O gauchismo, assim como várias outras regionalidades do Brasil, renasceu após a redemocratização, mostra livro

Redescoberta da diferença
12 de abril de 2006

A globalização não acaba com a nação, pelo contrário. Discutir as transformações atuais do mundo, e do Brasil, é a idéia principal da edição ampliada de A Parte e o Todo - A diversidade cultural do Brasil-nação, conforme conta Ruben Oliven, autor da obra

Redescoberta da diferença

A globalização não acaba com a nação, pelo contrário. Discutir as transformações atuais do mundo, e do Brasil, é a idéia principal da edição ampliada de A Parte e o Todo - A diversidade cultural do Brasil-nação, conforme conta Ruben Oliven, autor da obra

12 de abril de 2006

O gauchismo, assim como várias outras regionalidades do Brasil, renasceu após a redemocratização, mostra livro

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - Os exemplos são múltiplos. A tensão entre mexicanos e estadunidenses por causa da migração ilegal. Os protestos na França. A discussão, também na Europa, sobre o uso ou não dos lenços nas escolas por parte das meninas muçulmanas. Apenas uma análise mais imediata poderá concluir que o mundo, realmente, está todo globalizado e todos caminham para uma cultura única.

"Realmente. Na verdade, a mundialização, ao contrário do que se pensa, reforça o local. E a modernidade que vai junto com ela reforça a tradição. A globalização faz com que a Nação seja extremamente importante e não o contrário", afirma Ruben George Oliven à Agência FAPESP, professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e presidente da Associação Brasileira de Antropologia entre os anos 2000 e 2002.

O importante antropólogo brasileiro (vencedor ainda do Prêmio Érico Vannucci Mendes), depois de mais de dez anos, resolveu ampliar e revisar seu livro A Parte e o Todo - A diversidade cultural no Brasil-nação, lançado no início dos anos 1990. A obra, na época, ganhou o título de melhor do ano, segundo a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). A nova versão que acaba de ser lançada é uma publicação da Editora Vozes.

"A idéia principal é discutir as transformações que estão ocorrendo no mundo. O livro vai contra uma tese fácil, e que virou senso comum, de que tudo está globalizado. Que todos nós somos iguais", afirma Oliven.

A partir de um pano de fundo formado pela tensão entre o universal e o local, o autor não se furta, no livro, de trazer suas reflexões para o Brasil. "Aqui tento mostrar como se forma a idéia de brasilidade. Na verdade, isso é um processo em andamento." Segundo Oliven, o Brasil, no início, era bastante desintegrado. E o movimento de construir uma identidade nacional, nos anos 1930, baseou-se na anulação da diversidade.

"O importante naquela época era falar da unidade do Brasil. Para não acontecer como nos outros países da América Latina, que se fragmentaram. Não era bom falar de diferenças. O Getúlio Vargas, por exemplo, mandou queimar todas as bandeiras estaduais durante o Estado Novo."

Segundo o antropólogo, apenas com a redemocratização do país é que as regionalidades começaram a surgir novamente. O exemplo discutido com profundidade no livro vem do próprio estado do escritor. "Resolvi também estudar o Rio Grande do Sul, quase como teste. Para mostrar como ele é um estado peculiar. Uma região de fronteira que ficou sempre entre Espanha e Portugal. Ele pertence ao Brasil, mas é cheio de especificidades".

Desde os anos 1970, o livro mostra como o "gauchismo" renasceu. Esse movimento, atualmente, é responsável por quase 2,5 mil centros de tradição gaúcha (CTGs), tanto no próprio Rio Grande como Brasil e no exterior. "Mostro no livro que tudo isso está ocorrendo em um estado que é moderno, urbano, mas que as pessoas fazem referência ao passado. Elas falam do cavalo, mas querem também o cavalo para montar."

Segundo Oliven, não é apenas no Sul do país que essas especificidades estão emergindo. "Tanto a nação, como a região, querem a modernidade, mas precisam da tradição para se construir. Para fazer algo que é moderno, tu tens que lançar mão de algo que é quase mítico, dos nossos índios, antepassados e assim por diante."

Junto com a afirmação dos grupos gays, das mulheres e das religiões, as regionalidades também não têm mais motivo para ficarem escondidas. "O exemplo da Festa de São João no Nordeste é perfeita. A população não apenas comemora, e sai às ruas para isso, mas faz questão também de mostrar tudo para o turista. Olha! Vejam! É isso que temos de diferencial. E isso ocorre em lugares já urbanizados, com televisão e uma série de outras coisas ditas modernas."


  Republicar
 

Republicar

A Agência FAPESP licencia notícias via Creative Commons (CC-BY-NC-ND) para que possam ser republicadas gratuitamente e de forma simples por outros veículos digitais ou impressos. A Agência FAPESP deve ser creditada como a fonte do conteúdo que está sendo republicado e o nome do repórter (quando houver) deve ser atribuído. O uso do botão HMTL abaixo permite o atendimento a essas normas, detalhadas na Política de Republicação Digital FAPESP.