técnicas de produção social, acabam por formar o tripé civilização, paisagem e transformação e permitem falar em uma "margem de progresso grande para o Brasil". Ao contrário dos anos 80, quando o ecologismo era deixado de lado em muitas análises, hoje ele está incorporado à análise geográfica do espaço, segundo Théry.
"Essa visão de desenvolvimento a partir da natureza também engloba a idéia de proteção do meio ambiente. E, em alguns casos, até mesmo na Amazônia, é importante que algumas áreas permaneçam intocadas", disse à Agência FAPESP.
Mais informações sobre o novo ciclo temático do IEA, inclusive com alguns textos que serviram de base para as primeiras conferências, podem ser obtidas no endereço www.iea.usp.br
A Agência FAPESP licencia notícias via Creative Commons (CC-BY-NC-ND) para que possam ser republicadas gratuitamente e de forma simples por outros veículos digitais ou impressos. A Agência FAPESP deve ser creditada como a fonte do conteúdo que está sendo republicado e o nome do repórter (quando houver) deve ser atribuído. O uso do botão HMTL abaixo permite o atendimento a essas normas, detalhadas na Política de Republicação Digital FAPESP.