Foto: Miguel Boyayan

Interações fitoterápicas
27 de novembro de 2003

Participantes do Simpósio Internacional sobre o Uso de Plantas Medicinais em Psiquiatria, que termina nesta sexta (28/11), em São Paulo, olham para a história para compreender as mudanças da fitoterapia. "No passado, o café foi proibido por acharem que causava alucinações ou malefícios à saúde", disse Hamid Ghodse, da Universidade de Londres

Interações fitoterápicas

Participantes do Simpósio Internacional sobre o Uso de Plantas Medicinais em Psiquiatria, que termina nesta sexta (28/11), em São Paulo, olham para a história para compreender as mudanças da fitoterapia. "No passado, o café foi proibido por acharem que causava alucinações ou malefícios à saúde", disse Hamid Ghodse, da Universidade de Londres

27 de novembro de 2003

Foto: Miguel Boyayan

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - Muito antes de a tecnologia entrar em contato com o café – e imprimir um ritmo industrial ao consumo do produto –, os intelectuais já usavam bastante a bebida para estimular as faculdades mentais. No remoto século 11, os cientistas conseguiram identificar propriedades medicinais na planta, que era bastante consumida no Oriente e na África.

"A relação que havia para o café e suas propriedades é a mesma que se tem hoje com algumas drogas proibidas. No passado, a bebida também foi proibida, por acharem que causava alucinações ou malefícios à saúde", disse Hamid Ghodse, professor de psiquiatria da Universidade de Londres, na conferência de abertura do primeiro Simpósio Internacional sobre o Uso de Plantas Medicinais em Psiquiatria, nesta quinta-feira (27/11), em São Paulo.

Não é apenas a história do café, de acordo com o pesquisador iraniano, que é emblemática para as discussões sobre o uso das plantas medicinais nos dias de hoje. Os rituais envolvendo cogumelos, maconha ou folhas de coca também servem para mostrar que o uso das plantas para combater problemas de saúde existe há muitos séculos. Para Ghodse, com o tempo, enquanto algumas plantas mostraram ter um papel medicinal importante, outras se revelaram mais nocivas do que benéficas.

Na opinião do cientista, que é consultor da Organização Mundial de Saúde em assuntos ligados à dependência de drogas e ex-presidente do International Narcotics Control Board, também ligado à Organização das Nações Unidas, as interações dos fitoterápicos com a tecnologia e com as sociedades modernas está provocando diversas mudanças na história do uso das plantas medicinais.

Se o interesse no passado cresceu pelo baixo custo da utilização de plantas, hoje, com a incorporação da fitoterapia pelas indústrias farmacêuticas, esse quadro mudou. "Estamos vendo o investimento de milhões e milhões de dólares em pesquisas, sem falar na corrida por patentes. Tudo isso encarece o processo", disse Ghodse.

No cenário brasileiro, segundo João Carlos Dias, coordenador do departamento de dependência química da Associação Brasileira de Psiquiatria, que também participou do simpósio, um dos grandes problemas ainda é o controle de qualidade dos medicamentos feitos à base de plantas.

"A ciência vem da natureza. A aspirina surgiu de uma planta. O que as pessoas precisam entender é que um fitoterápico é um fármaco com todas as suas características. As farmácias de manipulação, por exemplo, precisam ser controladas", alerta o psiquiatra.

Para Dias, os pacientes ainda têm uma visão inocente de que os remédios fitoterápicos são absolutamente naturais e que não vão causar nenhum tipo de efeito colateral.


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