Homem de Capelinha | AGÊNCIA FAPESP

Sambaqui do Vale do Ribeira, no Sul do Estado, guardava crânio de nove mil anos
(foto: Eduardo Cesar)

Homem de Capelinha

08 de junho de 2005

Por Marcos Pivetta

Revista Pesquisa Fapesp - Os primeiros habitantes pré-históricos da região hoje conhecida como o Estado de São Paulo estavam aqui um ou dois milhares de anos antes do que se imaginava – aproximadamente dez mil anos atrás, sem paródia à música de Raul Seixas – e eram um povo singular, com uma identidade ainda em construção. Estavam a meio caminho entre o homem do mar e o homem do mato. A rigor, não eram uma coisa nem outra, provavelmente um híbrido dos dois.

Sua vida social emulava certos comportamentos de moradores do litoral, mas seus traços físicos lembravam, em alguns casos, os de habitantes do interior do Brasil. Eram talvez um reflexo da geografia que os abrigou: viviam geralmente próximos às margens dos cursos de água de uma zona de transição ambiental entre o planalto e a costa, o vale do rio Ribeira do Iguape, no sul do Estado de São Paulo, perto do Paraná.

Os membros dessa cultura, que estavam distantes do mar algumas dezenas de quilômetros, enterravam seus mortos e os cobriam com uma grossa camada de conchas. Eles deixavam para a posteridade um tipo de vestígio arqueológico conhecido como sambaqui, típico das populações da costa.

Ao longo de todo o litoral brasileiro, em especial em Santa Catarina, há grandes sambaquis costeiros, que, às vezes, despontam terra afora como colinas de até 30 metros de altura formadas a partir do acúmulo de mariscos, ostras e berbigões. Apenas no Vale do Ribeira existe uma quantidade significativa de sambaquis fluviais, embora em menor número e de dimensões bem mais modestas que os da beira-mar.

A altura dos concheiros de rios fica entre 80 centímetros e 1 metro e meio. Um novo olhar sobre o povo que construiu esses sambaquis fluviais começa a ganhar forma com os estudos feitos nos últimos anos por arqueólogos, geofísicos e biólogos da Universidade de São Paulo (USP), que participam de um projeto temático financiado pela FAPESP.

O dado mais espetacular do trabalho, que usou até técnicas geofísicas para localizar e caracterizar as concentrações de caramujos no interior dos sítios arqueológicos (veja quadro na página 42), foi a descoberta do mais antigo crânio humano encontrado até agora em São Paulo, com idade de aproximadamente 9 mil anos, talvez até um pouco mais, de acordo com a datação pelo método do carbono 14.

"A ossada estava num sepultamento situado numa camada geológica bem superficial", lembra o arqueólogo Levy Figuti, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, coordenador do projeto. "Não pensávamos que ela fosse tão antiga." Conchas próximas ao crânio sepultado também foram datadas e deram idade semelhante à da ossada.

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