Ana Bernarda Ludermir, da UFPE, mostrou em Olinda como a depressão e a violência doméstica podem andar arriscadamente juntas (foto: E.Geraque)

Traumatismos mentais coletivos

Estudo sobre transtornos mentais comuns, apresentado no 6º Congresso Brasileiro de Epidemiologia por Ana Bernarda Ludermir, da UFPE, mostra como depressão e violência doméstica podem andar arriscadamente juntas

24 de junho de 2004
Traumatismos mentais coletivos

Estudo sobre transtornos mentais comuns, apresentado no 6º Congresso Brasileiro de Epidemiologia por Ana Bernarda Ludermir, da UFPE, mostra como depressão e violência doméstica podem andar arriscadamente juntas

24 de junho de 2004

Ana Bernarda Ludermir, da UFPE, mostrou em Olinda como a depressão e a violência doméstica podem andar arriscadamente juntas (foto: E.Geraque)

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - Inspirados por autores como os da Escola de Chicago, muitos sociólogos costumam lembrar dos riscos da urbanização e da industrialização globalizada desse início de milênio. Ao contrário do passado, a vida, principalmente em grandes metropóles, tem se tornado agitada e impessoal.

"Para usar uma frase do Chico Science, a cidade não pára, a cidade só cresce. O de cima sobe e o de baixo desce", disse Ana Bernarda Ludermir, professora da Universidade Federal de Pernambuco, que estuda a questão dos transtornos mentais comuns na região metropolitana do Recife.

Ao apresentar um estudo realizado na cidade de Olinda (PE), a pesquisadora não apenas mostrou como a desigualdade social alimenta vários problemas mentais como ainda revelou alguns cruzamentos perigosos. Um deles, por exemplo, entre violência e problemas mentais, sendo a depressão e a alteração de humor duas das doenças mais freqüentes.

"O estudo realizado em Olinda mostrou que 35% da população tinha algum tipo de transtorno mental comum", mostrou Ana Bernarda. Desse universo, apenas 25,9% não sofreram nenhum caso de violência doméstica. Entre as que sofreram, 40,5% foram vítimas de agressões sexuais e 52,3% sofreram atos de violência física. Segundo ainda o estudo apresentado no 6º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, que terminou na quarta-feira (23/6), em Olinda, 63,8% das mulheres sofreram os dois tipos de agressão.

"As conseqüências de atos como esses parecem ser cumulativas", afirma Ana Bernarda. Para ela, em situações como essa, a mulher sofre uma perda muito grande, além de se tornar vulnerável, traída e com falta de esperança. Todos esses sentimentos se explicam, na opinião de pesquisadora, porque a violência partiu do companheiro, de alguém que privava da intimidade da vítima.

Além da violência doméstica, outros fatores como o desemprego, a escolaridade, as diferenças socioculturais e as de gênero também estão associados com os problemas mentais comuns, segundo o estudo apresentado em Olinda.

"De uma maneira geral, todas essas formas de exclusão estão associadas a sentimentos de depressão, humilhação, intolerância social, falta de controle e impotência". Segundo a Organização Mundial de Saúde, que alerta para a epidemia de depressão no mundo, essa doença deve ser a segunda causadora de morte até 2020.


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