Do ponto de vista geral, como explica Cibele Yahn de Andrade, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (Nepp) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a análise do setor permite afirmar que a expansão do ensino privado tende, de forma clara, ao esgotamento. As escolas particulares, segundo a pesquisadora, são as grandes responsáveis pelo elevado crescimento do ensino superior identificado na última década.
As estatísticas oficiais mostram que, no Brasil, entre 1998 e 2002, o número de alunos matriculados no ensino superior saltou de 2 milhões para 3,47 milhões. Desses últimos, a maior parte, 67,5%, é absorvida pelas escolas privadas. "Um dos desafios é enfrentar essa situação. A parcela da população que pode pagar está sendo atendida pelas universidades particulares. Mas, como o ensino público cresceu em taxas muito menores, os que não têm recursos econômicos para gastar com o ensino continuam excluídos", disse Cibele à Agência FAPESP.
Para discutir a profundidade dos desafios que existem e tentar entender como o país pode beneficiar aqueles que querem continuar os seus estudos e até mesmo discutir o papel das universidades e instituições de ensino superior, a Agência FAPESP dá início a uma série de reportagens especiais e entrevistas sobre a reforma do ensino superior. Se o consenso sobre ela existe, saber para onde terá que caminhar é ainda desconhecido, uma vez que os atores envolvidos com o complexo sistema ainda precisam debater melhor as direções.
O dilema entre os sistemas público e privado afeta a muitos, como a Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. Em apresentação realizada no ano passado durante a Reunião Anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs) o pesquisador falou sobre essa que é uma de suas principais preocupações.
"O ensino privado está em crise, pois não consegue se expandir para as classes economicamente menos favorecidas. Do outro lado, o ensino público, devido à formação ruim no curso secundário, também poderá ter problemas caso sofra uma expansão muito rápida", disse Schwartzman. A preocupação do pesquisador é que ocorra no terceiro grau o mesmo processo de degradação qualitativo registrado nos ciclos básico e fundamental nas últimas décadas.
A pressão sobre o ensino superior, lembra Cibele, também deve subir nos próximos anos, pois o número de egressos no ensino médio não pára de aumentar. O espaço de crescimento é igualmente grande, uma vez que o Brasil tem hoje apenas 14,7% da população entre 18 e 24 anos matriculada no ensino superior.
Se a complexidade presente no cenário do ensino superior é alta, considerando-se apenas as questões econômicas, outros pontos trazem mais interrogações. A qualidade do ensino, as diversas formas de instituições presentes no terceiro grau e assuntos como autonomia e cotas para as minorias também serão debatidos nessa série, que traz em sua abertura uma entrevista com o ministro da Educação Tarso Genro.
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