Batizada de ‘Maria’, nova espécie de anfíbio homenageia o nome mais popular do Brasil

Denominação de cobra-cega exclusiva do Rio de Janeiro também reverencia mulher escravizada que ajudou a reflorestar a Tijuca

Batizada de ‘Maria’, nova espécie de anfíbio homenageia o nome mais popular do Brasil
Embora por fotos possam se parecer com minhocas, as cecílias são vertebrados, ou seja, possuem esqueleto, além de serem muito maiores (foto: Miguel Relvas Ugalde)

André Julião | Agência FAPESP – Maria, o nome feminino mais popular do Brasil e do mundo, foi escolhido para batizar uma nova espécie de cecília – um tipo de anfíbio popularmente chamado de cobra-cega. A ideia dos pesquisadores ao escolher o nome, Siphonops maria, é popularizar esse animal, pouco conhecido até mesmo por pesquisadores da área.

“Eu mesmo só vi no campo uma vez”, conta o especialista em anfíbios Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) apoiado pela FAPESP e um dos coautores do trabalho, publicado no Zoological Journal.

A nova espécie foi descoberta a partir de exemplares coletados no Rio de Janeiro. Seu nome, inicialmente, é uma homenagem a uma Maria específica, parte do grupo de 11 pessoas escravizadas que, entre 1861 e 1874, plantaram mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca. A área viria a fazer parte do Parque Nacional da Tijuca, a maior floresta urbana replantada do mundo.

“Acabou sendo também uma homenagem às mulheres do Brasil, uma vez que é o nome mais popular do país e um dos mais utilizados no mundo. Aqui há mais de 12 milhões de Marias. Todo mundo conhece uma; por exemplo, a minha mãe e quase todas as minhas tias se chamam Maria”, conta Adriano Oliveira Maciel, pesquisador do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), em Belém, e primeiro autor do trabalho.

As cecílias são anfíbios de hábitos fossoriais, ou seja, vivem majoritariamente debaixo da terra. Com olhos reduzidos, têm uma visão limitada (o nome cecília deriva do latim caecus, “cego”), mas dispõem de órgãos sensoriais na cabeça que percebem o ambiente. As características morfológicas (do corpo) são muito semelhantes entre as espécies, o que dificulta a diferenciação entre elas a olho nu.


Com cerca de 20 centímetros, a cecília maria (Siphonops maria) é menor que espécies evolutivamente próximas (foto: Miguel Relvas Ugalde)

Ferramentas genéticas e de microtomografia, porém, têm ajudado nos últimos anos a esclarecer melhor a evolução do grupo. Esse tipo de trabalho, no entanto, ainda depende da reunião de vários exemplares para comparação, o que pode levar anos.

O holótipo da nova espécie, ou seja, o indivíduo que serve como referência para o grupo como um todo, foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, e depositado no MPEG.

“Inicialmente, pensava-se que se tratava da espécie Siphonops hardyi”, conta Maciel. “Quando o recebi, porém, notei que o número de anéis corporais e a dentição eram diferentes do que era conhecido para aquela espécie. Ao sequenciarmos alguns genes usados para diferenciar espécies, confirmamos que se tratava de uma linhagem diferente”, revela.

Coletada ainda em 1902

Com o tempo, outros colaboradores, como Toledo, da Unicamp, conseguiram mais indivíduos com morfologia externa muito similar. Em 2018 e em 2022, anos após aquele exemplar da Serra dos Órgãos ser encontrado, Maciel foi até o Museu de História Natural de Paris e ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, analisar outras cecílias do gênero para comparar com a então possível nova espécie.

“Foi então que encontrei exemplares identificados como S. hardyi, mas que tinham as características de S. maria, um deles coletado em 1902 na Serra dos Órgãos”, diz.

Além dos dados genéticos e da morfologia externa, o uso de tomografia computadorizada de alta resolução contribuiu para caracterizar a nova espécie. O exame do esqueleto do animal por meio da técnica permitiu visualizar sutis características do crânio que também a diferenciam de espécies próximas.


Distribuição de algumas cecílias do gênero Siphonops: Siphonops maria (círculos brancos), S. hardyi (cruzes roxas), Siphonops sp. 1, possível nova espécie de Ubatuba (triângulos vermelhos) e Siphonops sp. 2 (círculos laranjas), potencial nova espécie do Espírito Santo. Estrelas se referem ao local onde holótipo de cada uma foi encontrado (ilustração: Maciel et al.)

O conjunto de análises foi além de descrever uma nova espécie. No trabalho de comparação com outros gêneros da mesma família, os pesquisadores observaram que o gênero Luetkenotyphlus não se distinguia de Siphonops, o gênero da cecília maria. O estudo, portanto, coloca o gênero Luetkenotyphlus como um sinônimo de Siphonops.

“As três espécies que até então pertenciam ao gênero Luetkenotyphlus passam a se chamar Siphonops brasiliensis, S. fredi e S. insulanus”, esclarece Maciel.

Ao comparar a nova espécie – ao que tudo indica exclusiva do Estado do Rio de Janeiro – com outras, os pesquisadores encontraram duas outras linhagens de cecílias que se assemelhavam a S. hardyi e que potencialmente podem ser duas novas espécies. Uma delas foi detectada a partir de exemplares coletados em Ubatuba, no litoral paulista. Outra, nos municípios de Castelo e Domingos Martins, no Espírito Santo.

“No entanto, não temos amostras de Porto Real [RJ], localidade do holótipo de S. hardyi, nem o holótipo em si, para confrontar com esses exemplares de Ubatuba e Domingos Martins. Além disso, pelo menos mais dois espécimes de Porto Real estão depositados no Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido. Esses espécimes foram coletados no Brasil no século 19 e levados para a Inglaterra. Pedimos para retirar um pequeno pedaço de tecido que pudesse ser sequenciado por técnicas modernas que extraem DNA de amostras degradadas, mas o museu não deu autorização”, conta Toledo.

A coleta de material científico em países do Sul Global para o armazenamento em instituições do Norte começou no período colonial, mas continua a ocorrer. Entre outros problemas, a prática dificulta aos países em desenvolvimento conhecer sua própria biodiversidade. Nos últimos anos, cientistas do Sul Global têm proposto formas de mitigar ou sanar o problema, como a facilitação do acesso ou mesmo a repatriação dos exemplares levados (leia mais em: agencia.fapesp.br/58688, agencia.fapesp.br/59110 e agencia.fapesp.br/56292).

Outra forma de confirmar se as linhagens de Ubatuba e do Espírito Santo são novas espécies é buscar e analisar mais exemplares com as mesmas características em outros pontos da Mata Atlântica. “Isso pode levar mais alguns anos, mas seguimos buscando”, encerra Maciel.

O artigo Phylogenetic and osteological assessment of specimens assigned to Siphonops hardyi (Gymnophiona: Siphonopidae), with the description of a new species from Rio de Janeiro, Brazil pode ser lido em: academic.oup.com/zoolinnean/article-abstract/208/1/zlag136/8777087.
 

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