Apesar de o índio ter um espaço consolidado no imaginário brasileiro, a heterogeneidade dos povos indígenas e os problemas de saúde que os acometem ainda são pouco conhecidos
Apesar de o índio ter um espaço consolidado no imaginário brasileiro, a heterogeneidade dos povos indígenas e os problemas de saúde que os acometem ainda são pouco conhecidos
Agência FAPESP - O índio tem uma grande visibilidade simbólica no imaginário brasileiro. Entretanto, quando a questão é reconhecer a heterogeneidade das populações indígenas e, principalmente, as epidemias que as afetam, os dados ainda são poucos e mal trabalhados.
O consenso dos pesquisadores reunidos no último dia da 58ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no simpósio "Saúde indígena: desafios interdisciplinares no mundo contemporâneo", aponta para a necessidade de se olhar as particularidades de cada grupo étnico.
"Entre os muitos desafios para garantir que a manutenção da saúde indígena seja mais eficiente está a formação de agentes de saúde capazes de lidar com as diferenças entre os grupos", disse a antropóloga Esther Jean Langdon, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Dados apresentados por Ricardo Ventura Santos, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, mostram que, apesar de a mortalidade infantil indígena ter decrescido a partir de 2000 – quando houve um grande investimento em políticas públicas para contornar o problema no país –, o índice de mortes de crianças indígenas ainda é bastante superior ao de não-indígenas.
Segundo ele, em 1999, de mil crianças indígenas nascidas, 96,8 morreram antes de completar 1 ano, enquanto no restante da população esse número foi de 29,1. Em 2000, foram 74,6 mortes indígenas contra 28,2 de não-indígenas e, no ano seguinte, 56,5 para 27,4.
Ao lado da mortalidade infantil, problemas como anemia e desnutrição têm taxas muito mais elevadas entre as populações indígenas do que na população geral brasileira.
De acordo com a antropóloga da UFSC, a cultura não pode ser um obstáculo para que os conhecimentos médicos beneficiem as populações indígenas. Mas é preciso, sobretudo, reconhecer a eficiência e respeitar a medicina tradicional de cada grupo. "A proposta é que a medicina ocidental não substitua, mas seja somada às práticas médicas indígenas", afirmou.
Para os especialistas presentes no simpósio, uma maneira de lidar com as diferenças entre os conhecimentos médicos seria capacitar agentes de saúde dentro das próprias comunidades, municiando-os de conhecimentos e recursos técnicos.
Desse modo, caberia a esses agentes identificar comportamentos de risco e tomar medidas preventivas sem que as crenças e os ritos dos povos sejam afetados, criando, em última instância, uma prática medicinal híbrida que garantisse a saúde da população indígena.
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