O ato de viajar como exercício de contemplação | AGÊNCIA FAPESP

Livro investiga uma teoria poética da viagem nas crônicas de Cecília Meireles (foto: Wikimedia)

O ato de viajar como exercício de contemplação

09 de fevereiro de 2015

Por José Tadeu Arantes

Agência FAPESP – Em sua última entrevista, concedida em maio de 1964 ao jornalista e escritor Pedro Bloch, alguns meses antes de morrer, Cecília Meireles (1901–1964), a grande poeta de Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Romanceiro da Inconfidência (1953) e tantas outras obras definidoras da literatura brasileira, explicou, em um longo parágrafo, seu amor pela viagem.

“Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano”, disse.

E prosseguiu, exemplificando: “Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As canções de Tagore, que tanta gente canta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires. O impacto de Israel também foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibração, um país em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem à tona pelas escavações. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isaías, andar onde andou Jeremias … Visitar Nazaré, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterdã, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impressão de que não estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões. Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente”.

Esse olhar de viajante, que Cecília registrou em crônicas duradouras, foi também a atitude que sustentou sua produção poética. E crônica e poesia dialogaram em sua obra, em mútua influência, compondo uma identidade literária inconfundível.

Este é o ponto de vista de Luís Antônio Contatori Romano, autor do livro A poeta-viajante: uma teoria poética da viagem contemporânea nas crônicas de Cecília Meireles, publicado com apoio da FAPESP. O livro é resultado de pesquisa de pós-doutorado, realizada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP) sob a orientação de Telê Ancona Lopes.

Doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com tese sobre a passagem de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir pelo Brasil em 1960, Romano é professor na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Também viajante inveterado, com mais de 80 países visitados até o momento, ele chegou a publicar um livro de crônicas de viagem em 2007: Reminiscências de um viajante.

“A facilidade de viajar e o grande número de matérias jornalísticas dedicadas ao turismo obscureceram hoje a importância da literatura de viagem como texto literário. A proposta do estudo foi mostrar que, nas crônicas de viagem de Cecília Meireles, existem elementos de percepção e linguagem que as distinguem do mero escrito turístico, e as elevam à condição de literatura”, disse Romano à Agência FAPESP.

Citando o escritor alemão Hans Magnus Enzesberger (nascido em 1929), ele sintetizou em seu livro aquilo que poderia ser chamado de atitude do turista: “As idealizações românticas da paisagem, da história incontada e das viagens de descoberta continuam a ser, segundo Enzesberger, as imagens-guias do turismo até hoje. Mas o turista almeja, ao mesmo tempo, o atingível e o inacessível, o distante da civilização e o seu conforto. Dessa forma, a viagem turística exclui riscos e torna-se imagem da imagem da viagem construída sob o olhar romântico, simulacro de segunda ordem”. E, adiante, acrescenta: “O souvenir é uma possível garantia de que o lugar distante foi alcançado, não raro, no conforto do hotel, que é o lar melhorado”.

Em contraposição ao turista, que, segundo suas palavras, “é alguém essencialmente preocupado com o retorno”, Romano constrói em seu livro a figura do viajante: “Diferentemente do turista, o viajante se deleita não com o movimento entre paisagens, mas em pormenores de cada coisa contemplada (...) Assim, a singularidade do olhar do viajante se aproxima de uma ‘experiência poética’”.

Eram essas pequenas iluminações – se podem ser chamadas assim – que Cecília buscava, embora, como ocorre com qualquer pessoa, também nela e em seus textos as figuras do turista e do viajante às vezes se embaralhassem.

“Hoje, é fácil ir a Veneza ou a Mumbai, lugares a que Cecília Meireles também foi, mas o que a distingue é o olhar singular e a forma como aquilo que ela registra é plasmado na linguagem literária. Por isso, suas crônicas de viagem jamais são textos datados e, portanto, ultrapassados”, comentou Romano.

Além de poeta, Cecília exerceu as atividades de jornalista e professora. E isso lhe proporcionou convites que vieram ao encontro de seu amor por viajar. Por exemplo, ela fez sua famosa viagem à Índia em 1953, a convite do então primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru, para participar de um congresso pacifista em homenagem a Gandhi. Antes disso, na década de 1940, passou algum tempo nos Estados Unidos, convidada a ministrar um curso sobre literatura e cultura brasileiras na Universidade de Austin, no Texas. E, de lá, foi ao México. A essas viagens patrocinadas acrescentaram-se aquelas que a poeta fez por conta própria, visitando Europa, Israel, América do Sul.

“Uma marca de Cecília é a da contemplação, do impulso para ultrapassar o passageiro e atingir aquilo que fica. Nessa busca do permanente existe uma evidente valorização da arte: a arquitetura, a pintura. E também a valorização das relações interpessoais”, disse Romano.

“Ela tinha amizade com muita gente. Entre tantas pessoas, com vários escritores, do Brasil e do exterior: Mário de Andrade, Manoel Bandeira, o mexicano Alfonso Reyes, a chilena Gabriela Mistral, o português Armando Côrtes-Rodrigues, para citar apenas alguns.” Possivelmente, Cecília foi também a primeira leitora, no Brasil, de Mensagem, a obra fundamental de Fernando Pessoa, publicada em Portugal em 1934.

Sem ter sido uma intelectual, no sentido acadêmico da palavra, Cecília também acumulou uma vasta cultura, não pelo gosto da erudição, mas para alcançar uma verdade que a transcende. Na entrevista já citada, afirmou: “Viagens, folclore e idiomas são uma espécie de constante em minha vida. Comprei livros e discos de hebraico. Estudei hindi, sânscrito. O desejo de ler Goethe no original me obrigou a estudar alemão. Não estudo idiomas para falar, mas para melhor penetrar a alma dos povos”.

“Cecília, por amor ao instante, deseja paralisá-lo para a eternidade”, sintetizou Romano no último parágrafo de seu livro.

A poeta-viajante: uma teoria poética da viagem contemporânea nas crônicas de Cecília Meireles
Autor: Luís Antônio Contatori Romano
Editora: Intermeios
Páginas: 372
Preço: R$ 48,00

Mais informações: http://www.intermeioscultural.com.br/#!a-poeta-viajante/c1uno
 

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