Agência FAPESP - A exuberância de um manguezal guarda muitos segredos. Nesse ecossistema típico das zonas entremarés, que no Brasil começa a ocorrer em Santa Catarina e chega até a região Norte, não existe apenas lama e odor desagradável. São nesses locais que várias espécies de peixes vivem, que os catadores de caranguejo encontram sua sobrevivência e que uma floresta típica costuma crescer.
Entender o comportamento ecológico dos manguezais do Sistema Costeiro Cananéia-Iguape, no litoral sul do Estado de São Paulo, é um dos objetivos perseguidos pelo Centro de Ensino e Informação sobre Zonas Úmidas Costeiras Tropicais com Ênfase no Ecossistema Manguezal, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
O Bioma, como é conhecido o centro dirigido pela professora Yara Schaeffer Novelli, acaba de dar mais uma contribuição para a manutenção da ecologia dos manguezais paulistas, ambientes ainda em bom estado de conservação.
Trata-se do estudo da bióloga Marília Cunha Lignon, que lança novos olhares sobre os manguezais. "Realizamos diversas aproximações a partir de diferentes escalas espaço-temporais", disse a pesquisadora à Agência FAPESP. O estudo foi feito como tese de doutorado.
Por meio de imagens de satélites, feitas nas décadas de 1980 e 1990, e por monitoramento de bosques de mangue in loco, agora se pode compreender melhor como os manguezais se instalam na região. E algumas informações destoam das demais publicadas na literatura científica sobre o tema.
Segundo Marília, a planta Laguncularia racemosa (mangue branco) dominou áreas com mais predominância de lama, ao contrário do que era esperado. "Na baía de Trapandé (um das áreas geográficas do sistema) a Rhizophora mangle (mangue vermelho) colonizou áreas constituídas por areia", explica.
Esses dois tipos de colonização, mostrou o estudo, são determinados pelo tamanho dos propágulos (semente que é levada pela água do mar) de cada planta e pela energia presente no local, principalmente o fluxo dos rios e das marés. "A partir da visão obtida pelos satélites e dos experimentos em campo conseguimos propor um padrão de sucessão dos bosques de mangue", diz a bióloga.
A espécie pioneira, em ambas as situações, é a Spartina altenoflora, um tipo de gramínea que consegue colonizar com eficiência os bancos de sedimento emersos. À medida que os bosques se desenvolvem, esse tipo de vegetação inicial é substituído.
As espécies que chegam em seguida, seja o mangue branco, o vermelho ou a Avicennia schaueriana (mangue preto), serão responsáveis pela exuberante paisagem dos manguezais. Bosques bem desenvolvidos podem chegar a 10 metros de altura.
"Esses dados sobre novas colonizações e desenvolvimento dos bosques de mangue, ao longo de diversas escalas espaço-temporais, darão importantes subsídios à gestão ambiental daquele trecho do litoral", afirma Marília. Segundo ela, os manguezais do sul de São Paulo são os mais conservados do Estado.
"É fundamental que eles permaneçam assim. É preciso também planejar bem as atividades de pesca e de turismo na região, para que os valores biológicos e socioculturais da região sejam preservados", defende a pesquisadora do Bioma.
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