A parte sul de Belém é a que mais dialoga com o rio
(Foto: Prefeitura de Belém)

Portas entreabertas para o rio

Geográfos da Universidade Federal do Pará analisam processos de intervenção feitos nos últimos anos na orla de Belém. Em vez da metáfora oficial de "janelas para o rio", os pesquisadores acreditam que o melhor caminho é incluir as necessidades dos ribeirinhos

30 de janeiro de 2004
Portas entreabertas para o rio

Geográfos da Universidade Federal do Pará analisam processos de intervenção feitos nos últimos anos na orla de Belém. Em vez da metáfora oficial de "janelas para o rio", os pesquisadores acreditam que o melhor caminho é incluir as necessidades dos ribeirinhos

30 de janeiro de 2004

A parte sul de Belém é a que mais dialoga com o rio
(Foto: Prefeitura de Belém)

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - As construções na orla de Belém (PA) sintetizam a própria história da cidade. As águas amazônicas da Baía do Guajará, do Marajó e do rio Guamá testemunharam vários fatos históricos desde a fundação da cidade em 12 de janeiro de 1616.

Com o passar dos anos, entretanto, parte da capital paraense deu as costas para o rio, conforme revela um estudo que será concluído em março por um grupo de geógrafos da Universidade Federal do Pará (UFPA).

"Está tudo na orla. O ciclo da borracha, por exemplo, permanece representado até hoje pelo Mercado do Ver-o-Peso", explicou à Agência FAPESP Saint-Clair da Trindade Júnior, professor do departamento de geografia da UFPA e coordenador do projeto Apropriação do espaço e controle do uso do solo na orla fluvial de Belém: intervenções, planejamento e gestão urbana, que está em andamento desde 2001.

"O mesmo vale para o período da fundação da cidade ou para o momento em que as ordens religiosas chegaram a Belém. Os anos mais recentes, quando o comércio aumentou bastante na região portuária, também estão registrados na orla", disse o geógrafo paraense. Para o pesquisador, até a exclusão social, representada pela favelização na cidade, pode ser encontrada nas margens da Baía do Guajará.

Se parte da cidade acabou negando a orla, o que provocou uma grande apropriação privada de várias áreas na margem fluvial de Belém, em alguns redutos públicos os ribeirinhos ainda dialogam com o rio. "O estudo identificou quatro regiões bem marcadas", explica Trindade Júnior. Duas delas, oeste e norte, foram dominadas pelas empresas de grande porte.

A zona central é representada pelo Mercado Ver-o-Peso e pela Estação das Docas, grande intervenção feita pelos setores público e privado próxima à zona portuária da cidade, nos moldes do que ocorreu no exterior. Buenos Aires, Lisboa e Sydney, por exemplo, também transformaram áreas decadentes em regiões de lazer para a população. Em Belém, o poder oficial chamou essas intervenções de "janelas para o rio".

"As janelas são importantes, claro. Mas na nossa opinião seria melhor que as portas para o rio, que já existem na cidade, fossem mais valorizadas" afirma o geógrafo da UFPA. O pesquisador se refere a outra zona identificada pelas pesquisas do grupo de geografia humana. "Na zona sul, às margens do Guamá, as comunidades ribeirinhas se utilizam do rio no seu dia-a-dia. Os pequenos portos, muitas vezes, funcionam em regime precário", disse.

Apoiado nos resultados da investigação científica, o pesquisador não tem dúvidas em afirmar que Belém precisa deixar de ser uma cidade beira-rio para voltar a ser uma cidade ribeirinha.

"Os projetos de intervenção na zona central da cidade são feitos mais para os turistas. Eles obedecem mais a um sentido contemplativo do rio. Será que se o porto do Açaí, por exemplo, na zona sul, fosse melhorado, não serviria tanto para o dia-a-dia e para o imaginário dos ribeirinhos como para os turistas apreciarem a verdadeira Belém?", questiona Trindade Júnior.


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