Ivan Vilela é o professor do inédito curso de bacharelado para viola caipira (foto: arquivo pessoal)

Pela porta da frente
11 de fevereiro de 2005

Em entrevista à Agência FAPESP, Ivan Vilela, da USP, fala sobre o curso de viola caipira que a universidade está abrindo em Ribeirão Preto, o primeiro do mundo no gênero, e explica as particularidades do secular instrumento

Pela porta da frente

Em entrevista à Agência FAPESP, Ivan Vilela, da USP, fala sobre o curso de viola caipira que a universidade está abrindo em Ribeirão Preto, o primeiro do mundo no gênero, e explica as particularidades do secular instrumento

11 de fevereiro de 2005

Ivan Vilela é o professor do inédito curso de bacharelado para viola caipira (foto: arquivo pessoal)

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - Ivan Vilela aprendeu música na prática e, depois, na teoria. Primeiro dedicou-se ao violão e depois à viola, instrumento que toca até hoje. Natural de Itajubá (MG), vizinho de um folião quando criança, irmão de um "revolucionário dos anos 60" que gostava de Bob Dylan e Geraldo Vandré e de outro que era apaixonado pelos Beatles, o artista recebeu de várias influências.

Sempre cultivando a paixão pela pesquisa, Vilela não fechou seu foco apenas no instrumento que dedilha com precisão. Ele mergulhou por completo no universo do sertanejo, principalmente depois que resolveu escrever uma ópera caipira. Seus estudos, mesmo indiretamente, provocaram a criação de um curso de bacharelado para viola caipira, o primeiro de que se tem notícia no mundo.

Vilela será o professor dos alunos que freqüentarão as aulas a partir de março no campus da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Em entrevista à Agência FAPESP, o músico, que também é responsável pela orquestra de viola caipira de Campinas, cidade onde mora, fala sobre o inédito curso, a história do instrumento e o significado simbólico do universo caipira.


Agência FAPESP – Como surgiu a idéia de criar um curso para viola caipira na USP?
Ivan Vilela - Os professores do núcleo de musicologia da universidade já vinham, por meio de pesquisas, encontrando várias evidências do uso da viola na música colonial, mas ainda não tinham uma idéia clara de como andava a viola no Brasil. Era costume achar que fosse uma coisa mais ligada à música caipira, ao mundo rural e que não tivesse um grande aprimoramento técnico.

Agência FAPESP – Isso não é verdade?
Vilela – Não. A viola está muito desenvolvida em vários rincões do Brasil. E isso foi percebido por pesquisadores da própria USP, curiosamente, em Lisboa, a própria terra da viola. Então, em novembro de 2003, fui convidado por uma ONG de Campinas, que tem um núcleo de cultura caipira, para participar do encontro "Sonoridades Afro-Luso Brasileiras", na capital portuguesa. Foi desse encontro que surgiu a idéia do curso.

Agência FAPESP – Mas a viola hoje no Brasil não está realmente restrita apenas ao mundo rural?
Vilela – Essa é uma ligação bem forte, mas isso é apenas uma evidência dos últimos tempos. A partir do século 18, diversas práticas urbanas foram migrando para o campo. As folias, principalmente do divino, eram festas das Igrejas da Sé do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Salvador. Com a romanização da Igreja Católica no século 19, quando ocorreu uma espécie de limpeza desse catolicismo popular – uma limpeza de valores éticos –, essas manifestações foram sendo proibidas e acabaram migrando para o campo. Vários ritmos também foram: a própria mazurca, a quadrilha e as danças de salão como um todo seguiram esse caminho. A viola, que também fazia parte desse universo, não teve como escapar.

Agência FAPESP – Esse foi o percurso do instrumento por aqui?
Vilela – Trazida pelos jesuítas portugueses no fim do século 16, a viola foi largamente utilizada durante o período colonial no Brasil, embora tenhamos poucas pesquisas sobre isso. É um instrumento muito antigo, o principal entre os de cordas em Portugal. Na Renascença, o instrumento teve uma expansão muito grande. Era tocado na corte de uma maneira mais elegante, como se vê nas obras dos compositores espanhóis e portugueses do período. A viola é ibérica e era muito tocada também no meio do povo. O próprio Gil Vicente disse que a viola era um instrumento de escudeiros. Existe até uma história que, depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, foram encontradas cerca de 10 mil violas quebradas. Pode existir um exagero nessa quantidade, mas ela demonstra bem a paixão que o povo português tinha pela viola.

Agência FAPESP – A forma de tocar também era igual na corte e entre o povo?
Vilela – No meio do povo ela era tocada de modo mais rasgado, como se costuma dizer. Na corte existia a forma ponteada, parecida com o ponteio que se tem hoje. Era mais refinada. Os estilos eram diferentes mas os gêneros não.

Agência FAPESP – A qualificação caipira para a viola sempre existiu no Brasil? Vilela - Não existia o termo "viola caipira" quando o instrumento chegou por aqui. A viola no Brasil tem vários nomes: viola sertaneja, viola cabocla, viola caipira, viola de dez cordas, viola nordestina ou viola de arame. Desde o início, o eixo formado por Mato Grosso, Goiás, Triângulo Mineiro, sul de Minas, São Paulo e norte do Paraná acolheu a viola, e ela passou a ser, especialmente no caso de São Paulo, fundamental para a afirmação da cultura caipira. Esse tipo de música começou a ser gravado em 1929 e foi um gênero de grande vendagem, como produção independente, fazendo com que a viola tenha se autenticado e com que acabasse ficando o termo caipira. Na realidade, existem vários termos e o mais correto seria viola de cinco ordens.

Agência FAPESP – Existe uma metodologia definida para tocar a viola?
Vilela - Não. A forma de o violeiro tocar e construir música é bastante diversa. O que faço, e tento fazer com os alunos, é tocar tudo isso. Dada a diversidade de afinações que tem a viola, se desenvolvemos uma metodologia a partir de uma das afinações, é provável que daqui a quarenta anos as outras vinte e tantas afinações deixem de existir.

Agência FAPESP – Quantas são as formas de se afinar uma viola?
Vilela - Entre os troncos principais há o cebolão, por exemplo. Os homens, quando inventaram essa afinação, diziam que o som era tão bonito que fazia as mulheres chorar. Dentro do cebolão há a afinação boiadeira, a cana-verde e a paraguaçu, que são próximas. Você muda a altura de uma corda ou de outra. Depois tem o rio abaixo. Tem a guitarra, a meia guitarra. Tem a natural, que é parecida com o violão. Existem no Brasil entre vinte e vinte e cinco afinações. Para tocar música caipira, o cebolão é a afinação mais predominante. No norte de Minas, o mais comum é o rio abaixo.

Agência FAPESP – Qual será a estrutura do curso de licenciatura em viola caipira na USP?
Vilela – O vestibular foi há pouco e os primeiros alunos chegarão em março. Em Ribeirão Preto existem 30 vagas para bacharelado de violoncelo, violão, violino, piano, canto e viola. Não existe uma cota para cada um dos instrumentos. Este ano devem entrar três alunos para estudar viola. O curso é de música erudita e o grosso das matérias é comum. Esse curso voltado para viola caipira é inédito no mundo. Nos Açores, na costa africana, você tem a viola no conservatório, mas em nível técnico. Em universidade é a primeira vez.

Agência FAPESP – Trata-se então de um casamento entre o erudito e o popular?
Vilela - É bacana que a viola esteja entrando pela porta da frente na academia. É a baixa cultura entrando no templo da alta cultura. Ainda existe um distanciamento, totalmente desnecessário, desses dois mundos. Fui recentemente curador de um prêmio nacional de música instrumental de viola. Foram seis etapas e o vencedor foi um pedreiro de 24 anos, que está prestando agora o vestibular. O nome dele é Sidnei de Oliveira, de Caxias do Sul (RS). A procura deve aumentar à medida que o curso tenha mais visibilidade.

Agência FAPESP – De que precisa o aluno que estiver interessado em estudar por quatros anos a viola caipira? Os chamados músicos práticos, por exemplo, têm chances?
Vilela - O aluno precisa ter um conhecimento básico de teoria musical. Saber ler , ter um conhecimento mínimo de percepção, de apreciação musical, e conhecer o mínimo da história da música. Além, claro, dos conhecimentos gerais básicos necessários para ser aprovado no vestibular. Depois que estiver dentro da universidade, o estudo será total. O aluno sairá um músico de formação erudita capaz de tocar um instrumento de uso popular. Na USP, ele terá a oportunidade de estudar a música colonial e as diversas maneiras antigas de se tocar o instrumento.

Agência FAPESP – Podemos dizer que a música que hoje atinge as paradas de sucesso é a caipira que virou sertaneja?
Vilela – Não é bem assim. A música sertaneja é a caipira mesmo. O que existe hoje é o romântico sertanejo. É um outro segmento que está muito mais próximo da música romântica, de certa forma até da Jovem Guarda, do que da música caipira. Não tem viola, não tem nada. A única coisa que eles ainda mantêm são as duas vozes, com excesso de vibrato, até. Mas não tem mais nada a ver.

Agência FAPESP – Mas há quem diga que essas duplas de sucesso são protagonistas de um movimento para resgatar a música caipira.
Vilela – Imagine um grande aquário com um tubarão muito esperto, que vai atrás de onde há comida. No momento em que as vendas começaram a cair, nos últimos quatro anos, começou-se a perceber que havia um crescimento da música caipira – que está sendo chamada de raiz – e passou então a existir esse aparente resgate. Mas, para alguém que realmente trabalha na música de raiz, a referência é a própria raiz. O artista caipira é um cavalo difícil de domar. A realidade é que a grande maioria dos violeiros permanece inédita. São músicos alternativos, que gravam mil cópias que poucos ouvem.


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